Blog da Maria Frô

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O que o brasileiro pensa?
30 de maio de 2020, 11h59

A gourmetização do crochê na trama histórica da desigualdade brasileira

No Instagram os crocheteiros são artistas, influencers, passeiam pelas ruas das capitais europeias com suas peças fazendo lives. No YouTube, a senhorinha que faz suas peças de crochê num canto escuro da casa, com celular apoiado em barras de sabão e produz peças lindas para outras trabalhadoras como ela terá muitas dificuldades nestes tempos sombrios

Montagem/ reprodução

Eu faço crochê desde criança. Muitas mulheres da minha idade e de minha origem social, filhas da classe trabalhadora, aprenderam crochê com suas mães, avós, tias ou como eu: olhando uma vizinha que dava aulas, até o dia que ela percebeu que, mesmo não sendo aluna e não pagando mensalidade, eu estava fazendo casaquinho para o meu irmão que ia nascer. Minha vizinha me proibiu de frequentar as suas aulas com as amigas pagantes. Perdia ali a convivência com minhas amigas nas tardes depois da escola, o cheiro de tinta, cola e o colorido dos materiais para artesanato que preenchiam todos os cantos da casa de minha vizinha. Foi-se também meus avanços no aprendizado da arte do crochê.

Sempre me encantou a possibilidade de centenas de metros de um fio grosso ou fino serem modeladas por um gancho e essa trama virar uma peça única. Eu torrava a paciência de minha mãe para comprar lã e agulha. Tinha uma única agulha que era obrigada a usar para toda textura de fio e fazer milagre para construir uma peça com um novelo de lã grossa ou linha fina.

Na minha infância, crochê era atividade de meninas pobres. Meninas de classe média faziam balé e inglês. Sabemos que classe, raça e gênero são inseparáveis, assim mesmo sendo meninas de uma geração, o lugar social que ocupávamos poderia nos levar a crochetar casaquinhos para os irmãos mais novos ou fazer espacate e dizer I love you para o primeiro namorado.

Em casa a situação financeira era tão difícil que nem pagar as aulas de crochê dadas pela vizinha era possível. Por isso, até ela perceber que eu a havia transformado em minha “youtuber” e que, mesmo sem agulha e linha nas mãos, eu conseguia reproduzir as peças, aprendi o básico: correntinhas, ponto alto, baixo, baixíssimo, aumento e diminuição.

A origem do crochê é no Oriente, historiadores divergem se seu nascimento foi na China ou Arábia. A palavra popularizada pelo francês significa gancho, em alusão às agulhas de crochê que têm uma espécie de anzol em suas pontas, para puxar o fio e construir a trama. O crochê na Europa era praticado por camponeses e seu aprendizado sempre foi compartilhado. No século XIX, a prática broder au crochet (bordar com gancho) se popularizou quando Éléonore Riego de la Branchardière desenhou padrões que podiam ser facilmente copiados e os publicou em panfletos, para que outras pessoas pudessem reproduzir os desenhos em suas peças. Até hoje entre as crocheteiras experientes os “gráficos” são o caminho para a construção das peças.

O crochê gourmet e crochê popular

Fazer crochê é como andar de bicicleta, a gente pode ficar décadas sem praticar, mas é só recomeçar que todo o conhecimento aprendido retorna.

Retomei há pouquíssimo tempo essa prática que aprendi aos 10 anos. E o que me despertou essa vontade foi outro ato de generosidade. Minha amiga e companheira de trabalho, Rosane Bertotti, confeccionou peças lindas para presentear a equipe no Natal. Rosane seguia os tutoriais do Youtube e, ao ajudá-la a criar uma playlist nessa plataforma, descobri um universo de mulheres, em todos os cantos do país, youtubers do crochê.

Hoje busco tutoriais no youtube para a confecção de chales, blusas, saias, meias, golas, camisetas, toucas e uma infinidade de coisas lindas com senhoras youtubers que têm a generosidade que faltou à minha vizinha: a de compartilhar o passo a passo de suas peças. Há vídeos que a senhorinha grava sem apoio sequer de um tripé de camelô e faz uma gambiarra com potes plásticos, barras de sabão e cartelas de comprimidos para apoiar o celular.

Na plataforma do Youtube as senhoras crocheteiras dominam: algumas têm mais de um milhão de seguidores, seus vídeos tem 600, 700 mil visualizações. São, em sua maioria, senhoras muito simples que como eu devem ter aprendido crochetar na infância. Fazem peças maravilhosas e vendem barato, apesar de a prática de tecer em crochê levar tempo, cansar os olhos, e desenvolver tendinite se isso for meio de vida.

Mas ao mudarmos de plataforma, há uma completa inversão deste quadro. No Instagram os crocheteiros são artistas, influencers, passeiam pelas ruas das capitais europeias com suas peças fazendo lives, têm estúdios, as fotos de suas obras são profissionais, promovem workshops para plateias lotadas em todo canto do país. São patrocinados por grandes marcas de fios como Círculo, Euroroma. O mercado de linhas e lãs e o universo das agulhas também se gourmetizou. São linhas importadas italianas, com nomes estrangeiros e um novelo de 100 gramas ou menos pode custar até 50,00!

Mesmo assim, as senhorinhas youtubers fazem publicidade de graça para as grandes empresas de lanifício, porque para compartilhar seus tutoriais falam do tamanho da agulha, da textura do fio e acabam mostrando as marcas. Pingouin, Círculo, Euroroma bem que poderiam patrociná-las, ao menos para garantir os materiais para seu trabalho. Essas empresas não perderiam nada com isso, como disse, há vídeos com 700 mil visualizações. Os tutoriais do Youtube tem esta vantagem, são mais duradouros que matérias jornalísticas, os vídeos resistem anos a fio na plataforma e sempre crescem em visualizações e olhe que nossas youtubers crocheteiras não contam com um Felipe Neto para assessorá-las na produção.

O aumento da desigualdade no Brasil na pandemia e no pós-pandemia

Esta semana três pesquisas foram publicadas: PNAD, CAGED e os dados do PIB, levantados pelo IBGE. Os resultados de todas elas não surpreendem, mas são desalentadores para o nosso futuro. Só em abril o Brasil deu bilhete azul para 860.503 trabalhadores que deixaram o trabalho formal, com carteira assinada, para seguir na fila dos desempregados a procura de trabalho. Esse é um recorde histórico desde 1992, quando o CAGED começou a mapear o mercado de trabalho formal.

Na pesquisa da PNAD o quadro não é melhor, no primeiro trimestre deste ano, ou seja, com só um mês de pandemia, 5 milhões de trabalhadores se tornaram desalentados ou seja 5 milhões de trabalhadores desistiram de procurar trabalho porque não encontram) somados aos precarizados e desempregados chegamos a aterradora cifra de 34 milhões de trabalhadores que não estão conseguindo levar o mínimo de sustento para casa. Imaginem quando saírem os dados de abril, maio e junho!

O PIB indica recessão, o setor de serviços, que representa 74% do PIB e que emprega mais de 2/3 da força de trabalho foi estraçalhado com a pandemia e não receberá ajuda governamental. Guedes, o posto Ipiranga de Bolsonaro, disse na reunião de gangsteres de 22 de abril, que se lasquem as pequenas e médias empresas, o negócio é privatizar bancos públicos, leiloar plataformas da Petrobras pela Internet e soltar dinheiro na casa de trilhão para bancos, assim como usar banco público para patrocinar blogs de extrema-direita, produtores de fake news. Auxílio emergencial pra 34 milhões de trabalhadores na linha da miséria pode atrasar, se é que chegará. Socorro às pequenas e médias empresas que empregam uma grande massa de trabalhadores dá prejuízo na visão deste senhor escravocrata que se irrita com pobre pegando avião e saindo de férias. A economia de Guedes e Bolsonaro é cassar a Leia Áurea e jogar de vez a o Brasil num poço sem fundo.

Os economistas apontam que a crise sanitária, sem precedentes no Brasil e agravada pela condução desastrosa do governo Bolsonaro, vai agravar ainda mais a crise econômica e a recessão. Os dados do PIB, do Caged e da Pnad nos mostram que em três meses o Brasil apresenta uma crise recessiva pior que a dos anos de 2015 e 2016.

A senhorinha que faz suas peças de crochê num canto escuro da casa, com celular apoiado em barras de sabão e produz peças lindas para outras trabalhadoras como ela terá muitas dificuldades nestes tempos sombrios. O desemprego em massa impede pagar o olho da cara em novelos de lã e impede que trabalhadoras desempregadas possam comprar peças bonitas. Restará para a Farm vender vestidos de crochê a 800,00 à classe média gourmetizada, empregada, fazendo home office, podendo se manter em isolamento social e fazer compras pela Internet.

Um PS para a arte: uma amiga querida leu este post e me mostrou o trabalho de uma associação italiana que faz crochê de guerrilha, chama-se Sul filo dellarte. Essa associação congrega artistas de diferentes idades que fazem intervenção urbana, trabalhos colaborativos que envolvem crianças e comunidades. Em 2018 eles fizeram uma fantástica reprodução de Guernica em 3D toda em crochê. Maravilhoso!

Clique aqui para ver a playlist completa desta exposição


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