Anarca é a mãe

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06 de fevereiro de 2017, 13h31

Ode à raiva

Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

Acho que, na superfície, a emoção com que eu estou mais familiarizada é a raiva. Essa que, para tantas pessoas, é a marca da involução. Eu gosto da minha raiva. Ela é parte de mim e minha aliada, porque me dá clareza quanto ao que eu queria que fosse e não está sendo e me ajuda a agir de forma a mudar isso. Ela nasceu da necessidade. Do perigo daquilo que me parecia a morte e do medo que veio desse perigo.

No fundo, creio, o que eu sinto com mais frequência é medo. Ou vergonha. Ou medo de sentir vergonha, vergonha de sentir medo ou até medo de sentir medo. Só que, como tenho medo de que todo esse medo e essa vergonha me absorvam, me engulam (porque são emoções que me incomodam muito mais), não passo muito tempo de papo com eles;  assim que dão as caras, eu chamo a raiva, meu leão-de-chácara emocional, para tirá-los da minha frente.

E daí, quando ela chega, tenho dificuldade de não permitir que ela se espalhe e tome conta de mim. Que me cubra e me possua.

Ela é tão sedutora! Tão brilhante, tão gloriosa, tão linda. Ela me faz sentir grande, poderosa, desinibida. Temida e destemida.

É tão melhor do que me sentir vulnerável. Fraca. Impotente. Assustada.

Minha raiva avança. Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

Ao contrário da minha tristeza, que contempla, suspirante; ou do meu medo, que se retrai, vacilante; ou da minha vergonha, encolhida, autoflagelante…

A minha raiva avança.

Ela me impele, às vezes tão subitamente que eu só me dou conta depois, quando já estou lá adiante. O mais mínimo fôlego que eu lhe dê faz com que exploda como uma labareda, esquentando meu corpo para a ação, estufando meu peito, erguendo a minha cabeça, afiando a minha língua, enchendo meus músculos de sangue e meus olhos de brilho orgulhoso.

Quando estou dentro dela, é como se eu me tornasse um estupendo e estúpido cavalo feito de fogo, os olhos tapados para tudo o mais ao meu redor, galopando furiosamente em frente até o meu corpo se exaurir, o resto de mim reduzido a assistir, em transe, àquele espetáculo de luz e sombras, muitas vezes mais horrorizante que belo, mas sempre hipnotizante.

Ela já salvou a minha vida e quase me matou tantas vezes, de tantas formas diferentes… ela me consome e some, me abandonando nos escombros do incêndio que se passou, o medo e a vergonha a me espreitarem, agora sozinha, em cada canto da escuridão.

Mas eu gosto da minha raiva. Num mundo em que há apenas dominar ou ser dominada, ela é o que tantas vezes me ajudou a escapar do segundo caso em direção ao primeiro. E me fez companhia quando eu não consegui – embora seja uma companhia um tanto destrutiva essa raiva enjaulada, que não tem para onde ir nem como agir, que se bate e debate e me bate, recusando-se a ceder lugar à tristeza, ao luto, à aceitação daquilo que nem eu nem ela temos como mudar.

Sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

É só que faz um tempo que eu não quero mais viver num mundo em que há apenas dominar ou ser dominada.

Quero, por exemplo, conseguir ouvir as mensagens que me incomodam, apesar de elas me incomodarem – quem sabe tem alguma coisa importante nelas? – e fica difícil de ouvir qualquer coisa com a balbúrdia da minha raiva rolando.

Quero também enxergar o mundo à minha volta; ver o quadro todo, não só sair de A e ir para B em uma linha reta. Porque vai que tem outros caminhos que eu possa pegar, outras trilhas que eu possa abrir. Outras formas de viajar. Outros lugares em que chegar. Que não envolvam brigar para estar em cima ou me deixar ficar por baixo.

Eu gosto da minha raiva. Agradeço à minha raiva. Sem dúvida, foi também ela que me trouxe até aqui, que fez de mim quem eu sou. E eu gosto de quem eu sou.

Mas eu não quero mais ser passageira – nem dela, nem de ninguém.

Vou colocar um banquinho do meu lado, e aprender a ensiná-la a sentar ali para me contar o que ela tem a me dizer. Um banquinho, aliás, onde o medo e a vergonha também poderão se sentar e conversar comigo um pouco mais, para a gente se conhecer melhor. Quero que eles todos possam me abraçar, mas quero algum espaço para que não me envolvam por completo. Afinal, eu não pertenço a eles; eles pertencem a mim.

Não vai ser fácil, nem indolor; e eu vou, muitas vezes, falhar… mas eu sou filha de Marte num tempo de fogo. Nasci para guerrear. Para ser forte. Para ser brava.

E agora eu entendo que há bravura na vulnerabilidade e força no medo. E que a gente pode mudar de planos no meio da nossa jornada. Porque a guerra… é cansativa. E solitária.

E quando eu estiver sumindo dentro das minhas emoções, há pessoas que podem me ajudar a voltar à superfície e colocá-las de volta no banquinho ao meu lado.

Eu só preciso lembrar de pedir.


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