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24 de maio de 2015, 18h07

Preto Zezé: SENHORAS E SENHORES, APRESENTO-LHES NOSSOS MENINOS BOMBAS!

SENHORAS E SENHORES, APRESENTO-LHES NOSSOS MENINOS BOMBAS!

Preto Zezé em seu Facebook

Tem dimensões que extrapolam a perspectiva das políticas publicas, da família. Nos falta algo mais sedutor, envolvente e agregador que essas redes marginais ( no sentido de estar a margem). Existem um mundo externo e uma socialização precoce, que faz com que esses meninos homens bombas, se moldem e explodam onde menos esperamos.

A ideia de vida que temos para eles não existe, os parâmetros civilizatórios e os contratos sociais que conhecemos, nunca foram sequer parte de suas vidas. Como eles mesmos dizem:
“Se morrer, vem outro melhor ou pior”
“Se morrer eu vou descansar”
” Ahhh sonhar, amanhã não sei nem se eu vou esta aqui”

Talvez o desafio maior é como poderemos fazer um mutirão capaz de rejuntar os estilhaços desse seres humanos. Recompor com eles acordos outros para trazê-los para o jogo oficial das regras de convivências.

Sem ingenuidade nem paternalismo, o que não quer dizer que devemos abrir mão dos nossos valores e princípios ou deixar de reconhecer que o Estado faz menos, faz pouco, que o Estado é insuficiente, que na prática, esses meninos que explodem, só são vistos, debatidos e lembrados, quando surgem das sombras e tiram vidas que são mais vidas que as suas, aliás, suas vidas são apenas números.

Estamos lidando com uma nova espécie de seres humanos que não conhecem seus pais, mal conviveram com suas mães, foram amparados pela avó, socializados e formados nas regras selvagens e mortíferas das ruas.

Eles não teriam nem tem como ter amor a suas vidas, foram educados para viver um dia como se fosse o último, a ideia de morte e vida para eles, ´é apenas questão de tempo , sabem que o tempo é curto, e como suas vidas para eles é apenas um detalhe, como esperar amor deles pela vida do outro?

Eles sabem o ódio que os espera, sabem que são diferentes, eles não compreendem a desigualdades de classe, a discriminação racial, o desprezo social, eles foram paridos desse caos.

Eles querem tudo que a tv mostra como valor para ser alguém, o tênis de marca, a gostosa da propaganda, o carro bacana, a vida de ostentação que somente os Thor da vida ostentam! Eles se perguntam: por que não? Se ele tem eu quero também!

Seus gestos, valores, simbolismo e linguagem foram forjados nesse Vietnã urbano, onde quem pode mais chora menos, e não adianta reclamar, não tem para quem apelar, é engolir o choro e ignorar a dor.

O Rancor é o escudo, onde o amor foi abortado. O medo, desde cedo, foi ensinado a ignorar, as ruas, lhe deram a frieza, malícia e o fizeram ” homem ” antes do tempo. São crianças? São! Mas podem ser assassinos também.

A pergunta que fica: Quantos meninos ‘homens bombas’ suportaremos?

Eles já perceberam que enquanto morrem na favela, no morro nas sombras dos viadutos, viram apenas números. Mas quando explodem do lado branco, asfaltista da cidade, viram machete, debate teórico, as autoridades mesmo que cosmeticamente tem de dar uma resposta, nem que para amenizar a revolta e carregar a bateria do ódio seletivo para a próxima tragédia.

Eles são a fatura de uma conta que não fecha, o oxigênio deles é a guerra, suas vidas, um combate!

Eles cansaram de tombar sozinhos, agora podem explodir em qualquer lugar, e nessa roleta russa, parece que quase ninguém está a salvo. Eles viram que não lhe restando nada diante da invisibilidade, resolveram usar todos os meios necessários para saírem da areia movediça do lado invisível da cidade.

Com vocês, nossos meninos homens bombas.

Quem ousa desarmá-los? Como fazer? Quanto mais prendemos, mais se multiplicam! Quanto mais os matamos (mais de 30 mil por ano) eles ressuscitam, se proliferam.

O Estado gasta mais recursos públicos para reprimi-los e prendê-los do que para cuidar de suas vidas em liberdade. O Estado se desmoraliza, pois como vai puni-los, se não teve moral para cuidar deles?

Diferente dos “homens bombas” do Oriente Médio, que ao morrerem em suas missões suicidas, acreditam que irão ao encontro de virgens no céu, esses meninos, fazem de suas vidas ou suas mortes, uma linguagem, um dialeto sanguinário, onde sabem que na balança da vida real dos noticiários, das comoções seletivas, eles serão sempre estatísticas, pois vivemos num mundo onde umas vidas são mais valiosas que outras.

Lembro do que ao visitar um casa abrigo com o Rodrigo Abel, encontramos o jovem Paulo ( que foi amarrado nu pelos bradocks da zona sul) , lhe abracei e pergunte como ele estava!

Ele me olhou e disse: ” Zezé, eu apanho na rua desde os 8 anos de idade (ele estava com 17), para mim ‘é normal’, a diferença de agora, é que eu tô famoso e comendo as cocotinhas da zona sul.

Bem-vindos, senhoras e senhores, ao mundo real.


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