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05 de março de 2009, 19h59

Insanidade, crueldade ou princípios cristãos? O caso da menina grávida de gêmeos aos 9 anos

Católicas pelo Direito de Decidir manifestam-se sobre o caso da menina pernambucana de nove anos, grávida por estupro de seu próprio padastro

O que pode levar alguém a desejar obrigar uma criança, com risco de sua própria vida, a manter uma gravidez fruto de uma inominável violência? Rígidos princípios religiosos? Ou insanidade e crueldade? Estamos falando do caso ocorrido em Pernambuco da menina de nove anos que apresentou gravidez (de gêmeos!) como resultado de estupros seguidos que sofreu de seu padrasto, violência a que foi submetida desde os seis anos de idade.

A gestação foi interrompida no dia 04 de março último, às 10h da manhã, seguindo o protocolo do Ministério da Saúde que permite abortamento em casos de gravidez de risco ou quando a gestante foi vítima de estupro, ainda que o aborto continue sendo crime no país. O caso da garota pernambucana se enquadrava nos dois casos, já que a gravidez de fetos gêmeos também colocava sua vida em risco, pois a menina pesa apenas 36 kg e mede 1,36 m. Por seu muito pequena, ela não tem estrutura física para suportar a gravidez de um feto, muito menos de dois. É de se imaginar, ainda, os danos psicológicos a que seria submetida se fosse obrigada a levar essa gravidez a termo.

Para nossa surpresa – e indignação!-, entretanto, houve uma intensa movimentação de militantes religiosos contra a interrupção dessa gravidez tão perigosa, sob todos os aspectos, para essa pequena criança de nove anos. Até mesmo ameaça de excomunhão houve! Sob o argumento da defesa da vida, essas pessoas não se importaram em nenhum momento nem com a violência já sofrida por ela, nem com a real possibilidade que havia de a menina perder a própria vida. Se essa criança – que tem existência real e concreta, com uma história de vida, relações pessoais, afetos, sentimentos e pensamentos, enfim -, se essa menina não merece ter sua vida protegida, trata-se de defender a vida de quem? De uma vida em potencial ou um conceito, uma abstração? Quem tem o direito de condenar à morte uma pessoa em nome de se defender uma possibilidade de vida que ainda não se concretizou e não tem existência própria e autônoma?

Pensamos que se configura como pura crueldade essa intransigente defesa de princípios abstratos e de valores absolutos que, quando confrontados com a realidade cotidiana, esvaziam-se de sentido e, principalmente, da compaixão cristã. Seria possível imaginarmos o que Jesus Cristo diria a essa menina? Seria ele intolerante, inflexível e cruel a ponto de dizer a ela que sua vida não tem valor? Ou ele a acolheria gentilmente, procuraria ouvir sua dor e a acalentaria em seu sofrimento? Será que ele defenderia que ela sofresse mais uma violência ou usaria sua voz para gritar contra os abusos que ela sofreu?

Felizmente, a menina pernambucana pôde, graças ao respeito a um direito democraticamente conquistado, diminuir os danos das inúmeras violências que sofreu e a gravidez foi interrompida. Assusta-nos, porém, saber que, ao contrário dessa menina, outras tantas vidas têm sido ceifadas em nome de princípios intransigentes, duros, violentos e nada amorosos. Assusta-nos o desprezo pela vida das mulheres. Assusta-nos que suas histórias sejam descartadas, que sua existência na Terra esteja valendo menos do que a crença autoritária de algumas poucas pessoas.

Para que a nossa democracia seja efetiva, as pessoas precisam ter o direito real de escolher. Por isso, defendemos que as políticas públicas de saúde reprodutiva e os direitos reprodutivos já conquistados sejam garantidos. Além disso, lutamos pela legalização do aborto, para que as mulheres que assim desejem, possam levar qualquer gravidez até o fim. Mas que as que não o desejam, não sejam obrigadas a arriscar suas vidas, ou mesmo morram, por se pautarem por valores éticos distintos.

São Paulo, 05 de março de 2009

Católicas pelo Direito de Decidir

cddbr@uol.com.br

E abaixo reproduzo a:


Carta aberta de Católicas pelo Direito de Decidir em solidariedade ao Pe. Luiz Couto, afastado de suas funções de sacerdote por defender o uso da camisinha:

Prezado Pe Luiz

Nós, da equipe de Católicas pelo Direito de Decidir, queremos manifestar nossa solidariedade, nesse momento em que a hierarquia da Igreja quer calar sua voz. Reconhecemos em seus posicionamentos a manifestação do bom senso e da construção de uma Igreja na qual as pessoas sejam mais fraternas e vivam de fato em comunhão.

Sabemos que a doutrina católica no campo da moral sexual, tem sido historicamente motivo de divergência entre fiéis e a própria hierarquia. Embora, muitos/as vivam em desacordo com essa doutrina, poucos são aqueles que têm coragem de levantar uma voz pública.

Sabemos também que a fé na mensagem evangélica tem uma medida muito mais generosa do que o seguimento a questões disciplinares dessa natureza.

A mesma hierarquia que pune seus quadros quando discordam do pensamento oficial, é frequentemente complacente com situações graves que acontecem no interior da própria igreja, como são, por exemplo, os inúmeros casos de pedofilia e abuso sexual provocados por sacerdotes.
Conte portanto, com o nosso apoio e de um número crescente de setores religiosos do catolicismo que há tempos, sem deixar de afirmar sua fé, desobedecem princípios morais abstratos, distantes daquilo que constitui o núcleo do Evangelho: o amor, o respeito à dignidade de todas as pessoas, justiça e liberdade.

Solidariamente,

Católicas pelo Direito de Decidir
www.catolicasonline.org.br
cddbr@uol.com.br
(11) 3541-3476



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