Sobre amar Kilgrave

*** ATENÇÃO!!! Este texto contém spoilers da primeira temporada da série Jessica Jones, da Marvel (disponível no Netflix). Tejem avisades. ;) *** Jessica Jones é uma série sobre uma moça que tem superforça e trabalha como detetive particular. A personagem, interpretada por Krysten Ritter, é egoísta, cínica, sarcástica… na verdade, ela é bem daquele jeito […]

Jessica Jones

*** ATENÇÃO!!! Este texto contém spoilers da primeira temporada da série Jessica Jones, da Marvel (disponível no Netflix). Tejem avisades. ;) ***

Jessica Jones é uma série sobre uma moça que tem superforça e trabalha como detetive particular. A personagem, interpretada por Krysten Ritter, é egoísta, cínica, sarcástica… na verdade, ela é bem daquele jeito que tantos personagens masculinos (especialmente os de histórias de detetives) são e todo mundo acha “adorável” (vide Gregory House, Sherlock Holmes, uma pilha de personagens interpretados pelo Bruce Willis, aquele do Tim Roth no Lie to Me, e mais tantos outros – todos? – anti-heróis homens por aí).

Um dos aspectos mais interessantes do enredo é a forma como ele aborda e retrata violência sexual e relacionamentos abusivos. A série mostra uma mulher traumatizada, assombrada por memórias das quais não consegue se livrar, que a assaltam a qualquer momento, fazendo-a reviver uma dor que ela nunca foi totalmente capaz de processar.

Purple ManKilgrave, o vilão da primeira temporada, interpretado por David Tennant (o mesmo cara que fez um dos Doctors mais amados da série Dr. Who) tem o poder de controlar mentes. Ele é, sem dúvida, um psicopata típico – um narcisista que não sente remorso, nem é capaz de empatia – e seria, creio, um grande manipulador mesmo sem seus poderes.

Quando o acaso o leva até Jessica, Kilgrave apodera-se dela e a violenta continuamente, de mil maneiras diferentes, incluindo sexualmente, até que ela consegue misteriosamente se libertar, num momento em que ele, por coincidência, sofre um acidente e parece ter morrido. A história começa quando Jessica, já trabalhando como detetive e tentando lidar com o que passou, descobre que ele ainda está vivo.

Numa das cenas mais marcantes para mim, ela tem um flashback em que aparece numa “refeição romântica” com Killgrave. Ele, de costas para a câmera, diz a ela: “Pasta all’amatriciana. Você vai adorar”. E ela responde, com os olhos e o sorriso de uma boneca de plástico, vestida em roupas que a verdadeira Jessica jamais escolheria para si mesma: “eu vou adorar”.

“Eu vou adorar”. Essa cena, só essa, tão simples, já me fez chorar.

restauranteMais para frente, conforme a trama vai se desenrolando, descobrimos que Killgrave está, na verdade, “apaixonado” por Jessica. Que ele a “ama”. Ou, pelo menos, é isso que ele acha que sente, e é isso que ele diz a ela. E então, ele se propõe a “começar de novo” seu relacionamento com ela, propondo-se a não controlá-la.

Ele a corteja, sendo amável, recriando para ela a casa em que ela cresceu, punindo pessoas que foram cruéis com ela, e contando coisas de seu passado que lançam laivos de cinza sobre seu personagem. E ela responde, como seria natural a qualquer vítima de estupro e violência diante de seu agressor, com revolta e nojo.

No diálogo que foi, para mim, emblemático da temporada até agora, ele reclama da falta de intimidade com ela, ao que ela responde que isso acontecia porque ele a estuprava. Kilgrave fica chocado. Nega-se a reconhecer a violência de seus atos. Ela o pressiona e ele então diz a ela que não tem culpa. Que ele nunca sabe se as pessoas fazem o que ele quer porque elas próprias querem ou se estão sendo influenciadas pelo poder dele.

Coitadinho.

À medida em que eu assistia a essas cenas (principalmente nos episódios 7 e 8), me dei conta, com vergonha e confusão, que eu não apenas estava sentindo pena de Kilgrave, como estava me sentindo atraída por ele. Gostaria de dizer que fiquei chocada com isso, mas não seria verdade.

Uma parte de mim ainda estava sob o encanto de tudo o que ele representa. E todo o resto de mim sentia repulsa não apenas por ele, mas por aquela parte de mim mesma. Aquele pedacinho meu que, ainda, mesmo depois de sobreviver a abusadores escrotos como aquele, ainda se permitia seduzir por aquele estereótipo, mesmo que apenas em minhas fantasias.

Meu conflito interior foi tão intenso que eu fiquei obcecada. Passei a assistir de novo e de novo aquelas cenas em que ele falava de “amor”, fantasiando a respeito dele com Jessica, juntos, felizes. Eu me perdia nesses devaneios a ponto de ficar perigosamente distraída. E, claro, o tempo todo me sentia muito mal por isso. Sentia vergonha, humilhação.

Então compreendi que o que estava causando a minha fixação era precisamente esse meu julgamento de mim mesma, essa minha relutância em aceitar e acolher a menininha batida que, mesmo depois de tantos anos, ainda sentia a necessidade de transformar agressão em amor, porque daí talvez não doeria tanto lembrar daquilo tudo.

É difícil encarar o fato de que certas feridas talvez vão doer para sempre e pronto. Quando achamos que já superamos, vem alguma coisa assim e a gente vê o quanto ainda tem para a gente digerir.

Parei de tentar me impedir de pensar sobre aquilo e permiti que a minha imaginação fluísse junto a uma Jessica que dava a Killgrave todo aquele “amor” que ele tanto queria. Que o ensinava a ser um ser humano decente. Que, por algum milagre, conseguia separar, sem enlouquecer, o estuprador em seu passado da pessoa que estava diante dela no presente. E me esforcei ao máximo para não me julgar, me odiar ou escarnecer de mim mesma enquanto fazia isso. Tentei não potencializar o sentimento de vergonha, exatamente como eu faria se estivesse ouvindo a uma mulher presa em um relacionamento abusivo que ela não estivesse conseguindo deixar.

E fui descascando assim, mais uma vez, o desejo de ser amada, aprovada, especial, que um dia me levou a aceitar qualquer coisa que me fizesse sentir assim, ainda que ilusoriamente. E revisitei o desespero por agradar, a pena, a culpa por “não ser forte o bastante” para ficar com meu agressor até que ele se tornasse uma pessoa melhor, uma pessoa que não me machucasse, uma pessoa que me amasse de verdade. Como se fosse o meu papel fazer dele alguém bom ou morrer tentando.

Todas essas coisas que eu achei que já tinha superado. Todas ainda ali, ainda vivas; menores, diferentes, talvez, mas vivas. Será que um dia elas vão deixar de existir em mim? Ainda não sei. Mas acho que agora estou mais de boa com não saber.

A série foi progredindo e evidenciando a monstruosidade de Kilgrave. E, aos poucos, foi chegando aquele ponto. Aquele momento em que a ilusão se desfaz de vez e só sobra o horror e a repulsa. Aquele buraco dentro do peito, fundo, gelado, que abre quando a gente pensa “Como ele consegue fazer isso comigo?”, quando a gente se dá conta do quanto estávamos enganadas a respeito deles, do quanto aquilo não é amor. E dentro desse buraco floresce a ira.

O estalo quando ela quebrou o pescoço dele foi um dos sons mais gratificantes que eu já ouvi na vida.

Killgrave não morreu sozinho. Levou com ele mais um pouco do monstro que mora dentro de mim. E eu sou grata a Jessica Jones por isso.

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Letícia Penteado

Reflexões de uma mãe anarquista do século XXI.

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