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30 de abril de 2015, 12h44

Marcio de Souza: Moro versus Moro

Moro vs. Moro

Por: Marcio de Souza*, especial para o Maria Frô

Em artigo escrito para a Folha de Quaraí (RS) no dia 07 de outubro de 2009, intitulado “Mercantilização da vida”, alertei para a dominação totalitária da sociedade de consumo feita pelos meios de comunicação de massa ocidentais, inclusive no Brasil, onde a rede globo de televisão (RGT) impõe seus interesses e sua própria agenda a todo o país através de seu privilegiado monopólio comunicacional (claro que o grupo econômico dos Marinho abrange vários meios de comunicação de massa, tais como rádios, canais de tv pagos, jornais e revistas, portais na internet, etc., sendo certo que a todos eles se aplicam as manifestações aqui contidas).

Na ocasião, afirmei que o vazio televisivo nacional, cinquentenário, continha o que há de pior mundialmente. Lembrei que a RGT, erigida pela ditadura civil militar do período entre 1964-85, contrapõe a desgraça cotidiana ao falsificado glamour da sociedade de consumo impondo a irracionalidade produtiva (o domínio e o controle da sociedade em geral se dá pelo impulso ao consumo sem limites – como se isso fosse possível – articulado à publicidade que por sua vez gera a massificação (alienação) alarmante de toda a sociedade. Ou seja, você se comporta como uma pessoa tola, artificialmente estimulada a gastar tudo o que recebe, muitas vezes em coisas supérfluas.

Assim, achei ótimo ler no manifesto “Não vamos para a rua com a direita!”, de 13 de abril corrente, dos ativistas e artistas do hip hop, a expressão “mercantilização da vida” incluída na frase “Este movimento liberal e proto-fascista tem como pautas o Impeachment da presidente Dilma, a redução da maioridade penal, a terceirização dos serviços, intervenção militar, a criminalização de movimentos populares combativos, a mercantilização da vida, dentre muitas outras pautas de cunho absolutamente antidemocrático e antipopular“. Neste sentido, o chamado de Amilton Sganzerla em texto para o blog “Escrevinhador” de Rodrigo Vianna, intitulado “Sergio Moro Presidente do Brasil!”, entre outros nos seguintes termos, é esclarecedor, a saber:

“(…) Moro agrada os barões da mídia. Por duas razões. Porque cumpre sua agenda de enfraquecer o governo federal e porque rende uma manchete por semana. Eles precisam também de manchetes para vender seu produto. Moro agrada as multinacionais, porque está destruindo o pouco que temos de engenharia e tecnologia nacional. Moro evita qualquer problema aos partidos de direita em suas investigações, porque precisará de seu apoio em futuro próximo. Moro passa por cima da lei para punir os supostos criminosos, igualzinho aos heróis dos filmes policiais de Hollywood. Moro cria a imagem simbólica de grande combatente da corrupção, tida como o grande e único mal do país. Moro aparenta competência, organização e capacidade de comando, tudo o que dizem que um bom gestor precisa. Moro prestou juramento de vassalagem e demonstração de encantamento ao verdadeiro partido político da direita no Brasil, a Rede Globo e seus donos, ao aceitar e receber, sem conseguir esconder o deslumbramento, o Prêmio “Faz a Diferença – Personalidade do Ano” das mãos dos “marinhos”.(…)“.

E segue: “(…) Moro será o candidato perfeito para o ambiente político construído. É a luva na mão para uma nova ditadura no Brasil. Político sem aparentar ser político, comportamento militar sem ter farda e insígnias, popularidade midiática sem ser do povo, aparência de reformador para evitar qualquer reforma, aparência de cidadão comum para ser legítimo representante da elite, combatente da corrupção sendo o protetor da pior corrupção. A elite brasileira está com a tática do “quero-quero”, ave das nossas terras: canta numa coxilha e põe os ovos na outra. Caso o ninho venha a chocar, na hora certa, Moro renunciará à função de magistrado, vai se filiar a um pequeno partido e construirá uma ampla aliança de direita. E o restante a Globo e seus satélites farão.(…)“.

Seria como ressuscitar, no Brasil, o despotismo esclarecido (como vem alertando um dos mais importantes jornalistas brasileiros, Mino Carta: “Nada de espantos, o Brasil ainda vive a dicotomia casa-grande–senzala. (…) Trata-se da insensibilidade diante da desgraça, da miséria, do atraso. Da traição cometida contra o País que alguns canalhas chamam de pátria.“, in Carta Capital, editorial de 24.08.12), conforme definição na Wikipedia em castelhano: “El despotismo ilustrado es un concepto político que surge en la segunda mitad del siglo XVIII, que se enmarca dentro de las monarquías absolutas y que pertenece a los sistemas de gobierno del Antiguo Régimen Europeo, pero incluyendo las ideas filosóficas de la Ilustración, según las cuales, las decisiones del hombre son guiadas por la razón. Los monarcas de esta doctrina (…) adoptaron un discurso paternalista.“.

Por falar na Europa, recordo do assassinato em maio de 1978 do primeiro ministro italiano Aldo Moro, eminente figura da Democracia Cristã que alcançou o histórico pacto de centro-esquerda com o Partido Comunista para libertar a Itália da corrupção política baseado na solidariedade de abrangência nacional. Por esta razão, Aldo Moro foi morto pelos extremistas das brigadas vermelhas a mando da CIA e dos ingleses do MI6 no âmbito da fascista Operação Gladio (cf. farta bibliografia na Wiki Espanhola).

Aliás, o Moro daqui não significa nada em comparação ao brilhante Moro italiano, assassinado por buscar a justiça social e a distribuição das riquezas para toda a Itália, contra a dominação das elites golpistas e corruptas, o 1% dos ricaços (que são iguais no mundo todo, pois é fato que por trás de toda e qualquer fortuna há um ou mais crimes, quaisquer que sejam).

Se você está entre os 99% que luta todos os dias para sobreviver e acha que um golpe de Estado político-judicial resolverá sua vida, prepare-se para o seu maior pesadelo, acordado.

*Márcio De Souza, advogado.


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