Independência ou desamparo?

****Vou usar a palavra “independência” no sentido de capacidade de fazer por si só, sem a ajuda de outras pessoas. Não usarei a palavra “autonomia” porque esta, para mim, tem um sentido mais ligado a regrar-se, escolher agir de determinada forma, sem que isso parta de um estímulo externo, o medo de alguma punição ou […]

estender a mão****Vou usar a palavra “independência” no sentido de capacidade de fazer por si só, sem a ajuda de outras pessoas. Não usarei a palavra “autonomia” porque esta, para mim, tem um sentido mais ligado a regrar-se, escolher agir de determinada forma, sem que isso parta de um estímulo externo, o medo de alguma punição ou a expectativa de alguma recompensa; a independência, para mim, está ligada à capacidade, enquanto a autonomia está ligada à vontade.

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Muitas vezes temos um medo estranho de que o progresso de uma criança em uma determinada área simplesmente se perca. Digo que é estranho porque a gente não desaprende as coisas. A gente esquece detalhes, enferruja, perde agilidade, atrofia, talvez. Mas, salvo alguma condição física que nos debilite, não desaprende.

Como pais e mães, principalmente, mas como educadores de qualquer espécie, claro, nos sentimos responsáveis pelo progresso das pessoas a quem educamos. Talvez seja por conta disso que esse medo tão frequentemente nos invada quando uma criança nos pede ajuda para fazer algo que supomos que ela já saiba fazer.

O medo, claro, não é o problema. O medo é uma emoção, ninguém escolhe ter ou não ter medo (afinal, quem escolheria ter medo?). O problema é o que a gente faz com ele, ou melhor, o que ele pode nos levar a fazer se não lidarmos com ele.

É só parar e pensar em quantas vezes no nosso próprio dia-a-dia pedimos ajuda para fazer coisas que, sim, podemos fazer sós, mas que gostaríamos de ajuda ou companhia para fazer. E como nos sentimos diante de uma negativa. Por que seria diferente para uma criança?

Quando uma criança nos pede ajuda para fazer algo que já sabe fazer, ela está, de certa forma, pedindo a confirmação de que estamos ali com ela, de que estamos presentes, de que nos dispomos a ajudar. Está pedindo para que façamos junto com ela algo que, por algum motivo, ela não quer fazer sozinha naquele momento.

Que motivo é esse? Pode ser tanta coisa. O que nos leva – nós, pessoas adultas – a pedirmos ajuda? Podemos ter coisas demais para fazer e querermos um descanso, um alívio. Podemos sentir insegurança (em relação ao que estamos fazendo em si ou, talvez, ao ambiente e às circunstâncias em que aquilo está sendo feito) e querermos alguém para segurar a nossa mão. Podemos gostar de alguém que é uma pessoa muito ocupada e (consciente ou inconscientemente) acharmos que, se pedirmos a ajuda dela, ela provavelmente nos dará a atenção de que precisamos.

As pessoas costumam ter orgulho de suas conquistas, costumam gostar de vencer desafios. Um pedido de ajuda, nesse sentido, pode tanto demonstrar plena segurança de que se sabe fazer algo (e, logo, não há conquista ou desafio ali), quanto insegurança, um medo de falhar tão grande que aparece mesmo quando estamos diante de algo que já fizemos antes, com sucesso. Em ambos os casos, a pressão do “se vira” faria mais mal que bem, mas é no segundo que ela é particularmente deletéria, porque silencia um sintoma de algo muito maior e mais profundo, e que precisa ser endereçado com urgência e atenção, especialmente numa criança.

É necessário um trabalho que passa por refletir sobre a origem desse temor do “fracasso” e dos sentimentos por ele gerados – decepção, desaprovação, inadequação, desamor – um trabalho que pode, assim, ser desconfortável para as pessoas adultas ao redor dessa criança, já que pode exigir que se repense a forma como ela vem sendo tratada quando comete algo percebido como um “erro”. Muito mais fácil, naturalmente, forçar a criança a lidar com tudo isso sozinha… mas a que custo?

Negar ajuda, por isso, não me parece ser “um empurrão” em direção à independência, mas um comunicado (ainda que não deliberado) de que não há carinho ou interesse suficiente para, mesmo podendo, ajudar, a despeito do pedido. Um desamparo, portanto, a uma necessidade que pode ir além da ajuda que se pede em si.

Precisamos pensar no que estamos ensinando em termos de cooperação, empatia, companheirismo e humanidade, basicamente, quando mostramos a uma criança que as pessoas mais importantes de sua vida lhe viram as costas por capricho e condescendência, mostrando tão pouca compaixão e compreensão. Tão pouco carinho. Porque, por mais nobres que sejam as nossas intenções, é assim que a nossa negativa será percebida: como indiferença.

E me vêm à mente todas as vezes em que ouvi pessoas mais velhas reclamando de pessoas mais novas, dizendo que são egoístas, individualistas, sem consideração. Não faz sentido ensinar uma coisa a uma pessoa e depois esperar dela algo completamente diverso disso. A exemplo do que ocorre quando ensinamos obediência às crianças e depois, paradoxalmente, lhes cobramos autonomia, vamos ensinar-lhes a indiferença e cobrar delas a generosidade?

Ninguém tem como dar o que não tem nem para si. O que nunca teve, ou teve tão pouco que mal sabe reconhecer.

Sim, crianças são aprendizes e, sim, em algum momento não estaremos por perto. Mas isso não é verdade para todas as pessoas, inclusive as grandes? Não somos, todes nós, aprendizes? Não haverá, infelizmente, sempre algum momento em que estaremos sós e teremos que nos virar?

Ou será que sempre vai ter alguém para downloadar nossas séries para nós? ;)

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Letícia Penteado

Reflexões de uma mãe anarquista do século XXI.

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Renato Rovai
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