Quem cuida de quem cuida?

A maternidade não é simplesmente uma escolha pessoal. Nós, mulheres, somos constantemente empurradas no sentido dela. É uma pressão exercida tanto de forma direta e descarada, pela cobrança por parte das pessoas (conhecidas ou desconhecidas, já que, aparentemente, o status reprodutivo de uma mulher é assunto aberto ao comentário do grande público), quanto de forma […]

????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????A maternidade não é simplesmente uma escolha pessoal.

Nós, mulheres, somos constantemente empurradas no sentido dela. É uma pressão exercida tanto de forma direta e descarada, pela cobrança por parte das pessoas (conhecidas ou desconhecidas, já que, aparentemente, o status reprodutivo de uma mulher é assunto aberto ao comentário do grande público), quanto de forma indireta, toda vez que é repetida a mensagem de que o amor só é completo, e a mulher, realizada, depois des filhes. Que a existência de crianças de alguma forma impedirá o homem de abandonar o relacionamento – e que a pior coisa que pode acontecer no mundo a uma mulher é ela “perder seu homem”.

Não raro, com o intuito de convencer mulheres a procriarem, ouve-se, inclusive, a “ameaça” da solidão na velhice (“quem vai cuidar de você quando você estiver velhinha?”), como se esse fosse um mal que acometesse apenas as pessoas sem filhes. Aliás, preciso dizer que o mesmo adultismo que transforma crianças em ferramentas para punir a mulher que ousa fazer sexo (“abriu as pernas? Agora cria”) é o que fundamenta o egoísmo que coloca pessoas no mundo para que, no futuro, elas retribuam esse “favor” prestando sua companhia, não por vontade, mas por sentirem-se obrigadas a isso.

Além disso, o aborto continua sendo crime, a educação sexual segue, em geral, precária, tanto dentro quanto fora de casa, a maior parte das medidas contraceptivas e anticoncepcionais realmente seguras e sem o risco de efeitos colaterais graves (a pílula, por exemplo, hoje se sabe que causa diversos problemas de saúde) são inacessíveis para a maior parte da população, e a laqueadura ainda é tabu, sendo inúmeros os casos em que se busca a cirurgia e nenhume profissional se dispõe a fazê-la, por uma questão de paternalismo, puro e simples (a suposição de que a mulher que está ali, pedindo para ser esterilizada, na verdade não sabe bem o que quer da vida e tem que ser protegida de sua falta de noção por essa pessoa maravilhosa que é formada em medicina).

Enfim, por tudo isso, tratar a maternidade como se fosse um capricho da mulher, uma escolha pessoal dela e só, é de um simplismo muito conveniente para uma sociedade que adora cobrar, mas detesta pagar.

Mas, ainda que o único fator que levasse hoje uma mulher a ter filhes fosse a vontade dela própria de fazê-lo (e, sim, há casos em que isso é verdade e tenho o privilégio de me incluir entre eles), isso não apagaria o fato de que é de interesse da sociedade que ela o faça. Sim, pois, sem crianças hoje, não haverá pessoas adultas amanhã. Trata-se da continuidade da espécie humana.

Você pode não sentir a menor necessidade de que as crianças ao seu redor existam agora, mas, no futuro, elas serão as pessoas de cuja existência e trabalho o seu bem-estar, talvez até mesmo a sua sobrevivência, dependerão. A menos, é claro, que você pretenda se mudar para uma ilha deserta e lá viver até o fim dos seus dias.

Não à toa, em países em que a pirâmide social se inverteu (ou seja, em que há menos pessoas jovens que pessoas de mais idade) há hoje políticas de incentivo à maternidade, incluindo a busca por imigrantes que tenham crianças na família, tamanho o desespero.

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Ou seja, ao invés de torcer o nariz para a mulher que está com um bebê no colo, lembre-se que ela está prestando o serviço de aumentar o contingente populacional humano ao seu redor. Especialmente se você próprie não tem ou não pretende ter filhes, agradeça pelo fato de outras pessoas estarem dispostas a fazê-lo e procure entender as necessidades específicas delas, ao invés de tratá-las como se não devessem existir.

E não é apenas de interesse da sociedade que bebês continuem nascendo; é de interesse da sociedade que esses bebês sejam bem nutridos, bem amados e bem educados. Mesmo que sejamos absolutamente egoístas e não sintamos qualquer empatia por crianças, ainda será melhor para todes que elas recebam sempre os melhores cuidados possíveis. Porque, quanto melhor nutridas, mais saudáveis e menor o custo para o nosso sistema de saúde, por exemplo. Maior a sua força e disposição para o trabalho. Quanto melhor educadas e amadas, maior a probabilidade de que se tornem pessoas empáticas, cooperativas, conscientes da coletividade ao seu redor, perceptivas de suas individualidades como partes do todo em que estão inseridas. E por aí vai.

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Por isso, a presença de crianças na nossa sociedade e a forma como elas aí são tratadas é relevante para todo mundo, e não só para quem fez a escolha de tê-las e cuidar delas dentro de suas casas. É de interesse de toda a coletividade que elas continuem nascendo e que encontrem ambientes propícios para se desenvolver.

Daí, a questão é: como podem as crianças ser bem nutridas, bem amadas e bem educadas num contexto em que suas mães estão sempre sobrecarregadas e estressadas, forçadas a escolher entre ses filhes e si mesmas, seu trabalho ou seus estudos?

Quantas mães se sentem apoiadas em sua maternidade? E quantas se sentem isoladas e desamparadas?

Quantas sentem que a conciliação da maternidade com suas carreiras profissionais, acadêmicas, etc., foi facilitada pela sociedade como um todo e pelas pessoas ao seu redor? E quantas sentem que, tão logo pariram, suas presenças se tornaram indesejadas em qualquer ambiente que não sejam seus lares?

A criança é muitas vezes tratada como um castigo (em alguns casos divino, inclusive), e frequentemente é vista como um estorvo para a mãe, uma coisa cuja existência inevitavelmente a impedirá de viver uma vida plena. Como se não houvesse nada que qualquer pessoa pudesse fazer a respeito – “que pena que ela engravidou… vai acabar largando a faculdade”. Eu acredito que todes deveríamos empreender um esforço maior para a inclusão real das mães e de suas crianças. Porque, na verdade, o problema não são as crianças – crianças são pessoas, não problemas. O problema é a atitude das pessoas adultas que se recusam a fazer a parte que lhes caberia e teimam em excluir mães e crianças do convívio social.

Até mesmo na militância nós vemos isso. Pessoas que não compreendem as dificuldades das militantes que são mães, que não admitem a presença de crianças em reuniões, nem buscam soluções alternativas, pessoas que cobram tempo e disposição que mães muitas vezes simplesmente não têm e acabam perdendo a voz no movimento por isso.

E essa marginalização é especialmente danosa na esfera profissional, porque, apesar de ser também particularmente sentida na esfera acadêmica, trabalhar não é, para a maior parte de nós, uma escolha, mas uma necessidade imposta pela sociedade capitalista em que vivemos. A atitude que dificulta que alguém trabalhe coloca em risco a sua própria sobrevivência ou, no mínimo, seu bem-estar, na esmagadora maioria dos casos.

Costumamos dizer que nós, mulheres, “conquistamos” o mercado de trabalho (me refiro aqui, claro, ao trabalho antes pensado como “masculino”). Mas será que isso é mesmo verdade quando quem teve que se adaptar fomos nós?

Penso que, se as mulheres tivessem entrado no mercado de trabalho com o mesmo status de seus colegas homens, suas particularidades pessoais e suas necessidades especiais, inclusive as relativas à maternidade, seriam levadas em consideração e acomodadas, ao invés de repudiadas e inclusive usadas como desculpa para que não sejamos contratadas ou o sejamos em piores condições que os homens.

Nós fazemos todas as adaptações para que eles não tenham que fazer nenhuma. Sequer se espera que pais abram mão de suas carreiras profissionais e acadêmicas. Da cervejinha e do futebol com os amigos.

Mesmo quando as mães se mantêm trabalhando, suas carreiras sofrem interrupções muito maiores e mais frequentes que as de seus maridos, que costumam ser tratadas como prioritárias mesmo quando eles ganham menos. Essa tendência, claro, se agrava em caso de separação.

Sim, a criança precisa da mãe. Mas será que apenas a mãe pode suprir todas as necessidades da criança, vinte e quatro horas por dia? E será que, mesmo nos casos das necessidades que só podem ser supridas pela mãe, não há nada que se possa fazer para facilitar que isso ocorra sem prejuízo para outros aspectos da vida dela?

As necessidades específicas da mãe e da criança são tratadas como se fossem algo que a mãe tem que ou se virar sozinha para satisfazer (o que sobrecarrega a mãe) ou forçar a criança a lidar com sua não satisfação (o que sobrecarrega a criança). É como se um tratamento diferenciado para suprir essas demandas fosse um privilégio e não o acolhimento de particularidades que surgem do atendimento de um interesse que é, como demonstrado, inegavelmente coletivo.

Mães e crianças oficialmente fazem parte da sociedade, mas, na prática, apenas usufruem dela na medida em que conseguem se adaptar a estruturas idealizadas para pessoas adultas e sem filhes – este é o padrão e tudo o que “se desvie” disso deve ser “corrigido” (anulado, neutralizado ou silenciado) para que se mereça conviver de fato. Quem não consegue “se corrigir”, na prática fica de fora, para escanteio: crianças são discriminadas por serem crianças, ou seja, pessoas que têm necessidade de correr, pular, verbalizar, de instalações específicas, de espaços minimamente seguros, etc.; e mães são discriminadas por serem mães, ou seja, pessoas que precisam de horários flexíveis, de contato com ses filhes, etc.

Viver em sociedade significa estar junto de outras pessoas, mesmo que diferentes de nós. Significa respeitar a diversidade e acomodar as necessidades específicas de cada pessoa, de forma a possibilitar sua efetiva participação na vida em comunidade. Não é o indivíduo que tem que adaptar suas necessidades ao que a sociedade considera cômodo; é a sociedade que tem que se adaptar para satisfazer essas necessidades, mesmo que tenha que sair de sua zona de conforto para tanto.

Não se trata de pessoas sem filhes trabalharem mais para “as folgadas” com filhes trabalharem menos. Não se trata de forçar pessoas sem filhes a conviver com crianças mesmo quando elas não quiseram tê-las. Trata-se de entender que pessoas com filhes já têm uma carga de trabalho descomunal em comparação a quem não tem filhes, e que essa carga vem de um serviço que, no fundo, está sendo prestado para toda a coletividade, inclusive quem não pretende procriar.

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Letícia Penteado

Reflexões de uma mãe anarquista do século XXI.

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