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06 de outubro de 2008, 16h45

AI QUE SAUDADES DA ERUNDINA….

O “ESPÍRITO” DA ELEIÇÃO

Como Kassab ultrapassou Marta em São Paulo

Uma reveladora experiência de rua no domingo da eleição na maior cidade do País
Mauro Carrara

Conforme costume antigo, costumo visitar velhos amigos em dias de eleição. Perambulo pela cidade à procura do “espírito” da eleição, pois, sim, cada uma tem o seu, das barbadas aos prélios mais renhidos.

Desde cedo, notei certa tendência de defecção nos redutos “progressistas”. Havia nos fundos do Tucuruvi um jovem negro, em trajes de grife surfe, distribuindo discretamente santinhos de Kassab. Vejam bem, ele não fazia campanha para um candidato à vereança, mas para o majoritário. Só.

O rapaz é estudante do terceiro ano do segundo grau, comprou recentemente seu primeiro computador, a crédito. O pai é vigia (conseguiu carteira assinada há três anos) e a mãe é diarista. Ele atualmente não trabalha regularmente. Nos fins de semana, atua como assistente de som em bailes na região dos Jardins. É o típico emergente da nova classe C.

João (vamos chamá-lo assim) afirma que o governo Lula “acostuma mal os vagabundos” com o Bolsa Família. A mãe sempre votou em Marta, mas o pai costuma odiar qualquer petista. “Meu velho não quer saber do casamento gay em São Paulo, nem eu”, sentencia, alisando a sobrancelha.

Mais tarde, encontro-me na região do Jardim Aricanduva, na Zona Leste. Márcia (vamos chamá-la assim) come uma coxinha num bar próximo a uma escola estadual. Vai votar em seguida.

Tem uma colinha de Kassab (DEM) e de um candidato a vereador do PSDB.

– Vai votar em quem?

– Dessa vez é no Kassab – revela a moça, que graças ao crescimento da renda familiar (ela e dois irmão conseguiram emprego nos últimos três anos) pôde matricular-se numa faculdade privada.

– Por que nele?

– É o menos pior…

– E pra vereador?

– Voto é segredo. Mas vai ser no PSDB. Um amigo da faculdade me indicou. É um cara que escreveu vários livros de auto-ajuda.

– É o Chalita (ex-secretário estadual de educação)?

– A gente precisa de pessoas cultas na Câmara. Esse aí é o melhor escritor do Brasil.

– O que você já leu dele?

– Ainda não li, porque não tenho tempo. Mas esse meu amigo diz que é muito bom.

– A Marta era mais forte por aqui, não era?

– Era, mas ela fez o apagão aéreo e mandou o povo gozar depois do estupro. Tem como uma pessoa passar uma hora, uma hora e meia, esperando o avião?
– Como?
O povo ficar horas esperando o avião…

– É chato mesmo – respondo. – Mas você já viajou de avião? – indago.

– Nunca. O mais longe que fui na vida foi para Mongaguá (litoral sul).

– Entendo. E o trânsito em São Paulo?

– Péssimo. Entre metrô e ônibus, fico umas 4 horas e me
ia no transporte, todo dia. Não anda.

– E de quem é a culpa?

– Sei lá… Tem muito carro na rua. Precisava fazer alguma coisa.

– E você não acha que o Kassab tem alguma responsabilidade nisso?

– (silêncio)… Não sei. Não parei para pensar.

– Isso afeta sua vida, não?

– Muito, mas a gente tem que lidar com isso…

Quase cinco da tarde, na região dos Jardins. O filho de um amigo chega da votação com três colegas. O rapaz é o único que votou em Marta Suplicy. Dos colegas, dois preferiram Kassab. O outro votou em Geraldo Alckmin.

– Na verdade, eu e toda minha família somos malufistas, mas o Kassab é o único que pode ganhar dessa “vaca” da Martaxa – diz Paulo (vamos chamá-lo assim), exaltado.

– Sim, as taxas devem ter prejudicado muito sua família… – pondero.

– Meu pai fez a empresa dele sem ajuda de ninguém. A gente ta cansado de pagar os impostos que o PT inventou. Cada dia tem um imposto novo.

– Que imposto novo?

– Vários.
– Mas quais?
– Vários. Tudo para sustentar vagabundo nordestino. E olha que eu não sou nem um pouco racista. Tenho até amigo japonês, negro, de todo tipo. Mas com esse negócio de bolsa, o cara se acostuma a não trabalhar e fica tomando cachaça o dia inteiro. É preciso ensinar o cidadão a pescar, e não dar o peixe.

– Mas o Bolsa Família está integrado a vários projetos de promoção e inclusão. Tem a contrapartida educativa… – tento argumentar, quando sou interrompido.

– Tem nada. Isso aí é coisa da mídia que o Lula comprou.

– Mas a mídia costuma ser contra o presidente – afirmo.

– Nada disso. O senhor viaja muito, pelo que eu sei, não é? Aqui, eles inventam pesquisa para dizer que a vida do povão melhorou. Melhorou nada.

– Mas e os dados do Ipea, do IBGE?

– Eu estudo Administração. Isso é tudo mentira.

– Quer dizer que o país não melhorou em nada?

– Esse semi-analfabeto deu sorte. Aproveitou o Plano Real e o crescimento da China… Agora, quero ver. Estou só esperando para ver o que vai acontecer. E vou dar risada.

– Mas o país não estava muito bem em 2.002 – intervenho.

– O PT é o “partidão”, não é?

– Não que eu saiba – respondo.

– É sim… Eu abri os olhos de muito colega sobre esse comunismo disfarçado aí… Nessa eleição, eu convenci muito petista a votar no Kassab.

– Quem?

– O nosso motorista, o jardineiro que vai lá em casa…

Já são 18h20… Alguém grita do interior da casa: “o Kassab está ganhando”. Os três jovens urram de prazer. Está se iniciando a longa noite até o segundo turno.

* Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e de Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O casal chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro foi para a Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G. Guarnieri. Em Firenze, estudou arte, ciências sociais e comunicação. De volta ao Brasil, passou dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos povos indígenas, foi preso pelo regime militar. Libertado, voltou à Itália. Como free-lancer, produziu reportagens para jornais com
o L’Unita e Il Manifesto. Com o primo Antonino, esteve no Vietnã, no início da década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à resistência ao golpe contra Allende. No Brasil, como clandestino, aproximou-se do cartunista Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma revista alternativa italiana. Na década de 80, prestou serviços para a ONU em países como China, Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs brasileiras, especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área de comunicação e relações internacionais.

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