Anarca é a mãe

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25 de agosto de 2015, 11h14

O homem branco salvador

Do filme "Dogma" de 1999,

Do filme “Dogma” de 1999

O homem branco (e hétero e cis e sem deficiência e de classe média) revolucionário acha mesquinha a preocupação com o tratamento igualitário entre homens e mulheres. “Estou ocupado fazendo a revolução, amor, não posso me ocupar dessas tarefas menores!”, grita para a companheira que está na cozinha, lavando os pratos. “Quando derrubarmos o Estado e o capital, nós poderemos rever a divisão do trabalho doméstico também. Mas essa sua contribuição é igualmente importante, viu? Não fique frustrada por não poder participar mais diretamente”.

Como é grandioso o nosso cavaleiro branco de armadura revolucionária! Disposto a se sacrificar cuidando do bem-estar de todo mundo, para que as mulheres não precisem ocupar suas cabecinhas tão confusas com pensamentos políticos.

O homem branco revolucionário também considera besteira todo esse auê sobre raça e gênero no amor livre. Ora, se o amor é livre para ele, que diferença faz se não é bem assim para as pessoas com quem se relaciona, especialmente para as que fogem do padrão branco-cis-hétero eurocêntrico da “mulher para casar” que ele efetivamente apresenta para sua família?

O homem branco revolucionário fica irritado com esse exagero das feministas a respeito do suposto assédio a mulheres nas ruas. Como se isso alimentasse a cultura do estupro. Como se isso reforçasse nelas a necessidade de se adequarem ao padrão de beleza vigente. Como se não houvesse nenhuma diferença entre fazer, do nada, um elogio cordial à aparência física de uma mulher desconhecida no meio da rua e falar alguma coisa vulgar e assustadora. Como se o conceito do que é vulgar, do que é assustador não fosse completamente objetivo e fácil de ser estabelecido. Como se as mulheres não gostassem disso. Como se as mulheres não se vestissem pensando nisso. Como se as vadias elas não estivessem pedindo por isso.

Inclusive, o homem branco revolucionário não vê problema real em consumir pornografia ou usar dos serviços de prostitutas (Mas ele nega que faz isso. Claro), porque, no fundo, ele sabe que é uma profissão como qualquer outra, ele até compara o que ele próprio faz no escritório/consultório/agência de publicidade/etc dele com prostituição, afinal, é a mesma coisa, a mesmíssima exploração.

O homem branco revolucionário acha um desserviço esse papo de racismo dentro do movimento revolucionário dele. Acha que é coisa de gente reacionária infiltrada para dividir o movimento, para minar a militância. “Não é que o racismo não exista, companheiros negros de luta!”, ele fala logo, com toda a propriedade de sua voz branca numa sociedade racista. “É que devemos primeiro nos unir e acabar com o Estado e o capital. Depois teremos tempo para lidar com essas questões identitárias menores. Mesmo que elas não me atinjam, eu posso falar, afinal, eu sei o que é melhor para vocês também, pessoas negras”.

Vejam só a magnanimidade do nosso herói, disposto a salvar as pessoas negras de sua própria ignorância egoísta, que as faz insistir em querer lutar contra a opressão que as fere e mata, ao invés de se unirem ao homem branco revolucionário iluminado em prol da salvação de todes. Porque, né, se somos todes iguais, para que isso de falar de opressões específicas da população negra?

O homem branco revolucionário, em seu íntimo, torce o nariz para “a sopa de letrinhas” – LGBTIAQ. E, apesar de ele não repetir em público as piadinhas que faz privadamente a respeito, ele não consegue deixar de rolar os olhos quando as pessoas batem nessa tecla tão desimportante diante da real causa fundamental, básica, primordial e essencialíssima que é a luta de classes.

Que visionário é o homem branco revolucionário, gente! Enxerga mais longe que o olho de thundera. Que bom que ele está aí para cuidar dos melhores interesses dessas pessoas que não percebem o quanto são muito mais oprimidas por sua classe que pela fobia com que a sociedade recebe sua existência.

O homem branco revolucionário não tem tempo para discutir adultismo, afinal não existe relação de opressão entre pessoa adulta e criança, porque criança não tem querer, tem que aprender a obedecer sem questionar os ideais revolucionários desde cedo. De que outra forma ela se tornará “um dia” (não agora, afinal, criança não é pessoa de verdade, né?) uma pessoa capaz de pensar por si mesma e dar continuidade à revolução?

Aliás, o homem branco revolucionário logo se irrita quando alguém fala das opressões que as mães sofrem. Afinal, elas deveriam ter pensado nisso antes de colocar criança no mundo! Mulher só engravida se quiser. Ele próprio faz sempre questão de usar camisinha de vez em quando. E para que ter filhes hoje em dia? Não é como se fosse de interesse coletivo, como se a continuidade da espécie dependesse disso. É muito egoísmo, muito narcisismo da mulher. Pior ainda que alguém tenha filhes biológices ao invés de adotar, porque, né, criança é tudo igual, tanto faz uma ou outra, se faltou aqui e sobrou ali, vamos compensar realocando.

É que, para o homem branco revolucionário, a causa mesmo, de verdade, é só a luta de classes. E “todo o resto” só entra no caminho, porque, para ele, misteriosamente (ou convenientemente) são coisas mutuamente excludentes. O homem branco revolucionário, aparentemente, não é capaz de lidar com mais de uma coisa ao mesmo tempo, coitado. Essa é a criptonita dele. E ele logo dirá que é estratégia reacionária para desviar o foco da revolução. E isso é muito confortável para o homem branco revolucionário, porque para fazer a revolução lá fora, ele não precisa mudar nada dentro dele; não precisa analisar seus privilégios, desconstruir seus preconceitos.

O homem branco revolucionário talvez não se dê conta de que, enquanto forem mantidas as hierarquias sociais que sustentam seus muitos privilégios, Estado e capital se manterão firmes, já que não é possível a abolição de Estado e capital enquanto as pessoas não forem capazes de cooperar verdadeiramente, isto é, sem coerção estatal ou recompensa capital; e a cooperação real simplesmente não acontece enquanto as pessoas não se veem como iguais.

Mas o mais interessante do homem branco revolucionário, esse grande vanguardista natural, é que, apesar de ele ser, muitas vezes, alguém que nasce, cresce e morre com dinheiro na mão e sem que nada jamais lhe falte, ele ainda se julga mais conhecedor do que realmente precisam e pensam e querem as pessoas que uma realidade completamente diferente da dele, pessoas para quem a carência é uma constante. E ele se julga no total direito de culpabilizar essas pessoas pelas escolhas “erradas” que elas fazem, ou, pior, fala delas como se fossem “crianças” (lembra? Aquelas pessoas que não são pessoas de verdade? Então).

Pode ser, também, que o homem branco revolucionário entenda perfeitamente toda a problemática de sua postura (ele é tão inteligente, culto e perfeito, afinal), mas relute em abrir mão de suas regalias de opressor por absoluta falta de empatia.

Ao se deparar com críticas à sua miopia em relação à diversidade e a natureza interseccional das opressões à sua volta, trata logo de silenciá-las. Acusa logo a outra pessoa de “ter mentalidade pequeno-burguesa” e “pós-moderna”, cita uma meia-dúzia de autores, cola três, quatro, cinco parágrafos pesados, prolixos, enfadonhos de algum texto chatíssimo que apenas repisa a opinião dele, sem maiores elucidações a respeito, se nega a falar com pessoas que “ainda” não leram x e y e logo enterra interlocutores em seu academicismo que, no final, é precisamente o que mantém à margem do movimento as pessoas que não têm acesso ao bolorento conhecimento acadêmico que ele próprio valoriza. Ou seja, que mantém à margem do movimento as pessoas mais pobres que ele, as próprias pessoas cujos interesses ele diz defender (e representar, olha só! Afinal, ele é um homem branco revolucionário, não há local de fala que esteja fechado a ele).

Ainda bem que nós temos esse grande intelectual homem, branco e revolucionário para nos explicar bem explicadinho, de forma hermética, nebulosa, obscura e até meio mística aquilo que a nossa mente não é capaz de absorver pela razão.

Seja como for, no final das contas, o homem branco revolucionário é um samba de uma nota só, que se desafina ao se olhar no espelho.

Quem não conhece algum?


 

Atualização: Esqueci de fazer um agradecimento especial ao meu amigo César, do Papo Subversivo (https://www.youtube.com/channel/UCeE-HQwnj9f7cutJU-ms_ag), afinal, a ideia do texto surgiu numa conversa com ele a respeito de homens brancos revolucionários. Obrigada, César! =)


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