terça-feira, 22 set 2020
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O terrorismo machista

*****AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: violência doméstica, violência contra criança, chacina de Campinas, terrorismo machista.*****

Aconteceu na virada do ano, em Campinas. O cara, inconformado com o regime restrito de suas visitas ao filho, matou doze pessoas, dentre elas a própria criança.

O menino foi o último a ser morto, antes de o próprio atirador cometer suicídio; é de arrepiar os cabelos imaginar uma criança de oito anos assistindo ao seu pai atirar em quinze pessoas, matando imediatamente onze, dentre as quais sua mãe.

Na carta que o cara escreveu “para o filho” (uso as aspas porque ele próprio sabia que a criança jamais a leria, ou seja, a carta foi para nós mesmo), ele fala como se fazer isso fosse em benefício deste. Eu acho chocante esse nível de falta de empatia com a criança. De adultismo. Me lembrou aquele papo de “ah, ele é um bom pai, mas um péssimo marido“.

Isso sem nem entrar no “detalhe” de que ele matou o menino também.

Não é possível falar a respeito sem pensar no ditado “jogar o bebê fora com a água do banho”. Mas daí a gente rapidamente se dá conta de que o “bebê”, isto é, aquilo de que esse cara estava tentando cuidar ali, não era o filho dele. Se fosse, o desfecho teria sido outro.

Eu vi um pessoal classificando o ocorrido como “terrorismo da ultradireita”. Porque a carta falava mal da Dilma. Porque a carta descia o pau nas feministas e nas “vadias”. Porque a carta falava como se ser preso fosse ir para uma colônia de férias sustentada pelo dinheiro público. Dentre outros pontos que costumamos ver nos discursos da direita.

Mas eu discordo dessa análise.

Eu imagino os mesmos atos e uma carta que falasse de “matar a vadia burguesa”. De “sistema machista que acha que apenas a mulher tem condições de cuidar de criança”. De “não vou preso porque não quero meu corpo sob a jurisdição do Estado”.

Desde que existem ideologias, existem as pessoas que se utilizam delas para justificar atos pessoais seus. E não estou apenas falando das pessoas que deturpam ideais, como ocorreu na ditadura soviética, ou na inquisição medieval. Estou falando do cara que, em meio à ditadura militar brasileira, denuncia alguém como terrorista, não porque ela seja comunista, por “dever cívico”, mas porque ela ocupa um cargo numa instituição que ele próprio quer ocupar, ou teve um caso com a esposa dele.

Estou falando inclusive da pessoa que faz isso enquanto se ilude e delira que está fazendo isso imparcialmente, por dever cívico sim, que o resto é só coincidência.

O que aconteceu no reveillon em Campinas foi um ato de terrorismo machista. Assim como a chacina do Realengo. Assim como a chacina de Santa Barbara, nos EUA. Terrorismo machista. E adultista, neste caso, quero evidenciar, para que não se perca a reificação, a objetificação, a desumanização da criança que atos desse tipo demonstram.

Terrorismo. No sentido de ato praticado com o intuito de aterrorizar, de forma a compelir pessoas a agirem ou deixarem de agir de determinadas formas. No caso, mulheres a deixarem de se proteger de homens abusivos, deixarem de proteger suas crianças de homens abusivos, deixarem de buscar afastarem-se de homens abusivos. E aceitarem que o abuso masculino e paterno faz parte da vida, e que temos que suportá-lo, senão…

Mesmo quando não ocorrem mortes, mesmo quando não há notícias nos jornais, toda vez que uma mulher é exemplarmente punida por proteger ou defender a si mesma ou outrem de violência machista e adultista, isso é feito para mandar um recado a todas as outras mulheres: “é isso o que acontece com as vadias”.

(E nós sabemos quem são as vadias, né? Todas nós somos, já fomos ou seremos vadias para algum, alguns ou muitos homens em algum momento das nossas vidas. Porque o critério que separa a vadia da “mulher de bem” na cabeça de um homem assim é “fazer o que eu quero que ela faça”.)

E por que é tão importante para mim diferenciar o terrorismo machista do terrorismo da ultradireita, já que esta é tão ostensivamente machista?

Porque a misoginia, o adultismo e o machismo – e inclusive o terrorismo machista – não é exclusividade da direita.

É terrorismo o ostracismo da moça que ousou denunciar o esquerdomacho desconstruidão como abusivo em seu grupo social. É terrorismo o assédio moral à funcionária que ousou não engolir as piadinhas machistas do chefe. É terrorismo a perseguição à mulher que ousa falar de feminismo em seu blog. É terrorismo a recusa de orientação na pós-graduação à acadêmica que ousou não deixar quieto o assédio sexual que sofreu do professor. É terrorismo a recusa de trabalhar com a modelo que denunciou o estupro pelo fotógrafo badalado.

E tudo isso rola independentemente de sigla de partido, se há partido ou não, se a ideologia é de cá, de lá, de cima, de baixo. Porque o que a direita e a esquerda têm em comum é sua dificuldade de reconhecer e desconstruir as opressões identitárias que as habitam, dentre elas o machismo.

Por exemplo, entre quem culpou a mãe do menino pela chacina esteve não apenas a ultra direita que acha que mulheres são, por princípio, vadias que merecem ser tratadas com violência. Apareceu também gente de “esquerda” que acha que ela foi irresponsável porque “ela teve a chance de pedir uma medida restritiva e não o fez”. Porque ela fez diversos boletins de ocorrência, mas não quis dar continuidade processual a eles. Porque “faltou empoderamento” para ela. Porque não adianta o Estado prover os meios para que a mulher se proteja, a mulher tem que querer se proteger. E blablablás afins.

(Como se medida restritiva fosse encantamento que te protege magicamente, ao invés de um pedaço de papel que diz que você pode pedir socorro se essa pessoa se aproximar de você. Você pode. Se você vai conseguir, se o socorro vai aparecer, etc., são outros quinhentos. E como se, também, processar o cara criminalmente fosse de alguma forma proteger a essa mulher – e sua família. Ele dificilmente seria preso, já que injúria, ameaça e mesmo agressão sem lesão corporal são crimes que dificilmente são puníveis com prisão hoje em dia; continuaria solto, só que ainda mais revoltado – coisa que ela tinha razão de temer – e ela estaria processando criminalmente o pai do filho dela, algo que seria desgastante não só para ela, mas para o filho dela também.)

Voltando ao assunto. Me irrita demais ver gente dita de esquerda que chama de pós-modernismo, de “desvio do foco real” falar sobre feminismo, sobre antiadultismo e a luta contra outras opressões identitárias, subitamente garrar nessa paixão toda de defender mulheres e crianças dos “monstros que a direita cria”, sem a menor disposição de olhar para si próprie e ver o que tem de semelhante com esse monstro.

Sim, porque esse papo de monstro existe, principalmente, para duas finalidades. A primeira é para desumanizar o “monstro” e tornar possível que ele seja tratado de forma desumana. A segunda é distanciar o “monstro” da gente. E a gente se sentir a salvo de praticar monstruosidades, porque, né, não somos monstros, então não temos nem que pensar sobre isso. Só que não.

Tanto há monstros na esquerda que eles são capazes de usar uma tragédia como essa como alavanca política. E isso não é só hipocrisia e oportunismo. É token, machismo e adultismo também.

Letícia Penteado
Letícia Penteadohttps://leticiapenteado.wordpress.com/
Reflexões de uma mãe anarquista do século XXI.