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28 de agosto de 2018, 15h23

Juliana Gagliardi e Eduardo Barbabela: Um “desfecho rápido” para Lula

Um “desfecho rápido” para Lula Por: Juliana Gagliardi e Eduardo Barbabela no Manchetômetro O dia 15 de agosto de 2018 foi a data limite para o registro das candidaturas à Presidência da República. No dia seguinte, a manchete do jornal O Globo, contudo, destacava outro tema: o pedido de rejeição da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva que a PGR realizou junto ao TSE. Em um de seus editoriais[1] do dia 16 de agosto, o jornal foi claro: Lula se utilizava de todos os subterfúgios legais, carismáticos e discursivos para fortalecer a candidatura petista – ali chamada de “manobra” -, seja com ele, seja com Fernando Haddad como candidato a presidente. A partir de uma noção republicana de que a lei vale para todos, o jornal destacava que a rejeição da candidatura de Lula pela Ficha Limpa era certa. No dia 18 de agosto, em uma de suas matérias de capa sob o título “Candidatos vão ao Nordeste em busca de eleitores de Lula”, o jornal O Globo afirmou que “se [o] petista for barrado, 10 milhões de simpatizantes na região dizem não ter um nome à Presidência”. Embora a matéria reserve algum espaço para a dúvida sobre algo que ainda não aconteceu ao empregar a partícula “se”, o editorial da página 2, intitulado “Eleição depende de desfecho rápido no caso de Lula” explicita o opinião do jornal: “o partido e aliados desrespeitam a clareza com que a Lei da Ficha Limpa torna inelegível o ex-presidente, por ter sido condenado em duas instâncias, nas acusações de corrupção e lavagem de dinheiro, no processo do apartamento do Guarujá.” Para desqualificar o registro da chapa, O Globo chama de “golpe perfeito” aquilo que identifica como estratégia da candidatura: a prolongamento da discussão permitiria que a foto de Lula aparecesse nas urnas, “mesmo que a candidatura venha a ser cassada depois”, sendo substituída a liderança por Haddad. Assim, na opinião do jornal, teria lugar “um estelionato”: eleitores votariam na foto de Lula mas dariam o voto a Haddad. Diante disso, o jornal urge para que o candidato seja impedido com rapidez e sugere “o dia 31, sexta-feira, como data-limite, por ser o início da propaganda eleitoral no rádio e na TV”, completando que “o melhor para o Brasil é que tudo esteja resolvido até lá”. Nesse contexto, para o jornal, “não se pode perder tempo”. Além dos editoriais, outro espaço a pedir com pressa a proibição da candidatura é a coluna de Merval Pereira. Segundo ele, “o bom senso manda”[2] que o impedimento seja resolvido até o dia 31 de agosto, para assim evitar que a campanha tenha início no rádio e na televisão. O jornalista afirma que “Lula, condenado em segunda instância, não pode concorrer à presidência da República” e defende claramente que essa decisão seja tomada o mais rápido possível, mesmo sem que um processo seja aberto. No dia 21 de agosto de 2018, os resultados da primeira pesquisa após o início do período eleitoral foram divulgados pelo jornal, que fez questão de destacar que o candidato do Partido dos Trabalhadores é Fernando Haddad e não Lula. Já no corpo da manchete, o jornal pontua que Lula está inelegível pela Ficha Limpa. Quando acessamos a reportagem relacionada à manchete observamos que O Globo faz questão de noticiar junto aos dados, a manifestação do Ministério Público Eleitoral pela inelegibilidade do ex-presidente e reforçar que a decisão ainda será tomada pelo relator do caso no TSE, o ministro Luís Roberto Barroso. No mesmo dia 21, a coluna[3] de Merval Pereira reagiu à recomendação da ONU de que Lula deveria ser candidato, não para comentar a decisão, analisando a razão de tal posicionamento do órgão, mas para destacar que durante os governos petistas recomendações também foram ignoradas e que o Comitê de Direitos Humanos, de onde a recomendação partiu, não teria poder de sanção. No dia 23,[4] Merval admite o favoritismo de Lula nas pesquisas, mas afirma mais uma vez que Lula não será candidato porque é inelegível pela Lei da Ficha Limpa e que não necessariamente conseguirá transferir seus votos para Haddad – destacando que o impacto será grande se o PT puder usar a imagem de Lula na campanha eleitoral. Novamente, no dia 24, o colunista dedica sua coluna a dizer que Lula não conseguiu transferir seus votos pra Haddad em 2016, pois o candidato não conseguiu se reeleger. Segundo Merval, “na eleição de 2010, Lula havia transferido para a desconhecida Dilma sua popularidade transformada em votos, mas é difícil encontrar líderes populares que, sem poder participar da campanha eleitoral presencialmente, tenham tido sucesso.”[5] O jornalista vai mais longe ao recomendar que a imagem de Lula não deve aparecer em lugar algum da campanha, reafirmando que, caso Lula seja impedido, seus eleitores estariam dispersos e não com Haddad, argumento que repetiu em colunas posteriores. Outra narrativa que começa a tomar corpo é chamar o caso de fraude. No já mencionado editorial do dia 18, o jornal chamava de estelionato a insistência na candidatura de Lula com vistas a beneficiar Haddad. No dia 22, O Globo publica matéria[6] em que Ciro Gomes chama de fraude o movimento do PT. Na coluna do dia 24, Merval usa a expressão “propaganda enganosa”. Praticamente não há espaço no jornal para discutir que, por ora, até que outras medidas sejam tomadas, a inscrição da candidatura de Lula foi realizada e permanece regular. Do mesmo modo, pouco se problematiza o fato de as pesquisas apontarem a liderança do candidato com ampla margem. A complexidade do caso, o processo contraditório da prisão de Lula e sua indiscutível liderança são aspectos menosprezados, de modo geral, pelo jornal que, ao lado de outros veículos, destaca o desfecho como dado e foca no cenário sem Lula como única realidade admitida para as eleições. A candidatura do petista se tornou um inconveniente: ao mesmo tempo em que não há uma decisão oficial sobre o registro, o ex-presidente continua a liderar todas as pesquisas e a ser um fator decisivo na corrida eleitoral. Os prazos jurídicos parecem ter se tornado empecilhos para O Globo, que decidiu antecipar-se ao Judiciário, tomar uma decisão sobre Lula e construir sua narrativa própria sobre a eleição. Ao fazer isso, o jornal se antecipa não só aos ritos legais, mas à história; não apenas produz uma determinada narrativa sobre a política, mas pressiona e patrocina um desfecho político esforçando-se para mostrá-lo como o único possível.


[1] A vitimização de Lula na manobra da candidatura. O Globo, 16 de agosto de 2018, p. 2.
[2] PEREIRA, Merval. Derrotas sucessivas. O Globo, 18 de agosto de 2018, p.2.
[3] Não faça o que faço. O Globo, 21 de agosto de 2018, p. 2.
[4] Eleição aberta. O Globo, 23 de agosto de 2018, p. 2.
[5] Os problemas de “Andrade”. O Globo, 24 de agosto de 2018, p. 2.
[6] DANTAS, Dimitrius; LIMA, Maria. Marina e Ciro criticam PT por insister em Lula. O Globo, 22 de agosto de 2018, p. 8.

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