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04 de junho de 2015, 09h56

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 3

Parte 3

José Arbex Júnior, in revista Caros Amigos, fevereiro de 1999

Infovias, espaços virtuais e o narcisismo das elites

A tendência à fragmentação, ao estilhaçamento da metrópole chega, agora, a um limite, com a instalação das “infovias” e sistemas virtuais de comunicação, que tornam desnecessária a própria existência concreta de uma comunidade. Isolado em sua própria torre de marfim, o homem urbano de classe média contemporâneo tem tudo à sua disposição para dispensar o contato imediato com outros seres humanos. Pode trocar textos, imagens e sons pela Internet, pode movimentar a conta bancária a partir de seu escritório, pode fazer compras em livrarias e supermercados virtuais. As novas possibilidades tecnológicas permitem até mesmo a organização de teleconferências, reuniões que se realizam no não-espaço, em algum ponto virtual em que se entrecruzam vários sistemas de computadores interconectados (ou Intranet, na linguagem técnica). A contrapartida são os meios eletrônicos de policiamento dos espaços públicos, os radares, as câmaras ocultas, a vigilância das máquinas sobre os seres.

A grande questão política, já apontada por alguns críticos importantes do “mundo pós-moderno”, é que esse fechamento do mundo estimula e exacerba as tendências narcísicas dos indivíduos. Como podemos, em tese, criar nosso próprio mundo virtual, como podemos nos encerrar em nossas próprias fortalezas de marfim, dispensando ao máximo o contato humano, podemos imprimir a esse mundo fechado a nossa marca, só tolerando a “intrusão” daquilo que está de acordo com a imagem que fazemos de nós mesmos. É claro que essa tendência à exaltação narcísica sempre existiu, em todos os tempos (“Narciso acha feio o que não é espelho”, escreveu Caetano Veloso), mas o isolamento tecnológico permite sua potencialização máxima: coloca o mundo ao alcance do indivíduo, salvando o indivíduo do contato com o mundo. Trata-se, aqui, do encolhimento, o quase desaparecimento do espaço público, o local onde se desenvolve a atividade política.

Essa questão foi sintetizada em uma brilhante fórmula, enunciada por Roberto Mangabeira Unger em sua entrevista na última edição de Caros Amigos: “A política precisa se tornar pequena, para que as pessoas possam se tornar grandes”. De fato, no mundo neoliberal “política” se reduz a “administração pública”. Perde seu sentido transformador, sua ambição renovadora, sua força como instrumento de mobilização coletiva. Daí que o próprio conceito de cidadania, que só pode ser sustentado pela atividade política – pela noção de que fazemos, todos, parte de um espaço público que define nossos direitos e deveres -, desaparece e cede lugar à figura do consumidor, aquele que tem os direitos pelos quais pode pagar, incluindo educação, saúde, segurança, infra-estrutura sanitária adequada, etc.

Para ler as demais partes do artigo acesse os links abaixo

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 1

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 2

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 3

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 4

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 5

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 6

Enquanto existirem Barbosas e Saletes Parte Final


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