Anarca é a mãe

No rastro do óleo do Nordeste
29 de setembro de 2014, 12h37

O sexo frágil – ou por que eu preciso do feminismo

Encontrado em blueberrymouseyumi.deviantart.com

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“Você é uma mulher forte”. Eu já gostei de ouvir isso.

Hoje, não é que me ofenda. Mas eu tenho outra sensação quando dizem isso para mim. Eu falo palavrão, digo o que penso sem me desculpar, ocupo espaço, olho nos olhos, tenho um aperto de mão firme… eu ajo sem demonstrar medo de ser quem eu sou. Em outras palavras, sou, em pequenas coisas e muitos trejeitos, o que a maior parte das pessoas esperaria de um homem. Daí que sou “forte”.

Por isso, dizerem que eu sou forte virou, para mim, um biscoitinho que o patriarcado (o machismo institucionalizado) joga para mim por eu ser “mais homem e menos mulher”. Porque ser mulher é ser fraca.

Essa mudança na minha percepção aconteceu porque eu hoje sei que essas coisas não são o que me faz forte. Se eu sou forte – e sim, eu sou forte – é porque eu sobrevivi. A minha mera presença no mundo neste momento comprova a minha força. Eu lutei e eu prevaleci.

Contra quem?

Eu poderia dizer que foi contra mim. E não seria exatamente uma mentira.

Mas seria mais preciso dizer que eu lutei contra a gaiola de expectativas que me aprisionava e aquilo e aqueles que a mantinham em pé. Não era bem contra o meu eu, mas contra um falso eu, montado ao meu redor, sufocando as minhas verdades e filtrando a luz e o som e os cheiros e os gostos que vinham do mundo lá fora.

Eu lutei, eu venci. Eu quebrei muitos ossos, lacerei minha pele. Mas um dia enfim as barras se partiram e eu consegui olhar lá para fora e me mesmerizar com todas aquelas estrelas no céu. Eu nunca soube que a noite poderia ser tão linda. Tão serena.

Tive medo de voar, de minhas asas não funcionarem, do som que meu corpo faria quando batesse no chão – a insignificância da minha existência exposta pela mundanidade do mesmo baque surdo que poderia ser, digamos, de um saco de batatas. As luzes se apagariam e nada mais. O mundo continuaria a girar, impassível.

Mas eu saltei. Porque tinha que saltar. Porque eu queria viver. E foi isso que me fez mais forte.

A cada mulher que eu vejo, vejo também uma gaiola – às vezes inteira, às vezes já em pedaços, mas sempre, no fundo, a mesma gaiola que eu um dia vi por dentro. E vejo alguém que também sobreviveu. Porque ela está ali, diante de mim.

E ela pode ter mãos delicadas e dedos finos que parecem algodão entre os meus. Ela pode ter olhos que se encantam com o chão a todo instante. Ela pode ser pequena e usar palavras doces, corar diante de qualquer impropério. Ela pode se encolher quando lhe gritam, chorar quando não consegue falar. Ela pode calar diante das injustiças que sofre, que outras pessoas sofrem. Ela pode olhar para a própria dor e repetir para mim e para si mesma que “não foi nada, não é nada, vou só ali colocar um bandeide, que bobagem a minha sofrer por isso”.

Mas ela é forte. Porque, como eu, ela chegou até aqui. E, por isso, eu não consigo deixar de ver algo de mim nela e algo dela em mim.

Eu preciso do feminismo porque ninguém deveria ter que ser forte para sobreviver.


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