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10 de agosto de 2010, 23h25

Ainda sobre as crianças de Heliópolis: o brinquedo soldado da ex-primeira dama do governo de São Paulo

Recebo uma denúncia, via mail, com a narrativa de um caso  no mínimo curioso e mais três fotos retratando o ocorrido.  A pessoa diz que fez trabalho voluntário na região e estava presente no dia. Não publicarei seu nome, nem os dos autores das fotos, para preservar minhas fontes.

A Denúncia

Anualmente a UNAS (União dos Núcleos e Associações Sociais do Heliópolis) organiza  uma festa no dia das crianças e conta com ajuda de parceiros dos projetos como comerciantes da comunidade que doam brinquedos para serem distribuídos.

Em 2009, a comunidade recebeu do Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo, por meio da ex-primeira dama do estado de São Paulo, Mônica Serra, quase 18 mil brinquedos, que poderiam ser bonecas, bolas, jogos de montar ou brinquedos educativos etc. Mas, segundo  o autor do e-mail, para a surpresa geral de todos ao abrirem as caixas o pessoal das Unas encontrou o “soldado brinquedo”.

As imagens

Granadas, fuzis e facões para as crianças de Heliópolis.

Segundo relata o denunciante por e-mail, o pessoal da Unas passou uma noite inteira desarmando os “soldados brinquedos” para poder dá-los às crianças.

Boneco soldado ainda embalado. Heliópolis, outubro de 2009.

No dia seguinte o brinquedo soldado desarmado foi oferecido às crianças:

Aqui uma das crianças da comunidade de Heliópolis, com “soldado brinquedo” já desarmado, posa para foto com a ex-primeira dama do estado de São Paulo, Mônica Serra, e um policial militar.

A versão oficial

No site do Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo tem uma matéria desse dia e curiosamente, uma das fotos que me foi encaminhada, a do boneco soldado já desarmado, é uma das que também ilustra a notícia oficial. Mas na descrição dos brinquedos dados às crianças nenhuma menção ao soldado brinquedo:

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Outros lados

O secretário da Educação do Município de São Paulo, Alexandre Schneider, não quis comentar a denúncia. A assessora de imprensa da UNAS, Laís Fonseca,  desconhece o episódio.

Questões desta blogueira

Se bonecos soldados armados com granadas, facões e fuzis foram dados às crianças de Heliópolis pelo Fundo de Solidariedade é uma ação no mínimo de mau gosto.

É fato de que os especialistas divergem sobre a questão das armas de brinquedo estimularem ou não a violência. Mas me pergunto: ampliar as referências da violência no universo lúdico infantil o que acrescenta à vida destas crianças?  Mais cultura da violência? Quem foi o gênio responsável pela compra desses brinquedos dispensáveis?

Em tempo

Na sexta-feira, por telefone Alexandre Schneider respondeu às minhas questões sobre outro episódio que ocupou a blogosfera e a imprensa na semana passada. Trata-se das crianças da escola municpal de Heliópolis que foram expostas em vídeo no youtube, estimuladas por um homem (que até o momento não foi identificado), para gritarem o nome Geraldo (Alckmin) e Serra.

O PT parece que foi demovido da idéia de entrar com processo contra a campanha tucana. O partido não estaria ao menos interessado em saber quem é o ‘maestro’ trapalhão que puxa o coro de “Geraldo Geraldo, Serra, Serra? Acompanhemos.

Na minha conversa com o secretário, quis saber o que ele achou do episódio. Alexandre ponderou o fato de que não se pode usar imagens de crianças sem a prévia autorização dos pais. Assim se o vídeo foi produzido para uso de campanha além de uma ‘ação deplorável, é estúpida’. afirmou conhecer o diretor da escola, garantiu que é um excelente profissional, ‘pessoa correta’ e que ‘confia na palavra do diretor’ (o diretor nega ter autorizado as filmagens ou a saída das crianças para tal fim). E ressaltou o fato de a escola onde ocorreram as filmagens ser um espaço sem muros, integrado à comunidade.

Para o secretário isso foi um ‘ato isolado’ de algum cabo-eleitoral ‘puxa-saco’, querendo aparecer. Segundo Alexandre  ao ver o vídeo a ‘a impressão que dá é que as crianças estavam indo para o recreio e a professora, acertadamente, ao ver a aglomeração de adultos, segurou-as nas escadarias’. O diretor não será punido.

E você leitor/eleitor, leitora/eleitora,  se seus filhos fossem estimulados no espaço escolar a gritar “Geraldo, Geraldo” por um desconhecido, o que você faria?

E o que você pensa sobre o Fundo de Solidariedade dar bonecos soldados com granadas, fuzis e facões para meninos das periferias de São Paulo?


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