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13 de fevereiro de 2011, 22h34

Ghonim: geek hi-tech, dirigente da Google e ciberativista da ‘revolução 2’

business e a Revolução 2.0

Por: Margareta Pagano, The Independent, coluna “Business” Tradução: Vila Vudu

13/2/2011

A Google apoiou um de seus empregados que teve papel destacado nos protestos do Egito, mas outras empresas de telefonia móvel e provedoras de serviços de Internet obedeceram imediatamente às ordens do governo e desligaram aparelhos e conexões.

Quem não assistiu à entrevista de Wael Ghonim, logo depois de sair da prisão, onde permanecera por 12 dias, detido secretamente, assista:

Na entrevista, transmitida pela Dream TV, Ghonim irrompe em lágrimas, ao ver fotos de alguns dos mortos nas duas semanas de confronto, repetindo várias vezes “Não somos traidores”. Quem vê chora também.

E foi a explosão emocional do jovem executivo da Google – combinada à sua sempre crescente campanha – que arrastou ainda mais manifestantes para a praça Tahrir no dia seguinte, para manter a pressão até a renúncia do presidente Mubarak,

Até aquela entrevista, a maioria dos egípcios ainda não sabia que Ghonim, da Google, era uma das forças que ajudaram a acender os primeiros protestos do 25 de janeiro – a “6ª-feira de fúria”.

Primeiro, Ghonim montou uma página anônima no Facebook, para homenagear Khaled Said, um jovem empresário de Alexandria espancado até a morte por dois policiais em junho passado, e ajudou outros grupos de oposição a construir seus sites em redes sociais. A página de Ghonim rapidamente se converteu em “canal de informação” – um ponto de encontro e organização para a campanha – inicialmente contra as brutalidades dos policiais. A maioria dos egípcios não conheciam o muito disseminado uso da tortura no país, até que as notícias começaram a circular pela rede. E essa transparência permitiu a todos ver por trás das telas, o Egito verdadeiro, mas até então oculto, e isso deu alcance muito maior ao levante.

Só a história mostrará se Ghonim teve papel decisivo como catalisador da crise que afinal derrubou o presidente do Egito. Mas não há dúvida de que há aí um personagem fascinante; revolucionário romântico, com pequeno cavanhaque, filho de família rica, graduado e com duas pós-graduações (engenharia de computação e administração de negócios), elegante, bem vestido, um geek hi-tech, além de ciberativista. É casado com uma estadunidense e vive em Dubai, onde dirige o setor de marketing da Google para o Oriente Médio e Norte da África e de onde iniciou sua campanha pelo Facebook; Ghonim só chegou ao Cairo dois dias antes da 6ª-feira que sua campanha chamara de “6ª-feira de fúria”. Em poucos dias, o número de membros de sua página subira de 90 mil para cerca de 300 mil.

O papel de Ghonim na “revolução 2.0” como ele a chama levanta também outras questões sobre as relações entre um empregado que se envolve em papel tão central em campanha política tão ampla, e seu empregador. Para sorte de Ghonim, a Google é uma das maiores e mais poderosas empresas do mundo, fato que muito ajudou quando a própria empresa anunciou o desaparecimento de seu funcionário, visto pela última vez sendo arrastado por membros da polícia secreta. Em entrevista, a Google disse-me que está felicíssima por Ghonim ter sido libertado e estar bem, e que muito se orgulha de seu empregado ter “tomado posição”. Nem todos os patrões seriam assim tão abertos e dispostos a apoiar um empregado militante.

Outra questão a ser também analisada é o comportamento das empresas de telefonia celular e os provedores de serviços de internet, que desligaram todos os equipamentos no Egito (e também na Tunísia), obedecendo as primeiras ordens de governos ditatoriais e quebrando contratos com os consumidores, logo à primeira ordem que lhes chegou do governo. Muito se tem falado do extraordinário poder das páginas Facebook, telefones celulares e Twitter, na divulgação das palavras de ordem e de protesto, e não surpreende que a Google, com a Facebook, já circulem como aves predadoras à volta da Twitter, avaliada em cerca de 10 bilhões de dólares.

Mas o governo egípcio conseguiu calar quatro redes de telefonia celular e os provedores de serviços de Internet e manteve todos calados por cerca de cinco dias (o Senado dos EUA discute lei que dará ao Estado poderes semelhantes a esses que o governo Mubarak exerceu). Muito mais interessante, contudo, é que os manifestantes conseguiram meios para superar todas essas dificuldades. Segundo Renesys, que monitora os acessos à internet em tempo real, o país inteiro desabou. Cerca de 3.500 rotas “border gateway protocol” caíram, deixando o país praticamente desconectado do mundo; única exceção foi o Noor Group – servidor que atende a Bolsa de Valores do Egito.

A principal empresa operadora de telefonia móvel é, de longe, a Vodafone Egypt, cujo acionista majoritário é a gigante British Telecoms, com mais de 28 milhões de usuários-clientes de telefonia celular e serviços de banda larga – e que distribuiu mensagens entre seus clientes, por ordem do governo, mandando não sair de casa e não participar dos protestos.

Vodafone defendeu essa decisão, dizendo que se tratava de motivo de força maior, e que, se a empresa não obedecesse, as autoridades teriam obtido o mesmo resultado, acionando, diretamente a base “kill station”. Se isso tivesse acontecido, alegou a empresa de telefonia celular, seriam necessárias semanas, depois, para religar todos os serviços. Pode-se dizer que a Vodafone é tão vítima, nessa relação, quanto os consumidores – e teve prejuízos de mais de $100m. De fato, é mais que hora de as empresas reverem o risco político de associarem-se a regimes políticos voláteis.

Os manifestantes também contornaram a queda dos sistemas usando servidores DNS – Domain Name System – não oficiais, que funcionam como “guias telefônicos” para a internet, traduzindo nomes de computadores hospedeiros para endereços de Protocolo Internet (IP), o que permite acesso fora do país. Tweets pediam a quem estivesse conectado, via Wi-Fi, que retirasse as senhas, para que todos pudessem ter livre acesso. Outros usaram velhos modems discados para enviar suas mensagens.

Os mais ricos foram poupados dessas dificuldades, porque todos usam os últimos modelos de aparelho de telefonia por satélite – modelo que se conhece associado aos James Bonds do cinema – que custa cerca de $1,000 e é vendido por empresas de telefonia por satélite como a Inmarsat. Aí está um item que pode se tornar indispensável para as massas árabes, e as tornará imunes a qualquer desligamento ‘oficial’ de telefones e internet.(…)

Veja também:  The Intercept Brasil explica como o Google esconde suas matérias

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