segunda-feira, 21 set 2020
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Lelê Teles: Contra a negação, conta a negra ação

I CAN’T BREATHE

Por Lelê Teles

Barack Obama não é um presidente negro, é um presidente preto.

Negro é mais que uma definição de pigmentação de pele, negro é uma categoria social, é um discurso ideológico construído de forma diacrônica e reconstruído de forma dialógica; negro é uma afirmação política e identitária, de um lado, e uma imposição político-social, de outro.

Negro é uma postura de confronto, porque nasce de uma condição de conflito.

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Grupo deita na rua durante dois minutos em Huntsville, Alabama. (Foto: Bob Gathany / AL.com / AP Photo)

Por isso Obama, apesar de preto, está longe de representar os negros, o que é uma pena.

Pergunto ao palhaço negro que sorri no quadro em minha sala: por que diabos Obama consegue respirar normalmente ao ver que um homem, preto como ele, morreu estrangulado pela polícia, justamente por ser preto, como ele?

Obama viu que os policiais que asfixiaram o negro Eric Gardner – um vendedor ambulante de 46 anos e asmático – foram absolvidos; todos brancos.

É bom que Obama saiba que enquanto estiver sob a escolta dos guarda-costas da Casa Branca, suas filhas estão livres. Depois disso, podem estar com joelhos sobre suas cabeças a qualquer momento.

Quem não se lembra quando o jornal The New York Post publicou uma charge em que dois policiais matam a tiros um chimpanzé?

No texto, o chargista fazia uma “brincadeira” comparando o macaco assassinado ao presidente Obama.

Barack deveria saber que poderia ser ele ali debaixo de tantos joelhos gordos, a gritar i can’t breathe; a menos que ele não se veja naquele homem.

A menos que Obama se veja preto, mas é incapaz de se perceber negro, vítima de um discurso ideológico segregador e intolerante.

Parece que é isso mesmo. No episódio da charge do Post, Obama minimizou, aceitou, se omitiu, foi condescendente.

Negro?

Se tivessem um presidente negro, pretos, brancos e mestiços estadunidenses não estariam nas ruas exigindo justiça contra mais um crime racial.

Por que eles estiveram nas ruas pelos mesmos motivos durante todo o século XX, quando não haviam presidentes negros.

Nos anos 90 vimos a profecia de Chuck D ser cumprida (Burn Hollywood, Burn) quando o taxista Rodney King foi espancado violentamente por policias brancos em Los(t) Angeles, simplesmente por ser preto.

Os policiais foram absolvidos, o povo foi pra rua, saqueou e incendiou.

Quem não pensou naquela noite que se elegessem um presidente preto as coisas seriam diferentes?

Qual nada. Obama se recusou a intervir na morte de Troy Davis, executado por injeção letal sob a acusação de ter matado um policial, mesmo diante de frágeis provas. O diabo é que o mesmo Obama se compadeceu com a condenação à morte por apedrejamento da iraniana Sakineh.

Realpolitik na veia.

O que diria o mundo, filho de Deus, se Evo Morales estivesse debruçado em um camarote a assistir, impávido, ao extermínio de jovens indígenas na Bolívia?

Ou se o presidente que saiu da miséria, Lula da Silva, não fizesse nada para tirar da miséria outros milhões de brasileiros que padeciam do mesmo que ele padeceu?

Quem Obama representa, aliás quem ele acha que representa?

Na América de Obama há mais negros na prisão hoje do que escravos em tempos remotos. Foram libertados do trabalho no campo para serem encarcerados nas cidades.

Na América de Obama, um policial branco também foi absolvido pelo assassinato a sangue frio, em agosto deste ano, do jovem negro Michael Brown. Brown levou seis tiros, porém, estava desarmado.

Na América de Obama, uma criança negra pode ser alvejada por estar portando uma inocente arma de brinquedo; e alvejada da cintura pra cima, com a nítida intenção de matar.

Bill de Blase, que é casado com uma conhecida ativista negra e tem um casal de filhos negros, já manifestou preocupação com a segurança dos seus de casa e já deu ordens para coisa maneirar nas ruas.

Quando Obama vai se manifestar, como presidente, contra isso?

E nós, até quando vamos ser Obamas? Até quando vamos assistir mulheres negras sendo arrastadas por camburões, pedreiros negros desaparecendo misteriosamente depois de serem levados por um carro de polícia, até quando vamos assistir de camarote ao extermínio de nossa juventude negra?

Ser 100% preto não é o mesmo que ser 100% negro, não confunda.

Contra a negação, conta a negra ação.

Palavra da salvação.

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Maria Frô
Maria Frô
Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.