Blog da Maria Frô

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12 de fevereiro de 2012, 11h57

300 militantes negros no Shopping Higienópolis provocaram um frenesi nas faces brancas e rosadas da elite brasileira

Por Francisco Antero, via Facebook

02 de maio de 1967 e 11 de fevereiro de 2012. O que há em comum entre estas duas datas? Naquele primeiro momento vivia-se nos Estados Unidos da América um turbilhão de embates sobre a condição dos negros e negras na sociedade norte-americana. E naquele momento um grupo de 29 panteras negras, militantes e guerreiros em prol de um tratamento igualitário, promovem uma entrada triunfal e convicta no Capitólio.

O Congresso americano tomou um susto quando aquele grupo, aquela pequena onda negra adentrava a “casa do povo”, estavam de armas em punho, pois até ali, as leis permitiam que qualquer norte-americano portasse armas de fogo. Não era crime algum. Um tabu e medo que perseguem a sociedade burguesa desde sempre, qual seja, armas na mão do povo, do eleitor. Entraram e fizeram seu discurso antirracista perante deputados brancos e assustados. Pois bem, 45 anos depois, outra onda de tamanho dez vezes maior, mas com a mesma demanda adentrava de forma surpreendente um símbolo da sociedade burguesa atual, um Shopping Center.

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As armas que portavam não eram de fogo, eram armas verbais, armados orgulhosamente com a cor negra. Militantes do movimento negro em São Paulo após passeata entoada por palavras de ordem pegaram de surpresa a segurança do Shopping Higienópolis, eram por volta de 16:00 da tarde quando uns 300 militantes adentraram rapidamente e provocaram um frenesi nas faces brancas e rosadas da elite privilegiada deste país.

Ultrapassada as três portas principais, objetivava-se agora chegar ao ponto central desta casa que é a antítese da casa do povo. Os seguranças tentaram impedir, havendo um início de tumulto, logo superado pela onda negra que fazia pressão para que não se parassem nos corredores. Tomamos o ponto central com nossas bandeiras, com nossas palavras, com nossa cor preta.

A disposição arquitetônica deste centro mercantilista é perfeita para este tipo de ato, pois dos vários andares poder-se-ia avistar o nosso grito de protesto de onde estávamos. As forças de segurança do Estado racista brasileiro estavam em nosso encalço, mas fizeram as intervenções de rotina. Os militantes do movimento negro se revezavam no microfone para dar o recado nunca antes ouvido pela elite branca que gastava ali o dinheiro advindo do suor do povo negro deste país.

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Os olhares de perplexidade foram a tônica, incredulidade da burguesia por termos chegado até onde chegamos. Ouvir verdades nunca foi o forte desta gente. Enfatizo o fato de poder ter sido qualquer outro Shopping o alvo, mas era preciso algo a simbolizar nossa história de exclusão. Este templo do consumo carrega em seu nome a característica eugênica de nossa elite branca pensante de fins do século XIX e início do século XX.

Nossas palavras fizeram eco. Nossa intenção jamais foi reclamar participação e existência naquele ambiente de luxo. Nossa intenção era denunciar olho no olho para quem vive as custas do suor do povo negro. Encerramos a manifestação e nossa alma foi duplamente lavada pela chuva que caía sem cessar. Vivemos hoje um grande momento de Panteras Negras com esta entrada. O Povo negro deste país existe e vai exigir sua participação nas riquezas deste país, doa a quem doer.

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