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25 de fevereiro de 2011, 23h37

Eugênio Neves: é a velha mídia como inimigo estratégico, estúpido!

Por Eugênio Neves
25/02/2011
Eu poderia, como fez MariaFrô, dirigir meu olhar para a esquerda e também não ver nada no horizonte, além de uma bruma que esconde um futuro não muito promissor. E poderia dar minha opinião sobre isso, por mais que ela certamente desagradasse um considerável número de pessoas. Me sinto no direito de fazer isso, independentemente da aprovação de quem quer que seja.
No entanto, nesse momento, vou centrar minha atenção sobre dois argumentos que, com pequenas variações, foram usados a exaustão pelos apoiadores da ida de Dilma ao convescote da Folha. São eles o do “tapa com luvas de pelica” e da “grandeza de Dilma” frente aos seus algozes.
‘Tapa com luvas de pelica’ só constrange quem tem vergonha na cara

O tal “tapa de luva” só tem sentido, quando ele é usado contra quem tem um mínimo de dignidade e compostura, de tal forma que o atingido perceba a intenção do gesto e sinta-se minimamente constrangido frente a quem usa dessa sutileza. Não me parece ser o caso do PIG. E muito menos do Otavinho Frias. Se a intenção da Dilma, ao comparecer a festa dos noventa anos da Folha, foi a de constranger aquela gente, seu esforço dará em nada.
Primeiro de tudo, por que não consigo imaginar o Otavinho colocando-se voluntariamente numa situação em que a Dilma pudesse constrangê-lo. Não aquele sujeito, que jamais a teria convidado se pressentisse tal possibilidade.
Segundo, por que o otavinho é o tipo de pessoa sobre a qual qualquer tentativa de constrangimento não surte qualquer efeito. O que se pode esperar de um dono de jornal, que não vacila em transpor qualquer limite moral ou ético, ao ponto de permitir a publicação de documentos falsos? Um sujeito que se sente acima dos regramentos que balizam o convívio civilizado, a ponto de cometer um crime para atingir seus objetivos?
Para entender como funcionam essas personalidades sem limites, é preciso entender, antes de tudo, como a direita encara a questão do poder. Parte da esquerda não consegue perceber que a relação da direita com o poder é fundamentalmente diferente da visão que temos dessa questão. Para Otavinho e seus pares, o poder é uma espécie de mandato divino, com o qual eles foram ungidos simplesmente porque as coisas sempre foram assim. E para mantê-lo, se for preciso, publicam documentos falsos, acusam candidatos de assassinar criancinhas, carregam seus desafetos para a tortura, sustentam ditaduras durante décadas e depois defendem com o maior cinismo a liberdade de expressão, apresentam bolinhas de papel como armas letais, inventam armas de destruição em massa onde elas não existem a fim de saquear as riquezas dos povos e matam, sem o menor remorso, quem ousar atravessar-lhes o caminho.
Isso é a direita e a forma como ela lida com o poder. Acho que essa compreensão é fundamental para perceber a inutilidade do gesto da Dilma. Ela pode ter chegado cheia de boas intenções, com o discurso na ponta da língua e saiu da tal festa com as mãos abanando. Não comoveu ninguém e não conseguiu nenhum compromisso do PIG sobre o que quer que seja, já que para Otavinho e seus iguais a única coisa que interessa é manterem-se no poder, custe o que custar. Na primeira oportunidade a mídia cairá de pau sobre Dilma, como caiu sobre Lula durante os oito anos de seu mandato.
Assim, tal qual MariaFrô, que afirma não haver ser no universo que consiga convencê-la da necessidade de Dilma ter ido a festa da Folha, eu, nem que o raio da silibrina me parta em mil pedaços, consigo ver um fiapo sequer de ganho político nesse gesto.
Num dos tantos comentários non sense que li sobre esse episódio, o autor, na tentativa de justificar a atitude da Dilma, sugeriu que ela poderia ter saído da tal festa dando gargalhadas pelo “constrangimento” que seu discurso poderia ter causado ao Otavinho e sua turma.
Já que o chute é livre, eu também me permito fantasiar sobre o que teria acontecido na tal reunião. E como quem da gargalhadas por último, “gargalha” melhor, imagino o Otavinho naquele fim de festa, o salão quase vazio, só permanecendo os mais chegados, ele sentando numa cadeira e colocando os pés em cima de outra, bem descontraído, erguendo um brinde aos amigos e afirmado, cheio de si, num tom de quem está acostumado a dar as cartas: “Eu não disse a vocês que ela viria!? Largou até o encontro com os governadores do nordeste e atravessou o país só para nos pedir a benção.”
Na mesma linha de comentários non sense, um outro declarou que a Dilma não fez nada que a prejudicasse, já que o PIG vem despencado em audiências e tiragens. Se é assim e de fato isso vem acontecendo, ela também não fez nada que a beneficiasse. Aliás, ela fez o contrário do que seria o óbvio nesse caso, ao insistir em prestigiar quem está perdendo prestígio!!!
Poderia ficar aqui citando várias outras coisas que beiram a infantilidade. Mas o que me surpreendeu, de certa forma, foi constatar que mesmo as pessoas que tem uma crítica à mídia, não tem a coragem de romper com ela. Não foram poucos os que declararam que se a Dilma não fosse ao tal evento, daria o pretexto para ser tachada pela mídia como radical, intransigente e mais isso e aquilo. Porra!!! Mas desde quando a mídia precisou de pretexto para esculhambar com a Dilma??? Qual foi o pretexto que ela deu para ser comparada a um poste??? Francamente!
Precisamos urgentemente nos livrar desse “terror infantil” de contrariar a mídia, que tomou conta de parte da blogosfera. E desse ridículo complexo de vira lata, obsessão da esquerda, de militantes a mandatos (com raríssimas exceções), que só se sentem legitimados como poder se forem chancelados pela mídia.
Ao meu ver, a mídia corporativa só existe como manifestação dos interesses da classe dominante. E como articuladora política desses interesses, inclusive dos partidos conservadores, a quem tradicionalmente caberia esse papel articulador. Portanto, a mídia oligárquica extrapola em muito sua função primordial que seria a de informar, para sobrepor-se a outras instância que deveriam ser independentes dela. Sobre isso, Judith Brito, presidente da ANJ não deixou dúvidas, quando assumiu oficialmente o que todos os militantes da luta pela democratização das comunicações já sabiam, ou seja, que a mídia assumiu o papel de oposição ao governo Lula, já que os partidos de direita, sem propostas e sem projetos, estariam fragilizados frente a dinâmica política imposta pelo novo governo.
Tendo assumido, praticamente, a condição de partido político, a mídia tenta de todas as maneiras desestabilizar o governo Lula através de vários episódios que suponho serem do conhecimento de todos. Portanto, ninguém do campo progressista (mandatos, militantes, blogueiros), tem o direito de ser ingênuo quanto as intenções desse poder, muito menos quem teve sua candidatura ao mandato presidencial quase aniquilada por ele.
Assim, partindo dessa constatação, é preciso colocar a mídia num outro patamar. Para tanto usarei uma expressão ou conceito, como queiram, que ainda não apareceu nesse debate, ou seja: a mídia como inimigo estratégico.
E o que se faz com um inimigo estratégico? Aniquila-se na primeira oportunidade. Na impossibilidade de fazer isso num único golpe, qual deve ser a estratégia para combatê-lo? Não perder uma oportunidade sequer de fustigá-lo e enfraquecê-lo, nem que seja não legitimando seus eventos com nossas presenças.
Delírio de grandeza de um réles blogueiro querendo investir com seus míseros bites contra a toda poderosa mídia? Ledo engano, meus caros. Como já estou nessa briga contra a mídia corporativa a algum tempo, tenho algumas histórias e se a Frô me aturar, noutra oportunidade conto para vocês como a mídialona não está com essa bola toda e tem seus calcanhares de aquiles.
A única utilidade que esse inimigo estratégico tem para mim é a de indicar quais são as falcatruas que os otavinhos estão armando. Porque informação de verdade, qualificada, eu busco na internet, um manancial inesgotável e, por enquanto, livre. Até que os azeredos metam suas patas sujar por aqui. Nem consigo mais me imaginar lendo algo tão anacrônico e canalha como os jornais editados pelo PIG. Na mídia eletrônica, a mesma coisa. Assistir Jornal Nacional? Só se for para meter o pau em alguma patifaria da Globo, porque como fonte de informação aquilo não vale nada.
‘A Grandeza do gesto de Dilma’

O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, recebe a presidente Dilma Rousseff em sua chegada à Sala São Paulo
Ao introduzir no debate esse conceito do inimigo estratégico, o fiz para demarcar minha posição em relação a mídia e abordar o segundo tópico, o da “grandeza do gesto da Dilma”. Muito do que eu disse acima também se aplica a esse tópico. Mas tem um argumento que foi muito usado e que refere-se ao fato da Dilma, na sua condição de mandatária da nação, não poder se eximir da participação em determinados eventos, sejam eles do seu agrado ou não. Afirmar que a Dilma não poderia eximir-se de participar do evento do PIG, invocando sua condição de presidenta, é uma completa falácia. Pois esse é um argumento de mão dupla. Se a “liturgia do cargo” a obriga a determinadas coisas, também a isenta de tantas outras. Razões para que ela não participasse não faltaram. Principalmente, por que naquele dia, ela estava no Nordeste, numa reunião com os governadores da região e isso seria um motivo mais do que justificável. Entre reunir-se com tais personalidades e comparecer a uma festa naquele covil de chacais, a primeira opção é a que se impõe, sem sombra de dúvidas.
Uma variante desse argumento foi o da magnanimidade da presidenta, que teria demonstrado o quanto não guarda rancor de seus carrascos. Sendo o Octavio quem é, tenho certeza que ele viu nesse gesto, não a tal magnanimidade de Dilma, mas sim uma demonstração de subserviência e fraqueza do seu inimigo estratégico. Sim!!!, porque podem acreditar: se tem uma coisa que o Octavio sabe, é reconhecer o seu inimigo de classe. Até pelas costas, quanto mais frente a frente!!! E de quebra, pode confirmar mais uma vez, que faça o que ele fizer contra a esquerda e em particular o PT, não sofrerá nenhuma retaliação por isso. É uma espécie de relação sadomasoquista, onde a mídia gosta de bater e a esquerda gosta que enrosca de tanto apanhar.

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