Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

10 de julho de 2010, 03h32

Denuncie sites fascistas e leia o belo texto de Rosana Jatobá

Pensei em escrever um texto também sobre a cara de pau de alguns paulistanos fascistas que criaram comunidade no Orkut, blog e até petição online exigindo São Paulo para os paulistas/paulistanos e se dizendo ‘oprimidos’ pelos ‘nordestinos’.

Pensei em escrever um artigo mostrando como este sentimento ridículo do paulistano inculto e adoecido pelo preconceito (há paulistanos sadios, caríssimos leitores nascidos no Piauí, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Alagoas,Pernambuco e Bahia,) tem uma longa história que poderíamos começar a datar em fins do século XIX e princípio do XX com ideólogos como Guilherme de Almeida, ganha força na década de 1930, especialmente depois da derrota dos paulistas em 1932, solidifica-se no quarto centenário e se acirra a partir da década de 1960 com o crescimento migratório. Mas eu tenho tanta coisa pra fazer que fui tentando administrar as ogrices da semana (e olha que não faltaram ogrices) e as tarefas cotidianas que passou o 9 de julho e não escrevi.

Daí recebo o link do belo texto da Rosana Jatobá, ele dá conta de contrapor um pouco de racionalidade à estupidez do Manifesto São Paulo para os paulistas.

Depois de ler o texto da jornalista, cujo talento mostrado na redação do texto, poderia ser melhor aproveitado pela emissora na qual trabalha (Rosana é a apresentadora da previsão do tempo na rede Globo), visite os links citados no início deste post e denunciem, aproveitem (em relação a comunidade do orkut) denunciem também as comunidades relacionadas. E, todas as vezes que virem sites criminosos, comunidades ofensivas tomem providência: DENUNCIEM! Esse manifesto de São Paulo para os paulistas, a meu ver, é caso de polícia, abaixo alguns caminhos para realizar as denúncias:

– Distrito Federal: dicat@pcdf.df.gov.br.
– Espírito Santo: nureccel@ps.es.gov.br.
– Minas Gerais: dercifelab.di@pc.mg.gov.br.
– Pará: comunicação@policiacivil.pa.gov.br.
– Paraná: cibercrimes@pc.pr.gov.br.
– Pernambuco: policiac@fisepe.pe.gov.br.
– Rio de Janeiro: drci@policiacivil.rj.gov.br.
– São Paulo: 4dp.did.deic@policiacivil.sp.gov.br.

A Safernet também tem parceria com Ministério Público e tem formulário específico para denúncia contra Racismo, Xenofobia e Intolerância religiosa, Neonazismo, Apologia e Incitação a crimes contra a Vida, Homofobia e outros. Para preencher a ficha de denúncia clique aqui.

O Ministério Público Federal também aceita denúncias via rede, clique aqui.

Agora fiquem com o belo texto de Rosana Jatobá

O insustentável preconceito do ser

Por Rosana Jatobá*

Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.

Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:

– Recomendo um passeio pelo nosso “Central Park”, disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem “farofa” no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar….

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.

Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os “Paraíba”, que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a “Cabeça chata”, outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.

Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:

-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:

“O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor”.

“É ofensivo”, diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.

A expressão “pé na cozinha”, para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constragimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.

O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:

“Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra ‘niger’ para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:
‘Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe’…que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).
Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan ‘black is beautiful’. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém”.

Será que na era Obama vão inventar “Pé na Presidência”, para se referir aos negros e mulatos** americanos de hoje?

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como “inofensivos”, mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

– A minha “criadagem” não entra pelo elevador social !

E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, “viado”, maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:

– Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!
Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:
-Só podia ser loira!

Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
– Só podia ser judeu!

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia …

Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: “O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem”.

Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.

A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.

O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque, em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorância e alimenta o monstro da maldade.

Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:

-Só podia ser mendigo!

No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:

-Só podia ser bandido!

Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.

PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos…

*Rosana Jatobá é jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da Universidade de São Paulo. Também apresenta a Previsão do Tempo no Jornal Nacional, da Rede Globo.

**Nota do MariaFrô: O termo ‘mulato/mulatos’ encontra-se no original. Ele também tem  significado negativo no Brasil, como bem ressalta Nei Lopes. A palavra vem de mula e faz alusão à idéia de que casamento interraciais produziriam seres estéreis. Penso que Jatobá fez utilização do termo, porque nos EUA se usa tal expressão para designar os pardos.

PS. Leiam os comentários de Antônio Mello talvez ele possa ter razão. Talvez a previsão do tempo seja uma escolha de Rosana, mas continuo achando uma pena para nós que ela não faça outras matérias.


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