Danilo e os meninos famintos da Etiópia

Ele era um jovem de classe média estudando em uma escola cristã tradicional. Não tinha nem demais, nem de menos, vivia bem. Talvez por isso me espantasse a escolha para “decorar” a agenda. Os adolescentes de sua idade tinham outros ícones, outras ins-pirações.Não o Danilo. Ele tinha ali aquela foto que fez o seu autor […]

Ele era um jovem de classe média estudando em uma escola cristã tradicional.

Não tinha nem demais, nem de menos, vivia bem. Talvez por isso me espantasse a escolha para “decorar” a agenda.

Os adolescentes de sua idade tinham outros ícones, outras ins-pirações.
Não o Danilo. Ele tinha ali aquela foto que fez o seu autor pouco anos depois de tirá-la se matar.

O fotógrafo não aguentou rememorar (via sua obra) a obra humana da produção da fome. Também não suportou que as pessoas distantes da Etiópia faminta não se sensibilizassem com aquele show de horror. Matou-se.

Não sei se Danilo sabia disso, mas sei que ele entendeu como ninguém as intenções daquele fotógrafo, perdido no leste africano, ao posicionar sua câmera minutos antes de uma criança famélica ser devorada por abutres. E sua fotografia não era uma metáfora, infelizmente.
A fome, a miséria, o abandono da infância, a história milenar dos etíopes reduzida ao bico dos abutres ilustrava a agenda de Danilo.

Para nunca esquecer era sua intenção, para transformar esse quadro era a sua esperança, que fazia crescer a minha fé na humanidade.

Danilo casará esse ano com uma amada que junto com ele (há anos) constroem seu afeto. Eu acho que esse menino já nasceu grande, já nasceu pronto. Por isso me emocionei tanto com o seu depoimento no dia do meu aniversário. Como sempre, ele foi generoso:


Danilo: Eu a conheci em meados de 1992, apresentada por um antigo professor, numa das palestras de um ciclo então promovido pela Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo (“Pátria Amada Esquartejada”).
Fato foi que, ao término da exposição de Marilena Chauí, lembro-me de você ter me perguntado o que eu achara e de eu ter feito referência à dificuldade (natural, acredito, para os meus quinze anos à época) em acompanhar o raciocínio da palestrante falando da inexistência de uma pátria brasileira. Não obstante a pobreza da minha resposta, saltou-me aos olhos a ternura com que fui ouvido. E certamente, não era só eu.
Posteriormente, como seu aluno, pude perceber o quanto você ama o que faz: aulas cuidadosamente preparadas, indo além dos simples fatos históricos para demonstrar o contexto em que aconteceram; às dúvidas, respondia sempre objetiva e satisfatoriamente; quando a resposta não lhe ocorria, comprometia-se a pesquisar e, uma ou duas aulas mais tarde, a dúvida estava saneada; (continua

Danilo: (continuando)
isso sem falar na busca incessante pela melhora no lecionar: a necessidade de ouvir a opinião dos alunos sobre as suas aulas demonstrava o repúdio à acomodação. Enfim, seu magistério sempre se pautou pelo respeito ao aluno e à inteligência dele.
Por outro lado, conversar com você é sempre muito agradável. Aqui, o respeito pelo aluno se revela respeito ao interlocutor – independentemente do (pré) posicionamento político ou filosófico deste último -, sendo que qualquer comentário sobre esses debates não seria suficente para expressar a sua riqueza.
Em razão de tudo isso, não tardou para reconhecer em você uma pessoa de grande caráter, inteligência e talento, digna de admiração e merecedora de carinhosa amizade.
Assim, aproveito a oportunidade para cumprimentá-la pela comemoração do seu aniversário, desejando-lhe muita saúde, coragem e inspiração (pois a felicidade vem por conseqüência…). (continua)

29/8/2005

Danilo: (continuando)
Por fim, lembro-lhe que os caminhos maravilhosos que seus alunos por vezes trilham, muita vez se iniciam com a lembrança das suas palavras e dos seus atos, que demonstram que é possível seguir o caminho da vida com respeito ao outro e com a manutenção dos valores que, não obstante aparentemente raros, triunfarão no futuro da Humanidade.
Um beijão para você e outro para Marina, de alguém que tem o prazer e a distinção de ter sido seu aluno.
Danilo 29/8/2005
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Maria Frô

Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.

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