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28 de fevereiro de 2013, 10h11

Não há motivo para descredenciar o Brasil e sua história de crescimento

Se meu depoimento valer, assim como minha sugestão, há de se ter um cuidado especial em relação aos profissionais da construção civil. Ministério do Trabalho precisa fazer um investimento na reeducação e formação de profissionais para que aproveitem melhor seu tempo, reorganizem a forma como trabalham, organizar a prestação de serviços pra que os contratos de trabalho nas pequenas empreitadas sejam respeitados e os pequenos contratantes não enlouqueçam.

A história de crescimento do Brasil ainda não acabou

Por: Helga Jung*

Valor Econômico, via Clipping Planejamento

25/02/2013

O Brasil, aquele país efervescente que demonstrou considerável disciplina econômica nos últimos tempos, conseguiu ao menos três milagres ao longo das duas últimas décadas: forte crescimento graças a uma política econômica orientada pela estabilidade (algo que nem os EUA nem a Europa atingiram), um nível de liberdade política pelo qual os povos de outros mercados emergentes ainda anseiam e redução das diferenças econômicas, exatamente o oposto do que se tem observado em virtualmente todos os outros lugares.

Em decorrência disso, o país antevê a possibilidade de se estabelecer como centro chave de crescimento na economia global. No papel, esse é um feito atingido há algum tempo como membro dos Bric, ao lado da Rússia, Índia e China. Mas agora a economia brasileira não está apenas mais fraca que as economias de seus três países pares: está um tanto fraca demais, ponto. Após crescer 7,5 % em 2010, 2,7 % em 2011 e com previsões de cerca de 2% em 2012, alguns analistas começam a soar o alarme. Será que a sexta, a oitava maior economia (depende de quem calcula) ainda pode ser descrita como um motor de crescimento global? Ou o bom momento foi atribuído apenas à explosão das commodities vista nos últimos anos? Em meio à crise bancária, econômica e de endividamento, essa explosão não é permanente, escreve Ruchir Sharma, do Morgan Stanley, concluindo que a economia brasileira está em declínio.

Não compartilho desse pessimismo. Apesar de cerca de metade das exportações do país ser de commodities, apenas 10% do resultado econômico brasileiro é gerado por essas exportações. Mais de 70%, por outro lado, se origina nos fortes setores de serviço e industrial do país. Na verdade, o declínio econômico testemunhado em 2011 se deveu largamente à estagnação da produção industrial. Isso, no entanto, deve-se a problemas estruturais que precisam de atenção urgente: infraestrutura obsoleta, todos os modos de obstáculos burocráticos, assim como altos custos e impostos não trabalhistas. E ainda, o país enfrenta escassez de empregados qualificados, o que leva os salários a subirem consideravelmente. Levando em consideração todos esses fatores, a produção no Brasil se torna mais cara que nos EUA, colocando o crescimento de produtividade abaixo da média global. Apesar do protecionismo também prejudicar o desenvolvimento, a despeito de novos impostos sobre importações, ele é menor do que da vizinha Argentina, e da Rússia, Índia e China.

Há uma imensa demanda não atendida de infraestrutura, consumo educação, habitação e assistência à saúde
Apesar de tudo isso, o país exibe diversos pontos fortes impressionantes: a população de pouco menos de 200 milhões é jovem e cresce. Para cada 100 brasileiros em idade ativa (15-64 anos), há apenas 10 pessoas aposentadas com idade acima de 65 anos. Metade da população pertence agora à classe média. Apenas entre 2003 e 2010, 30 milhões de pessoas atingiram essa situação, sendo que 70 milhões de brasileiros escaparam da pobreza. Durante a última década, os ativos financeiros pessoais registraram crescimento de dois dígitos ano após ano. O Brasil não fez apenas as maiores descobertas de petróleo do mundo em décadas: o “gigante verde” também está garantindo o futuro com medidas para diversificar a economia. O setor financeiro tem se expandido. O foco tradicional no Estado foi suavizado, a favor de uma revigorante cultura empreendedora. Um em cada quatro adultos é profissional autônomo. O desemprego está na taxa invejável de 5,8%. E isso não é tudo: a renda per capita do país é muito mais alta do que as da Índia e China. Em resumo: nenhum outro mercado emergente conseguiu obter tal equilíbrio entre a democracia e a prosperidade amplamente difundida como o Brasil.

O governo tem feito agora tentativas sérias de lidar com os problemas estruturais do país, assentando as bases para um maior crescimento sustentável em longo prazo. Foi elaborado um programa ambicioso para garantir que 100 mil brasileiros estudem no exterior até 2015. Atualmente, apenas 11% da população possui diploma universitário. A carga tributária deve ser amenizada, incluindo tributos sobre a energia. Um programa de larga escala de privatização e concessão planeja colocar em licitação 50 mil quilômetros de estradas e mais 12 mil quilômetros de estradas de ferro. O volume de investimentos: cerca de € 66 bilhões. A seguir, virão os portos e aeroportos. Esses são projetos de longo prazo que acionarão o compromisso empresarial e o ímpeto de crescimento por décadas futuras.

Não há motivo para descredenciar o Brasil e sua história de crescimento. Há uma imensa demanda não atendida de infraestrutura, educação, habitação, consumo e assistência à saúde. O país almeja se estabelecer como um dos líderes da economia global. O mundial de futebol e a Olimpíada fornecerão impulso adicional. Esses são pré-requisitos excelentes para um florescente mercado de seguros. Mas o crescimento sustentável não é uma conclusão precipitada. Há necessidade de melhorias acentuadas na segurança pública. São necessárias reformas com urgência para promover maiores taxas de poupança, mais investimentos e aumento de produtividade. E a diplomacia comercial deveria fazer mais para promover maior abertura do mercado.

De uma perspectiva alemã, os déficits são particularmente importantes. Apesar de a Alemanha ser o quarto parceiro comercial mais importante do Brasil, não há acordos bilaterais sobre padrões mínimos para negociações comerciais. As atividades comerciais e investimentos de empresas alemãs no Brasil se tornaram mais caros. Não há um acordo bilateral válido sobre dupla taxação desde 2006. Todos esses fatos são incompreensíveis e devem ser resolvidos logo. Em especial, a retomada das conversações no tocante ao acordo sobre a dupla taxação já deveria ter ocorrido há muito. Infelizmente, a postura popular de Scarlett O”Hara de “amanhã penso nisso” não ajudará nem o Brasil nem a Alemanha.

*Helga Jung é membro do conselho de administração da Allianz SE, na Alemanha.


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