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04 de junho de 2015, 09h57

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 4

Parte 4

José Arbex Júnior, in revista Caros Amigos, fevereiro de 1999

A aventura está com os pobres

No limite, o fechamento do mundo abole, ou reduz ao máximo, o acaso, o momento em que tudo pode acontecer na fração de segundo (o instante em que Barbosa sente a urgência de salvar Salete). Mas isso vale para as elites. Os pobres ficam fora das grandes “infovias”, dos sistemas digitais de comunicação, dos cárceres dourados que a burguesia construiu para si. Eles continuam mantendo um intenso contato físico, muitas vezes promíscuo, abarrotando bairros “populares” e favelas imensas, vivendo mais ou menos como no século 19. Quanto mais se desenvolve, tecnologicamente, o “telemundo” das elites, maior é o abismo entre a pequena parcela da população engolida pelas veias virtuais do sistema tecnológico e a imensa maioria que ainda sente na pela a presença do outro. É, precisamente, nessa contradição entre o mundo afetivo e fértil dos pobres e a solidão virtual e estéril do mundo dos ricos, diz o professor Milton Santos, que reside uma esperança de superação dos impasses construídos pela sociedade contemporânea. Pois, se o mundo é o mundo criado pelo contato linguageiro entre seres humanos, a grande aventura de viver, mais do que nunca, está nas ruas da cidade e não nos condomínios fechados, na sarjeta e não na infovia.

Ninguém pretende aqui – é mais do que óbvio – fazer uma apologia da pobreza. Ninguém pretende sustentar a máxima populista demagógica e cruel segundo a qual “é melhor ser pobre e feliz do que rico e triste”. Isso tudo é besteira. O que se discute é o fato de que, justamente quando o mundo tecnológico e neoliberal parece condenar ao esquecimento valores profundamente humanos, como a prática do heroísmo anônimo, da compaixão, da solidariedade, a tragédia de Salete e Barbosa mostra que nada disso está morto. Muitos trabalhos sérios já mostraram que, mesmo nas condições extremas dos campos de concentração nazistas e stalinistas, uma parcela importante dos internados manteve um comportamento ético e solidário, dividindo o pedaço do pão que não existia, mantendo o humor elevado, inspirando em outros seres um resto de esperança, mesmo quando todas as evidências mostravam que não poderia haver esperança alguma.

Fenômeno muito semelhante acontece nos campos de concentração e morte configurados pelas favelas e bairros periféricos das grandes cidades. As pessoas, apesar do medo, da insegurança, do desemprego, da completa falta de perspectivas, ainda se encontram e trocam emoções. Ainda realizam o gesto absurdo, incompreensível, implausível, mas diariamente renovado, de encontrar dentro de suas almas, muitas vezes dilaceradas, os recursos para dar de si aos outros. Nada pode ser menos narcísico, mais heróico e generoso do que colocar em risco a própria vida para salvar um desconhecido. E, no caso de Salete e Barbosa, isso tudo aconteceu, literalmente, à beira de um esgoto chamado Tamanduateí.

Para ler as demais partes do artigo acesse os links abaixo

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 1

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 2

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 3

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 4

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 5

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 6

Enquanto existirem Barbosas e Saletes Parte Final


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