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23 de julho de 2011, 11h56

Jornal Sem Terra: O pano de fundo das mortes na Amazônia

O pano de fundo das mortes na Amazônia

José Cláudio Ribeiro da Silva e de Maria do Espírito Santo da Silva, líderes extrativistas assassinados no Pará. Foto- Felipe Milanez

Por Ayala Ferreira, Da Direção Estadual do MST PA, Do Jornal Sem Terra*

22/07/2011

FAZ MAIS DE trinta dias que tivemos a fatídica notícia dos assassinatos de José Cláudio Ribeiro da Silva e de Maria do Espírito Santo da Silva, além de outras destacadas lideranças que foram assassinadas na região da Amazônia, em uma onda de violência contra trabalhadores rurais (veja box abaixo).

Nos últimos 24 anos, o casal se empenhou em implementar no projeto de Assentamento Agroextrativista onde residiam, em Nova Ipixuna, sudeste do Pará, experiências agrícolas com uso sustentável da floresta amazônica. Logo nos primeiros dias após os assassinatos, diferentes versões foram apontadas pelas investigações e divulgadas
nos meios de comunicação.

Uma delas relacionava o episódio a um “acerto de contas” por desentendimento entre vizinhos. Como nesta região a barbárie social está estabelecida, parece “impossível” imaginar níveis de sociabilidade entre as pessoas que não seja pelo uso da violência.

O que presenciamos foi a execução sumária com requintes de perversidade de duas lideranças defensoras da floresta e dos camponeses do Pará e da Amazônia brasileira. Eles vinham se contrapondo insistentemente ao modelo de desenvolvimento capitaneado por fazendeiros, madeireiros, empresas de exploração mineral e de siderurgias, tendo o Estado brasileiro e paraense como os seus maiores organizadores.

 Edição junho/julho 2011

A partir de 1970, a Amazônia brasileira – e em especial o Pará – passou por profundas transformações gestadas e implementadas pelo Estado, que consistiu em grandes obras de infraestrutura (estradas, hidrelétricas e ferrovias), incentivos fiscais e de créditos para a instalação de empresas para exploração dos recursos minerais. Além disso, orientou a migração desordenada para colonizar essa terra tida como região desabitada, atrelando-a em definitivo aos interesses do grande capital.

Nas cercanias desses projetos e nas cidades que se expandiram desordenadamente
pelo intenso fluxo migratório, houve a substituição gradativa da floresta amazônica e de comunidades tradicionais, que deram espaço para a presença das madeireiras, das fazendas de pecuária extensiva e de monocultivo de eucalipto. Os eucaliptos alimentam os fornos das siderúrgicas que mais recentemente se instalaram na região, uma vez que as carvoarias não davam conta de manter manter a oferta do carvão vegetal (produzido pelo desmatamento da floresta).Para completar, a utilização de tecnologia de ponta para a extração do principal minério: o ferro, que sai de nossa  região sem nenhum valor agregado.

Outro paradigma

Pensar e propor alternativas que se contraponham a esse modelo de desenvolvimento hegemonizado no Pará se tornou perigoso, porque confronta os interesses de acumulação de determinados grupos, que têm seus tentáculos na iniciativa privada do grande capital, nos governos e no judiciário. Todos indiscutivelmente agem em comum acordo para manter o status quo, condição indispensável para a continuidade da usurpação da biodiversidade amazônica, que a princípio deveria estar a serviço de toda a sociedade. José Cláudio e Maria do Espírito Santo foram silenciados porque discordavam desse modelo de desenvolvimento.

Mais do que incorporar o discurso do “desenvolvimento sustentável”, eles ousaram experimentar na comunidade onde residiam práticas extrativistas sustentáveis ambiental e economicamente. Tornaram-se exemplos de que é possível reproduzir a própria existência e desenvolver a região a partir de um outro paradigma.

Os fazendeiros, madeireiros, carvoeiros e empresas privadas da mineração, souberam silenciar pelo uso da pistolagem esses bravos companheiros. Conseguiram inseri-los na dolorosa estatística da Comissão Pastoral da Terra, que revela que em 26 anos (1985-2011) na Amazônia brasileira, 795 pessoas foram assassinadas por ousarem pensar e defender outros interesses que não seja o da acumulação do grande capital.

Revelar essa realidade que intencionalmente tem sido camuflada, denunciar os riscos e malefícios dos projetos governamentais – como o Programa Terra Legal e o novo Código Florestal –, seguir na organização dos camponeses e na ampliação de experiências agrícolas atreladas ao extrativismo são formas de reconhecer o legado deixado por José Cláudio e Maria do Espírito Santo. E por que não dizer a todos aqueles que por amor a floresta amazônica e aos seres humanos ousaram lutar e doar a própria vida.

Cronologia da violência

24 de maio – Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio Ribeiro da Silva são assassinados no Projeto de Assentamento Extrativista, Praia Alta Piranheira, no município de Nova Ipixuna

27 de maio – Adelino Ramos, conhecido como Dinho, sobrevivente do Massacre de Corumbiara (agosto de 1995), foi assassinado em Vista Alegre do Abunã, na região da Ponta de Abunã, município de Porto Velho (RO)

28 de maio – O assentado Herenilton Pereira dos Santos, do assentamento Praia Alta Piranheira, Nova Ipixuna, PA, foi encontrado morto.

2 de junho – É assassinado Marcos Gomes, por homens encapuzados  na zona rural de Eldorado dos Carajás, no Pará.

11 de junho – É encontrado o corpo do trabalhador rural Obede Loyola Souza, no acampamento Esperança, município de Pacajá, PA. Foi executado dois dias antes com um tiro de espingarda dentro do ouvido.

(*Com informações da CPT)
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