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20 de fevereiro de 2011, 10h24

Cablegate: Daniel Dantas. Maria Frô sugere aos embaixadores Estadunidenses: assinem Caras

Como prometido segue o primeiro bloco de telegramas das embaixadas estadunidenses publicados com exclusividade pela blogosfera progressista.

O tema mais pedido pelos leitores entre os telegramas que tratam do Brasil foi sobre Daniel Dantas. Aqui os três telegramas na íntegra (original em inglês) que tratam sobre o assunto.

Abaixo a tradução de dois deles. O primeiro traduzimos na íntegra o resumo. O telegrama faz menção ao escândalo criado pela velha mídia e seu esgoto-mor, a Revista Veja, que acusou a  ABIN de suposto grampo no Senado/STF (lembrem-se que as gravações nunca apareceram):

172491  10/3/2008 14:51 08BRASILIA1314               Embassy Brasilia             CONFIDENTIAL

C O N F I D E N T I A L SECTION 01 OF 03 BRASILIA 001314 SIPDIS STATE FOR BSC E.O. 12958: DECL: 09/16/2018 TAGS: KCRM, PGOV, PTER, PINS, BR

ASSUNTO: Escândalo de gravações na Corte Suprema muda a face da inteligência brasileira

RESUMO: Suspeitas já antigas de que telefonemas de funcionários brasileiros de alto escalão dos três poderes teriam sido interceptados foram mostradas como o mais recente escândalo na capa da revista Veja, dizendo que a ABIN [Agência Brasileira de Inteligência] teria gravado conversas entre um senador e o presidente da Suprema Corte Federal Gilmar Mendes. Pressões do STF e outros para que se tomassem medidas cautelosas para evitar uma crise constitucional entre os poderes do governo forçaram Lula a suspender o diretor da ABIN Paulo Lacerda até o final das investigações. Resultado das acusações contra a ABIN, o Congresso brasileiro considera a possibilidade de restabelecer um comitê de supervisão dos serviços de Inteligência, ideia há muito adormecida, para tentar por a ABIN outra vez sob controle.

Qualquer possibilidade de que o Congresso brasileiro aprove o pedido de Lacerda, para gravar conversações de autoridades envolvidas em casos de terrorismo fica agora prejudicada. E os esforços do Governo do Brasil para aumentar a integração do sistema de inteligência no Brasil sofreram duro golpe.

O escândalo brota, em parte, de uma crise de identidade na ABIN, ela própria manifestação do fracasso do Brasil, que [depois do fim da ditadura, como se lê adiante, no telegrama] não conseguiu articular estratégia de segurança nacional coerente e confiável que claramente delineasse as ameaças que caberia à ABIN monitorar. FIM DO RESUMO.

Nota do Maria Frô: O telegrama repete as idéias circuladas na grande mídia durante o suposto escândalo dos grampos no Senado. Desse modo o embaixador Sobel atribui um poder muito grande a velha mídia, como se ela fosse capaz nos dias atuais de derrubar governos no Brasil.

O que chama a atenção desta blogueira é o comentário do embaixador – que pode ser EXATAMENTE o que o Departamento de Estado dos EUA esperava saber. Sobel claramente diz que o governo brasileiro “fracassou”. Mas não é fracasso por, depois da ditadura, a ABIN “não saber” que ameças deveria monitorar.  O Departamento de Estado queria que o governo brasileiro aceitasse, sem discutir, alinhar-se à política externa dos Estados Unidos, a famigerada “guerra ao terror” – o que não conseguiu durante os dois mandatos de Lula. Por isso o embaixador fala em “fracasso do governo brasileiro”. Para o Departamento de Estado e para o embaixador Sobel, o governo brasileiro fracassou porque não aceitou, como cordeirinho, a ideia de que a ABIN deveria ter, como missão primordial, a “guerra ao terror”. Ou seja, as entrelinhas do telegrama, para além reprodução do discurso da mídia feita por Sobel, nos diz mais sobre as intenções da política externa dos EUA em relação ao Brasil. As demais informações do embaixador estadunidense ao Departamento de Estado dos EUA são reprodução do jornalismo estilo Veja.

Questão: quanto custa aos EUA manter um embaixador em Brasília pra ler e reproduzir ‘informações da Veja? Dinheiro gasto à toa :P Os EUA desperdiçaram muito dinheiro para manter no Brasil esse embaixador Sobel, bastariam assinar a Veja, o Estadão, a Folha de S.Paulo e a Globo pela TV a cabo, baratinho, e ouviriam as mesmas versões de fatos, investigação zero e boa informação abaixo-de-zero. Depois, cada vez que o embaixador citasse matéria (des)jornalística desses (des)jornais e (des)jornalistas, a cotação da informação ‘jornalística’, dos veículos e dos jornalistas subiria, e mais tempo sobraria, sempre, pra esses embaixadores imbecilizados tomarem caipirinha com jornalistas alugáveis, uns fingindo que procuravam e outros fingindo que forneciam, informação que prestasse.

Por exemplo: “According to several news reports, ABIN lent more than 50 officials to Operation Satiagraha, in comparison to the 23 that the DPF had assigned to the case”. E, na sequêcia:
The 12 September edition of daily newspaper Estado de Sao Paulo (sic) reported that…” E conclui: “Até agora não há provas dessa hipótese” [de que o caso tivesse a ver com o affair Dantas – que a revista Carta Capital diz que tem e a revista Veja diz que não tem] investigar que é bom….

Carta Capital dá destaque ao processo sofrido por seu proprietário, do ponto de vista jornalístico que importância tem Dantas processar Mino Carta? E pelo que se vê na revista Veja Daniel Dantas é um ‘santo’ e não faz mal que tenha processado o Mino Carta. Mas cadê provas? cadê o jornalismo?

Do ponto de vista do embaixador Sobel, o assunto “ABIN” é pura futrica – o que de fato é, do modo como foi exposto pela imprensa brasileira – e é futrica que não interessa, dado que, na futrica, nada aponta na direção de os EUA conseguirem amarrar a ABIN na “guerra ao terror”.

————

O segundo telegrama que está neste bloco trata do MST e foi disponibilizado aos leitores, porque menciona Daniel Dantas, cuja terras no Pará foram ocupadas pelo MST. Este telegrama já foi publicado em dezembro de 2010. Passemos ao terceiro telegrama que também menciona Daniel Dantas. Ele foi redigido em 2005 e mais que revelar algo novo sobre Dantas, ele nos revela as relações de jornalistas brasileiros com os EUA:

UNCLAS SECTION 01 OF 02 SAO PAULO 000971
SIPDIS STATE IIP/R/MR; WHA/PD E.O. 12958: N/A
TAGS: PGOV, KPAO, BR, Domestic Politics

ASSUNTO: Jornalistas e jornalistos de São Paulo [não identificados] discutem escândalo de corrupção no Brasil

1. RESUMO:  No final de julho, início de agosto IO [funcionário do consulado] em São Paulo manteve uma série de encontros individuais com destacados(as) jornalistas, para discutir o escândalo de corrupção que se desenrola no Brasil. Vários(as) jornalistas disseram que é possível que o presidente Lula da Silva (Lula) não soubesse da corrupção, mas que acreditam que o Ministro da Casa Civil Jose Dirceu sabia. Mencionaram vários boatos sobre a fonte do dinheiro que o empresário Marcos Valério de Sousa “emprestou a membros do governo e outros partidos políticos e confessou não saber como terminaria o escândalo”. FIM DO RESUMO.

2. Em vários dias, de 14 de julho a 3 de agosto, IO encontrou-se separadamente com oito jornalistas, para reunir suas opiniões sobre o escândalo de corrupção no governo em curso no Brasil. Todos os(as) jornalistas são destacados comentaristas e âncoras de televisão, rádio, jornais e internet. (grifos nossos) Embora os(as) jornalistas tivessem diferentes teorias e pontos de vista, a discussão mostrou quadro interessante da opinião da imprensa sobre os escândalos.

3. Figuras Chaves do Governo. A maioria dos(as) jornalistas deram sinais de não acreditar, ou de não querer acreditar, que o presidente Lula soubesse da corrupção no governo e no Partido dos Trabalhadores (PT). Todos, contudo, estavam convencidos de que Dirceu sabia e estava envolvido num esquema para pagar membros do Congresso para que apoiassem o a política do governo. Afirmaram também que todos os partidos dependem de fundos não declarados para suas campanhas eleitorais.

Muitos afirmaram que o PT, que sempre foi partido de oposição até a eleição de Lula, não estava preparado para governar. Sugeriram que o partido não soube fazer lobby para obter votos e apoio e recorreu ao suborno para comprar votos e apoio. Alguns referiram-se às raízes comunistas do PT e sugeriram que o mesmo modus operandi para controlar a política com centralização do poder levou o PT a tentar controlar o governo mediante pagamentos mensais (mensalao [sic]).

Dirceu foi descrito como “apparatchik” e alguém em quem Lula, erradamente, depositara excessiva confiança. Perguntados sobre o ministro da Fazenda Antonio Palocci, vários(as) jornalistas disseram não crer que ele estivesse envolvido no esquema. Para outros(as), o governo não quer que a atenção concentre-se nele e lembraram que, quando Lula era candidato, Palocci substituiu Celso Daniel, prefeito de Santo André, como coordenador da campanha de Lula (NOTA: Celso Daniel foi assassinado em crime que a polícia considerou tentativa de assalto [sic. No orig. what was judged by police to be a robbery attempt]. Persistiram boatos de que Daniel teria sido assassinado porque investigava corrupção na campanha eleitoral do PT).

5. “Siga o dinheiro”. Foi a frase usada por vários(as) jornalistas para descrever seus métodos para investigar o escândalo. Todos os(as) jornalistas disseram que a imprensa tem plena liberdade para investigar e que os veículos estão agressivamente empenhados no caso. (grifos nossos) Um(a) jornalista disse que a imprensa recebe toda a informação que chega à CPI (Comissão de Investigação do Congresso), no instante em que a Comissão a recebe e que confiam naquelas informações e as investigam. Um(a) jornalista comentou que acredita que seja por isso que o governo não queria a CPI. Muitos veículos mandaram equipes extra de São Paulo e Rio de Janeiro para Brasília para cobrir o escândalo. Um(a) jornalista sugeriu que a questão não é só para quem Marcos Valério de Sousa (Valério) entrega o dinheiro, mas também de onde/quem Valério obtém o dinheiro.

Nota do Maria Frô: Para funcionário do Consulado estadunidense os jornalistas afirmam que não sofrem nenhuma censura. Afirmam inclusive que recebiam informações ao mesmo tempo que os integrantes da CPI. Por que durante oito anos de governo Lula quiseram vender a imagem do presidente como um censurador? Jornalismo cínico é isso aí.

Os(as) jornalistas têm diferentes teorias sobre a origem do dinheiro. Um(a) deles acredita que o PT tinha dinheiro de doações de campanha não declaradas, que havia transferido para contas no exterior. Suspeita de que, por alguma razão, perderam meios de acesso àquelas contas e tiveram de tomar emprestado de Valério. Outros acreditam que o PT entregou contratos lucrativos a Valério e a outras empresas de publicidade, pagando mais do que valiam, sob a combinação de que poderiam depois ‘tomar emprestado’ esse dinheiro, sem ter de devolver. Outro sugeriu que o dinheiro poderia vir de empresas estatais.

Um conhecido âncora, cujo nome apareceu entre os telefones ilegalmente grampeados pelo empresário Daniel Dantas (no escândalo da Kroll), diz que acredita que Dantas forneceu o dinheiro para que Valério repassasse ao PT.

5. Onde acabará isso tudo? Os(as) jornalistas confessaram que não têm ideia de onde terminará o escândalo. No momento em que falavam, duvidavam que levasse ao impeachment do presidente.

Um(a) jornalista disse que a menos que apareça alguma coisa que implique diretamente o presidente, por exemplo, um cheque emitido por ele, o presidente não sofrerá impeachment. Outro mencionou que há boatos de que a Polícia Federal invadiu a loja de artigos de luxo DASLU, porque haveria ali o recibo de uma compra feita pela esposa do presidente Lula paga com cartão de crédito de Valério. O/a jornalista perguntou se, no caso de ser isso verdade, a invasão da loja teria acontecido para recuperar essa prova ou para fazê-la desaparecer? Alguns(mas) prevêem o fim do Partido dos Trabalhadores (PT). Muitos disseram que muito mais Lula ajudou o PT a vencer, do que o contrário. [Nota do Maria Frô: Nisso, acertaram. Mas isso… qualquer um sabe].

Alguns(mas) preveem que o PT se cindirá entre elementos mais liberais e elementos mais conservadores. Outros(as) supõem que Lula começará a cortejar a ala mais à esquerda do partido.

6. Para as próximas eleições, todos os(as) jornalistas disseram que Lula é adversário forte, embora vários(as) tenham dito que pesquisas feitas no presente momento nada dizem sobre o que o eleitorado estará sentindo no ano que vem. Disseram também que a oposição usará o escândalo na campanha eleitoral para atacar Lula, muito mais do que estão atualmente fazendo. Alguns(mas) sugeriram que interessa mais à oposição ter na presidência um presidente “lame duck” [“pato manco”, presidente desgastado, sem poder nem prestígio], do que afastá-lo agora por impeachment.

Outro tema foi o medo de que surja um candidato populista nos moldes de Severino Calvacanti e concorra e vença (à la Chavez, da Venezuela). Mais de um(a) jornalista sugeriu que Anthony Garotinho, político do Rio de Janeiro, poderia ser esse possível candidato. Os(as) jornalistas que sugeriram essa possibilidade disseram que é remota, mas a consideraram como o pior cenário possível.

7. Enquanto muitos(as) pensam que é boa ocasião para lançar luz sobre as práticas corruptas do governo brasileiro, alguns têm esperanças de que esse escândalo resulte em reformas concretas do sistema político.

8. COMENTÁRIO: Essas conversas aconteceram há várias semanas e o tempo está provando que muitas especulações de então têm base em fatos. Depois dessas conversas, surgiram revelações de que o PT pode manter contas secretas em paraísos fiscais e o nome de Dantas tem aparecido em conexão com o escândalo. Duda Mendonça, empresário que criou uma conta no exterior (para o PT?), é casado com umas das sócias da loja DASLU. FIM DO COMENTÁRIO. [assina WOLFE]

Nota do Maria Frô: Vejam o que dá confiar na mídia velha: quem é casado com uma das sócias da DASLU, Donata Meirelles é o Nizan Guanaes! Se o Departamento de Estado assinasse a Revista Caras, estaria muuuuuuuuuuuuuuuito melhor informado, do que conversando com esses ‘jornalistas’ brasileiros! Está tudo na Caras . Risos, risos, risos, risos.

PS. Maria Frô agradece à rede colaborativa.


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