sexta-feira, 25 set 2020
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Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 5

Parte 5

José Arbex Júnior, in revista Caros Amigos, fevereiro de 1999

O acaso e o trágico na cidade

A tragédia, como sempre, foi produzida por uma sucessão de acasos. Barbosa chegou às 7 horas à sede do 2o Batalhão, quando foi dispensado do expediente: trabalharia apenas no dia seguinte, pois havia sido trocado de pelotão. Pediu carona ao seu colega Luiz Francisco de Macedo, 26 anos, que iria deixá-lo no parque Dom Pedro, onde ele pegaria uma condução para sua casa, na zona leste. No meio do caminho, Barbosa chamou a atenção de Macedo para um início de tumulto na avenida do Estado. Dezenas de pessoas começavam a se aglomerar as margens do Tamanduateí. “Eles pararam o carro no meio da avenida e foram ver o que tinha acontecido. Ao verem uma pessoa em perigo, não pensaram duas vezes e foram providenciar cordas para tentar salvar a mulher”, disse o major Marcos Cabral, comandante interino do 2o Batalhão. Ao arremessar uma corda de náilon para Salete, Barbosa se desequilibrou e caiu no rio.

Só que, como conseqüência das chuvas, a vazão do Tamanduateí havia aumentado de 15 para 120 metros cúbicos por segundo e a velocidade das águas, nessas condições, pode alcançar até dois metros por segundo, conforme disseram os técnicos do Centro Tecnológico de Hidráulica do Departamento de Águas e Energia Elétrica. Em águas tão violentas, mesmo um nadador treinado – e esse não era o caso de Barbosa – poderia facilmente naufragar. Foi o que aconteceu. Barbosa desapareceu, enquanto Macedo, amarrado a uma corda, descia pela margem canalizada do rio e puxava Salete, com a ajuda de bombeiros e de caminhoneiros que trabalham no Mercado Municipal (próximo ao local).

A família de Barbosa, cruel ironia, recebeu a notícia da tragédia pela televisão. “Estava vendo a televisão na hora em que mostraram as primeiras imagens e disseram que um policial havia caído no rio” disse Wesley. Depois disso, o garoto foi arrumar a gaiola do passarinho. A mãe, pressentindo a má notícia, ficou com os olhos grudados na televisão. É Wesley quem conta: “Falaram na televisão ‘o soldado Barbosa, da Rocam’. Eu não ouvi direito e perguntei: ‘Que foi, que foi?’ e ela me disse ‘é o seu pai, é o seu pai”. Sandra mandou o filho ir até a casa da vizinha para ligar para o batalhão. Os oficiais preferiram não confirmar imediatamente a informação: já haviam enviado uma equipe à casa do policial para dar a notícia à família, pessoalmente.

Depois disso, foi a sinistra busca do corpo desaparecido nas águas turbulentas do rio, com a participação angustiada de três irmãos de Barbosa. Foram horas infinitas de desespero, até encontrar o corpo, a escassos 400 metros do ponto onde tudo havia começado. Inconformada, frustrada e experimentando o conhecido sentimento de impotência face à tragédia, a sogra de Barbosa, Elizabete Ribeiro da Silva, 50 anos, descarregou o peso de sua ira sobre a pobre Salete: “Uma andarilha que encheu a cara de pinga foi brincar no meio do rio e levou embora um pai de família que precisava estar junto dos filhos”. Nada mais injusto, nada mais compreensível, nada mais humano. No hospital, Salete negou que tivesse bebido antes do acidente.

Visivelmente triste, consternada, purgando a culpa pela morte do soldado apenas repetia que tropeçou na beira do córrego e caiu, mas que não conseguia se lembrar do encadeamento dos fatos.

Para ler as demais partes do artigo acesse os links abaixo

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 1

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 2

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 3

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 4

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 5

Enquanto existirem Barbosas e Saletes – Parte 6

Enquanto existirem Barbosas e Saletes Parte Final

Maria Frô
Maria Frô
Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.