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10 de março de 2011, 18h01

Jovens blogueiras de Gaza: sobre o que blogam, o que querem?

Internet liberta blogueiras de Gaza

Por: ANA CARBAJOSA, Jerusalém, no El Pais, Tradução: Victor Farinelli

08/03/2011

Mulheres da Faixa de Gaza desfrutam, a partir de suas páginas web, da liberdade que o embargo israelense e as regras conservadoras da sua sociedade não lhes permite

São mais ou menos jovens, umas laicas outras religiosas, algumas combativas, outras inclusive poéticas. Mas o que realmente une a todas as blogueiras da Faixa de Gaza é que a rede para elas é uma das poucas janelas de expressão e comunicação com o mundo. O bloqueio israelense (que já dura mais de três anos e que coinscide com a tomado do poder pelo movimento islamista), impede tanto as mulheres como os homens de entrar e sair da Faixa, salvo raríssimas excepções. No caso das mulheres, à falta de liberdade de movimentos se agregam as limitações próprias de uma cultura conservadora e cada vez mais “islamizada”. Por isso, a Internet é meia vida para as blogueiras de Gaza, e também por isso contam que, quando se sentam para teclar, mesmo em quartos que costumam compatilhar com vários irmãos, se sentem livres. Estas são as idéias e projetos de algumas das cyberativista da Faixa:

Asmaa Alghoul. É provavelmente a blogueira mais antiga, e também a que mais faz barulho na Faixa de Gaza. Tem 29 anos, um filho de seis e está divorciada. É uma das vozes mais críticas com o Hamás de todo o território. Ela diz que o movimento islamista compra os mais pobres oferecendo a eles todo tipo de serviços, além de um lugar no céu. Alghoul teme que algum dia Gaza acabe sendo uma grande universidade islâmica, onde alunos e alunas viveriam em separado e as mulheres andariam cobertas dos pés à cabeça. “Aqui você não pode ser vista falando com um homem se não está casada; nas mesquitas dizem que a sociedade está cheia de prostitutas, e que devemos andar cobertas. A mulher sempre é suspeita. Às vezes penso que os islamistas são os mais freudianos, enxergam sexo em qualquer coisa. Utilizam a religião para impor políticas sexistas e discriminatórias”.

Alghoul, que nasceu num campo de refugiados próximo a Rafah, na frontera sul da Faixa, constitui uma exceção em quase todos os sentidos. Para começar, porque é uma mulher divorciada que se move livremente – às vezes até em bicicleta, madeixas ao vento – pela Faixa de Gaza. Mas, sobretudo, porque tem bastante claro que ninguém pode obrigá-la a um estilo de vida mais miserável que o dos homens só pelo fato dela ser mulher. Também por isso rompeu com o marido, um poeta egípcio, que depois do casório revelou ser um homem tremendamente ciumento, e pretendia que sua mulher não saísse de casa para trabalhar. “Quando me divorciei, todo mundo me culpou por haver me equivocado ao escolher um marido. Depois, meus tios me obrigaram a usar novamente o hiyab. É necessário ter um homem ao lado na hora de decidir quando se coloca ou se tira o véu”. Porém, após um tempo, se deu conta de que não precisava da aprovação de nenhum homem para tomar essa decisão. “Não uso mais, e sim, as pessoas e criticam, e daí?”.

Escritora e jornalista, deixou seu trabalho num diário ligado ao Fatah, o partido do governo em Ramala, porque não se sentia vinculada a nenhum partido, nem tinha vontade de censurassem o que escrevia. Por isso, em 2009 montou seu próprio blog e começou a postar seus artigos. Neles, ela denuncia, convoca, fala de política e também dos crimes contra a honra e das discriminações que sofrem as mulheres como ela na Faixa de Gaza. “Aqui, é muito difícil sem uma mulher laica”, diz. No seu blog, ela recebe ameaças de morte. “Sim, claro, é fácil não lutar, mas se não podemos nos expressar livremente estamos perdidas”. Foi detida há pouco tempo por participar em uma manifestação de apoio à revolução egípcia, e assegura que foi golpeada pela comissária. Nem isso foi capaz de diminuir nem um pouquinho do seu espírito combativo. Agora, prepara novas protestos de jovens palestinos, emulando a experiência dos vizinhos egípcios.


Rana Baker. Estudante de Administração de Empresas na Universidade Islâmica de Gaza, tem 19 anos, diz que gostaria de ser jornalista e faz alguns bicos numa rádio local. Em seu blog, escreve em inglês, porque diz que o que ela tenta é “falar com o mundo lá de fora”.

Os tópicos do seu blog falam da sua infância, da sua vida adolescente, mas também de política. Como outras jóvens, Baker está experimentando um rápido processo de politização, que começou pouco depois da guerra de Gaza (2008-2009) e que tem se acrescentado com as revoltas que os jovens impulsionam em todo o mundo árabe. “Me dei conta de que nós jovens podemos exigir dos nossos governantes. Sejamos homens ou mulheres. Se participamos juntos da revolução, então seremos iguais”.

Narra os ataques israelenses em primeira pessoa e se fez ativista do movimento internacional que promove o boicote aos produtos israelenses. “Enquanto estivermos submetidos a um embargo, boicotearei os produtos israelenses”. Na web, também passa horas dedicada a debater com os israelenses em fóruns, embora nunca tenha tido a oportunidade de conhecer pessoalmente um israelense de carne e osso.

Não tem uma melhor opinião dos políticos palestinos. “Não se importam com a gente, só lhes interessa o dinheiro. A divisão (entre Fatah e Hamás, os partidos políticos rivais) só beneficia os israelenses”. E acresenta: “primeiro, temos que acabar com a corrupção e a divisão palestina, só então seremos capazes de lutar contra a ocupação”. Reconhece que seus pais têm medo de que algo lhe suceda, que algum dos grupos políticos que ela ataca em seu blog termine por enviá-la à cadeia. Mas ela diz nada temer, e que “se temos que morrer, que seja por algo que vale a pena, não?”.

Lina al Sharif. No dia em que conheci esta jovem blogueira de 22 anos, ela chegou acompanhada dos pais. Queriam avaliar a entrevistadora. Uma vez aprovada, eles se sentaram discretamente numa mesa próxima a que estava sua filha, mas sem intervir. A moça se queixa de que, pelo fato de ser mulher, deve se submeter a normas que dificultam seu trabalho. “Meus pais são legais e modernos, mas se quero sair para cobrir alguma notícia, sempre tenho que ir acompanhada de um homem, normalmente meu irmão, mas nem sempre é fácil. Quando anoitece, tenho que estar em casa”.

Ainda assim, al Sharif pensa que o cultural é quase o de menos, que no caso das mulheres palestinas, o maior obstáculo é a ocupação israelense. “Como é possível que as mulheres tenham que dar a luz num check point (posto de controle)? Como é possível para uma mãe criar seus filhos em Gaza, sabendo que aqui não há horizonte?”, lamenta.

Faz três anos que al Sharif, que diz que aspira ser “uma boa muçulmana”, deu o passo adiante e se animou a publicar seu primeiro tópico no blog. Nele, falou do dia do ser aniversário, da universidade, e introduziu alguns versos. “Mas quando veio a guerra de Gaza tudo mudou, fiquei sem palavras”. Sentiu aqueles dias, de estar exposta aos bombardeios, sem eletricidade e até mesmo sem água, não era sofrimento suficiente comparado com o dos que viviam em outras zonas de Gaza, ainda mais expostos à artilharia e às bombas israelenses. A guerra deixou cerca de 1.400 mortos e um trauma coletivo ainda onipresente na Faixa.

Para al Sharif, seu blog és “uma maneira de romper o embargo mental. Com um clique do mouse posso estar fora de Gaza”, diz. “Embora, o que eu queria de verdade é a liberdade real, não a virtual”, explica.

No verão passado, al Sharif conseguiu sair de Gaza, graças a um programa do Departamento de Estado estadunidense. Esteve em Los Angeles, em San Francisco e em Washington. “É incrível como é fácil viajar por lá. Você sobe num carro e pode passar horas e horas sem atravessar nenhum check point“. E agrega: “Nos Estados Unidos foi a única vez na minha vida em que me senti jovem”.

Al Sharif é uma jovem muito inteligente e estudiosa. Fala inglês perfeito, o que aprendeu parte na escola pública, mas sobretudo na Internet, com um programa educativo da BBC. Como ela, são muitas as jovens da Faixa que se viram por si mesmas diante da falta de alternativas ou apoios externos. “Alguns companheiros de classe dizem que sou séria demais, mas tenho que me preparar se quero chegar a algum lugar”. Por isso, diz que por enquanto casar não está dentro de seus planos. “A partir de certa idade, a mulher que não está casada é um fracasso social. Por outro lado, as que se casam começam a ter um filho atrás do outro e interrompem sua formação”.


Sameeha Elwan. A família de Sameeha é formada por refugiados procedentes do território onde hoje é Israel. Esta palestina de 23 años se graduou em literatura inglesa e agora trabalha como professora assistente na Universidade Islâmica. Não se casou e, como qualquer mulher solteira da Faixa de Gaza, vive com seus pais, apesar de trabalhar desde os 15 anos e não depender deles economicamente. Às dez da noite tem que voltar para a casa. Ainda assim, pensa que, pouco a pouco, as mulheres vão ganhando cotas de liberdade. Prova disso, diz ela, é o seu blog. “Escrevo o que me dá vontade. Ninguém me manda calar”.

You Tube é sua janela para o mundo. Ali, ela pode ver quase tudo. Só quando reflete um momento e percebe que aquilo é só uma tela, se sente presa e se lembra de que não pode viajar, de que suas excelentes notas na universidade pouco lhe servem para cruzar as impermeáveis fronteiras da Faixa de Gaza. Apesar de que quase nenhum estrangeiro se arriscaria a viver em Gaza por vontade própria, como muitas outras jovens, ela gostaria que os filhos, que algum dia possa vir a ter, possam crescer em Gaza. “Este é o único lugar no mundo onde a vida tem um verdadeiro significado. Sempre há algo pelo que lutar”.

Como muitos jovens da Faixa, ela também está desencantada com os políticos e lamenta a divisão política que faz sangrar a causa palestina. Entretanto, agora está entusiasmada com os ventos de mudança que sopram pelo mundo árabe. Passa o dia conectada no Facebook e no Twitter. “Tunísia e Egito nos deram muita esperança. Eu acredito que os novos governos trarão muitas coisas boas para os palestinos”.

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