sábado, 31 out 2020
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Eu, Regina Casé, Chimamanda Adichie e nossas experiências no continente Africano

Reproduzo do WebCitizen o vídeo de participação de Regina Casé no TED (Technology, Entertainment, Design)/SP, um trecho do episódio Nova África e uma conferência da escritora Chimamanda Adichie no TED global em junho de 2009.

Algumas das experiências que Regina narra em sua fala e que Chimamanda conta de suas vivências  dentro e fora da Nigéria me chamam muito a atenção. Eu vivi experiências semelhantes às de Regina em minhas viagens pelo continente africano, na equipe do Nova África. Assim como, assino embaixo as observações que Chimamanda faz sobre o odioso vício que temos de estereotipar o ‘outro’.

O ‘outro’ neste meu texto de hoje é um continente inteiro. A África, na mentalidade da imensa maioria do Ocidente, tem algumas construções curiosas. Para muitos, o continente nem chega a ser um continente, é visto como um ‘país’. É só observarmos algumas chamadas nas tevês brasileiras para a Copa que ocorrerá brevemente na África do Sul. Geralmente os editores não se dão ao trabalho, sequer, de esclarecer aos telespectadores que  a Copa ocorrerá na África do Sul que, por sua vez, é apenas um país entre os 53 que compõem o continente.

Na imensa maioria das vezes, a África é retratada também como um continente miserável, repleto de doenças, perdido, que só existe para comover de quando em vez o Ocidente a se mobilizar em campanhas humanitárias e socorrer os africanos da fome, da AIDS, deles mesmos.

Eu vivi muitas experiências impressionantes ao visitar apenas 4 dos seus 53 países. Em todos eles pude constatar o que estudo há mais de 20 anos: existe uma imensa diversidade e riqueza de povos e culturas em cada um dos países visitados. E apesar de alguns destes serem de fato pobres por continuarem sendo sangrados por países desenvolvidos em conluio com elites políticas e econômicas africanas; apesar de alguns não contarem nem mesmo com a presença de rios; apesar das secas, da fome e da aids; apesar de golpes e tentativas de golpes, as pessoas continuam a tocar suas vidas e muitas delas fazem uma diferença imensa nos lugares onde vivem.

A África também é retratada como um continente ‘sem história’,  visto como se seus habitantes vivessem parados no tempo.  Entretanto, a simples experiência de visitar qualquer país africano, viajar pelo seu interior,  nos lugares mais ermos, é suficiente para percebermos que este talvez seja o mito mais absurdo que persiste em relação aos países africanos e seus habitantes.

É um mito na medida em que ele se sustenta na nossa percepção cristalizada do que seja tradição.  Precisamos considerar que a tradição,  como qualquer aspecto da cultura, é algo que se constrói e se reconstrói continuamente, e mais, manter ‘tradições’ não  significa viver em oposição à tecnologia.

Em uma das minhas viagens ao continente, percorrendo o interior de Moçambique (nossa equipe cruzou o país de norte a sul de automóvel), nosso motorista/guia se perdeu. Nem o GPS do automóvel foi capaz de nos dar a direção. Encontrávamos, assim, à noite, num breu imenso. Dava apenas para ouvir o barulho do mar, embora não soubéssemos a que distância estávamos dele. Tínhamos de dormir, armar as barracas,  mas precisávamos de autorização que, para nossa sorte,  foi concedida pelo administrador da fazenda de cocos que apareceu para averiguar o que fazíamos ali.

Enquanto nos alimentávamos e arrumávamos nossas barracas, o celular da equipe tocou. Era a minha filha ligando de São Paulo, capital, e eu consegui falar com ela!  Pensem, meu celular muitas vezes não funciona na parte debaixo do sobrado onde vivo, no escritório da produtora onde trabalho na maior e mais rica cidade do Brasil e eu estava em Moçambique, nas proximidades de Quelimane, no que há cerca de 50 anos havia sido o maior coqueiral do mundo, na beira do Índico e consegui falar com a minha filha! O celular pegava numa região sem energia elétrica e água encanada.

Não é raro você estar em uma região no continente africano sem água encanada ou energia elétrica, em que as pessoas dançam e cantam em suas cerimônias sagradas ou profanas, em que  as mulheres pilam seus grãos, vestem suas capulanas (esse é o nome dado em Moçambique  para os panos coloridos usados por mulheres africanas de vários países de norte a sul do continente, que são importados até de Dubai ou produzidos em alguns países africanos, respeitando o gosto dos padrões de cada povo que os consome) e  topar com aparelhos celulares, ipods e outros aparelhos eletrônicos.

Moradores de Namitar, Nampula, Moçambique

Em um povoado em Nampula, Moçambique, durante um comício da FRELIMO, em 2009, quem fotografa quem? Eu com minha câmera digital ou o moçambicano com seu celular?

Se não sabemos, por exemplo, que a capulana que veste uma Mbuti na Floresta de Ituri, na República Democrática do Congo, veio de Dubai, ao ver os pequenos Mbuti caçando, poderíamos facilmente achar que esse  povo- coletor e caçador e uma das culturas humanas mais antigas no planeta Terra- parou no tempo.

Mas o que parou no tempo foram os nossos preconceitos, no sentido que criamos uma imagem cristalizada sobre o outro, seja este outro um povo que vive distante de nós, ou um grupo social que vive lado a lado conosco, mas que não faz parte de nossa classe, etnia ou outra diferença que nos separa.

É um pouco desta experiência de descobertas e de revisão de seus próprios preconceitos que a atriz multimídia  Regina Casé fala no TED/SP. Ela fala sobre diferença, ou melhor, sobre o direito à diferença, tema tão bem trabalhado pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos.

Regina, no vídeo abaixo, explica que os considerados ‘diferentes’ cultural e socialmente podem ser tão bons quanto os estabelecidos como ‘tradicionais’.

Suas viagens pelas periferias brasileiras visitando o funk carioca ou o forró eletrônico, assim como conhecendo manifestações culturais das periferias de outros países como México, França, Angola, Moçambique… lhe ensinaram que nossa ignorância em relação ao mundo é grande, perversa, excludente e eu diria, burra, porque nos impede de enriquecer nossa própria cultura.

No projeto “Minha Periferia é o Mundo”, Regina mostra que o diferente, ou independente, também produz ideias que merecem ser compartilhadas. E mais que isso, merecem ser legitimadas como projetos de sucesso que geram renda e qualidade de vida para as pessoas.

Para terminar, fiquem com a imperdível Chimamanda  Adichie. A fala desta escritora nigeriana também foi proferida  no TED Global em julho de 2009. Ela nos conta sobre o perigo da história única, ou seja, uma história construída na base de estereótipos que reduz as diferenças, não raramente de modo pobre e profundamente preconceituoso, mostrando um povo como uma ‘coisa’, como uma única ‘coisa’.

Esta história única repete-se infinitamente e acaba por nos convencer que não há interesse em conhecer o outro, porque ele não tem nada a nos dizer.

É impossível falar de história única sem falar do poder. Chimamanda usa para definir a estrutura de poder no mundo o termo ‘nkali’, segundo ela:

Nkali é um substantivo que livremente se traduz por ‘ser maior que outro’. Como os nossos mundos econômico e político também as histórias se definem pelo princípio do nkali.

Como as histórias são contadas, quem as conta, quando são contadas, quantas são contadas, tudo isto está associado ao poder. O poder é a capacidade de não só contar a história de outro(a) pessoa/grupo/povo/lugar mas de torná-la a história definitiva desse(a) pessoa/grupo/povo/lugar. É assim que a história única torna-se uma poderosa criadora de  estereótipos. “E o problema dos estereótipos não é eles serem mentira, mas eles serem incompletos“.

São eles que transformam uma história particular em uma única história para todos, sem diferenciações, sem complexidade, sem contradições. A história única rouba, assim, a dignidade das pessoas, dos grupos, dos povos e torna difícil partilhar o reconhecimento de nossa  humanidade.

As histórias (no plural) importam. Muitas histórias importam. As histórias, especialmente a história única produzida e recontada sobre povos com poder sobre os povos sem poder de contar as suas próprias histórias, têm sido usadas para desprover e tornar o ‘outro’ maligno. Mas as histórias ‘balanceadas’, com diferentes pontos de vista, podem também ‘ser usadas para empoderar e para humanizar‘.

As histórias únicas podem quebrar a dignidade de um povo, mas as histórias que não cedem aos estereótipos como única explicação podem ‘reparar essa dignidade quebrada‘.

Segundo Chimananda, quando rejeitamos a história única, quando nos damos conta de que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, sobre nenhum povo, reconquistamos ‘uma espécie de paraíso‘. Eu diria, reconquistamos nossa humanidade.

Maria Frô
Maria Frô
Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.