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02 de julho de 2011, 16h09

Educação chilena em debate (I): Camila e Natividad

Victor Farinelli, jornalista brasileiro residente em Santiago do Chile, traduz e comenta o artigo de Gregory Elacqua.

Por: Victor Farinelli, especial para o Maria Frô

Gregory Elacqua não é político, é um intelectual conhecido por ser ligado aos partidos da direita e aos grandes grupos educacionais. Ele é um dos assessores que idealizaram a reforma educacional do atual ministro de Educação, que pretende aprofundar a hegemonia dos privados e aliviar isso para os mais pobres com mais créditos educacionais (créditos que depois deveriam ser quitados com o Estado).

Por isso, enquanto a Camila Vallejo defende uma educação gratuita e de qualidade, ele defende somente uma equiparação no nível de créditos educacionais entre alunos como a Camila e alunos como a Natividad. Há semanas que a estratégia da direita contra as mobilizações dos estudantes chilenos tem sido essa: eles querem desqualificar a Camila e outros líderes do movimento dizendo que eles são uns ‘playboyzinhos’ que não querem uma boa educação aos mais pobres, quando eles justamente querem é educação gratuita e de qualidade para todos os chilenos e o fim da educação com fins lucrativos.

Posso dar o exemplo da minha esposa, que é enfermeira. Ela se formou na Universidad de Valparaíso, uma das que é ligada ao Conselho de Reitores. Essa universidade era e ainda é considerada “pública”, mas cobra mensalidade (todas as universidades “públicas” cobram mensalidades aqui, não existe ensino superior gratuito no Chile), e é caríssima. Minha esposa teve acesso a um crédito educacional, mas hoje, devido a ele, e apesar dos juros baixos, está endividada até a medula. Ela se formou em 2006 e de 2008 em diante ela tem de pagar pouco menos do que seria R$ 2 mil por ano, e ainda faltam mais ou menos uns R$ 40 mil para que ela consiga quitar toda a dívida. Ela vai conseguir pagar isso em uns dez anos, mas a grande maioria dos estudantes estão mais endividados que ela, muitos nunca poderão efetivar seu diploma universitário e outros tantos vão passar a vida inteira pagando essa dívida e vão tirar o diploma depois de aposentados.

Disto isso, eis a tradução do artigo de Gregory Elacqua, em La Segunda

Camila e Natividad

Por: Gregory Elacqua*, La Segunda

30/06/2011

Este ano surgiram duas notáveis jovens líderes no Chile: Camila Vallejo e Natividad Llanquileo. Camila, presidenta da FECH [Federação dos Estudantes do Chile, a UNE chilena], tem demonstrado capacidade para articular propostas, mobilizar estudantes e pressionar os atores políticos para reagir às suas demandas. Natividad, a porta voz dos mapuches em greve de fome, surpreendeu o governo chileno por suas habilidades para negociar, comunicar as demandas dos grevistas à cidadania e pôr o tema indígena no centro do debate nacional. Ambas são produtos das universidades chilenas e ainda sendo estudantes já protagonizam as discussões mais importantes do país atualmente. Porém, o sistema atual de financiamento da educação superior favorece mais a estudantes como Camila que a alunos como Natividad.

Camila, que estuda Geografia na Universidad de Chile, é um exemplo marcante do típico aluno de uma universidade competitiva do Conselho de Reitores (CRUCH). Provém de uma família de classe média, estudou num colégio particular subvencionado(2) com financiamento compartilhado (visando o lucro) e de nível sócio econômico alto (a maioria dos pais têm educação superior completa) e que, por isso, aponta números qualitivos favoráveis. Seu colégio tirou nota 305 no SIMCE (sistema de governamental de avaliação escolar, cuja média nacional é de 300 pontos), quase 600 na PSU [o ENEM chileno, cuja média nacional é de 500 pontos], exame no qual 41% dos seus alunos foram aprovados na prova de inglês (comparado com 11% em média no resto do país).

Natividad estuda Direito na Universidad Boliviariana, e também representa fielmente o típico aluno de uma instituição privada de baixa seletividade. Provém de uma família de baixa renda; cresceu em Tirúa, na região do Bío-Bío, e é filha de um camponês e uma artesã mapuches. É a primeira pessoa na sua família que tem acesso à educação superior. Frequentou um liceu municipal de baixo nível socioeconômico e rendimento igualmente inferior (quase dois terços dos pais não possuem ensino fundamental completo, o que ajuda a explicar seus lapidários resultados). Seu liceu tirou nota 225 no SIMCE (80 pontos menos que o colégio de Camila), 450 na PSU (150 menos que o de Camila), e desse exame somente 1% dos alunos aprovaram a prova de inglês.

Estudantes como Camila, provenientes de classes média e alta, com acesso aos colégios de alto rendimento, conseguem entrar nas universidades mais competitivas do CRUCH [o chamado Conselho de Reitores é uma instituição que reúne os reitores das universidades melhor conceituadas do Chile] têm mais acessos a bolsas de estudos e aos melhores créditos educacionais (com as menores taxas de juros), enquanto alunos como Natividad, pelas desvantagens em sua origem e educação escolar, não alcançam a entrar em universidades do CRUCH e só lhes restam optar por uma instituição privada de baixa seletividade. Pela mesma razão, têm acesso a poucas bolsas e os únicos créditos que podem conseguir são com altíssimas taxas de juros.

Estudantes como Camila não só se beneficiam do maior acesso ao financiamento estudiantil, senão que também as universidades do CRUCH —que representam menos de um terço das matrículas nacionais — recebem mais de dois terços do financiamento público entregue diretamente às instituições de educação superior.

Os reitores e os estudantes mobilizados sustentam que as universidades do CRUCH merecem maior financiamento público porque entregam conhecimento fundamental para o país (carreiras não rentáveis e investigação). Por outro lado, é importante perguntar também se educar alunos como Natividad também deveria ser considerado um bem público, devido ao aporte que fazem ao país. Se é assim, deve-se reformar o sistema desigual de financiamento da educação superior, para que brinde as mesmas oportunidades às futuras Camilas e Natividades.

*Gregory Elacqua: Director Instituto de Políticas Públicas, Facultad de Economía y Empresa, Universidad Diego Portales

Notas do tradutor:

1. Os termos entre colchetes [] não estão no artigo original e foram introduzidos para fazer alguns comparativos para melhor entendimento aos leitores brasileiros

2. No Chile, o Ensino Médio e Fundamental estão entregues a escolas particulares por um lado, e por outro lado à escolas que eram públicas e gratuitas, mas que desde a ditadura de Pinochet se tornaram colégios municipais “subvencionados”. Assim, os colégios passam a ser como concessões municipais, recebem dos cofres municipais e do Ministério da Educação o que se chama aqui de “subvención”. Porém algumas dessas concessões não permitem que o concessionado cobre mensalidade dos pais, e tenha que viver somente da “subvención”, e outros, como o caso do colégio onde estudou Camila Vallejo, têm a permissão para fazer caixa também com a cobrança de mensalidades. Cabe destacar que muitos dos colégios subvencionados com permissão de cobrar mensalidades são administrados por donos de colégios particulares, e inclusive a Igreja Católica participa como sócia em alguns desses.

3. Para contatos com Natividad Llanquileo, acesse seu blog, aqui e seu twitter: @natividadllanqu. Aqui uma entrevista com Natividad

4. Para contatos com Camilla Vallejo, acesse seu blog, aqui e seu twitter: @camila_vallejo. Aqui uma entrevista com Camila.

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