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03 de setembro de 2010, 00h30

Paulistanos podem conhecer pouco a Dilma, mas todos nós sabemos quem é Serra

Quem tiver o trabalho de fazer pesquisa neste blog encontrará in loco vários textos meus, fotos, ou de outros blogueiros que mostram porque estamos entre os moradores da cidade de São Paulo que não caem no conto do Serra.

Seguem algumas palavras/expressões chaves para pesquisa: lixo, descaso, córrego, spray de pimenta, bombas de ‘efeito moral’, greve na USP, saúde, segurança pública, periferia, pedágio, greve dos professores, greve dos policiais civis, repressão, tropa de choque, violência policiais, mães de maio…

Por que os paulistanos rejeitam Serra

Por: Andre Forastieri, em seu Blog

Dilma Rousseff chegou a 41% das intenções de voto na cidade São Paulo, contra 35% de José Serra. Pesquisa do DataFolha, 26 de agosto.

Assombro geral. Será o milagroso carisma do padim Lula? A onda vermelha? O Bolsa Família? Dilma tirou de Serra o apoio da Fiesp? Tudo tem explicações. Encontrar algumas exigem esforço. Outras estão no nariz. Comece procurando a principal.

Em dezembro de 2009, 61% dos paulistanos desaprovavam o governo do prefeito Gilberto Kassab, do DEM, sendo que 27% consideravam seu desempenho ruim ou péssimo.

Mês seguinte, a cidade foi inundada. Em fevereiro de 2010, a revista Época São Paulo publicou uma reportagem de capa corajosa sobre o tema, baseada em pesquisa do Ibope e em um mergulho nos orçamentos da prefeitura. O dado mais chocante: metade dos paulistanos desejava deixar a cidade.

Mais que tanto os paulistanos viam de defeito em Kassab? A lista é longa. Transporte? Caiu a verba da Secretaria de Transportes 29%, que ao mesmo tempo ficou mais caro. Melhor andar a pé? Não, as calçadas estão podres, e o investimento para reformá-las caiu 40%.

Vamos sair nadando, então, que as enchentes continuam, e o investimento em drenagens e saneamento em 2010 será 45% menor que o de 2009, segundo o orçamento do município.Vamos à segurança? 87% dos paulistanos acham a cidade muito insegura e 52% têm mais medo que sair à noite do que no ano passado.

Vamos enfrentar o crime? Claro que não. A verba prevista no Orçamento para a Secretaria Municipal de Segurança Urbana que inclui Defesa Civil e Guarda Civil Metropolitana, foi reduzida em 15%.Faltam recursos?

É tempo de crise? Não. A economia brasileira cresce rápido. E os impostos em São Paulo também. O IPTU subiu até 30% para casas e até 45% para imóveis comerciais, mas como mudou a base de cálculo, teve casos de aumento de 100% no IPTU.

Mas o problema vai bem além de ter dinheiro no orçamento. Mesmo quando há verba prevista, a administração Kassab não usa. Exemplos sobram. Só um: em 2009, foram previstos R$ 90 milhões para construir hospitais em Parelheiros, Vila Matilde e Brasilândia, três bairros muito carentes. Para 2010, as obras terão metade dos recursos. Dá trabalho construir hospital. É mais fácil fazer propaganda.

Serra se candidatou três vezes a prefeito de São Paulo

Em 2009, o orçamento para publicidade da prefeitura foi de R$ 31 milhões. O previsto no orçamento de 2010 era de R$ 126 milhões, podendo chegar até R$ 200 milhões. Ano de eleição, já viu. Resultado de tanta propaganda: segundo levantamento de julho, 58% dos paulistanos não aprovam o trabalho de seu prefeito, Gilberto Kassab.

Com ou sem anabolizante, a nota que ele ganhou da população em julho, de zero a dez, foi 5,5. A dois meses das eleições!Para que tentar limpar a barra, se a eleição para prefeito é daqui a dois anos e Kassab não concorre a nada desta vez? A questão é que São Paulo é a vitrine número um de José Serra e Kassab, seu herdeiro político na cidade.

Uma figura irrelevante em termos eleitorais, ex-malufista, se elegeu prefeito da maior cidade do país exclusivamente porque Serra o colocou lá.Nós, paulistanos natos ou transplantados, não perdoamos essa. Ainda mais depois de tudo que Serra fez para ser prefeito.

José Serra era deputado federal quando foi candidato a prefeito de São Paulo pela primeira vez em 1988, 22 anos atrás. Ficou atrás de Luiz Erundina, João Leiva e Paulo Maluf. Se reelegeu deputado federal com votação recorde no estado, 340 mil votos. Em 1994, se elegeu senador com 5,4 milhões de votos. O que fez em 1996? Concorreu de novo à prefeitura. Perdeu para Celso Pitta e ficou atrás de Luiza Erundina.

Depois foi ministro do planejamento, da saúde, candidato a presidente em 2002 contra Lula e – adivinha – se candidatou de novo a prefeito. Na sua terceira tentativa, Serra foi eleito prefeito de São Paulo. Foi no segundo turno, com 55% dos votos válidos, 3,3 milhões. Para isso, se dispôs a assinar um documento, prometendo que, caso eleito, não abandonaria o mandato para concorrer em outra eleição.

Tomou posse dia 1º de janeiro de 2005, para um mandato que deveria ser cumprido até 1º de janeiro de 2009. Pois um ano e três meses depois, dia 31 de março de 2006, deixou a prefeitura na mão de Gilberto Kassab, seu vice. Para, claro, se candidatar a governador.

Os paulistanos escolheram um prefeito tucano, que obssessivamente buscava ser prefeito de sua cidade fazia décadas. Levaram no lugar um obscuro malufista no lugar, ex-secretário de Celso Pitta.

Boris para Serra: ” O Senhor recomenda que os eleitores nunca mais votem no Senhor caso abandone o mandato pela metade?”

Nas eleições para governador em 2006, naturalmente era forte o rumor de que Serra queria se eleger Governador só como trampolim para uma nova candidatura à Presidência. Em um debate na Record, Boris Casoy perguntou se ele cumpriria mandato até o final: “o senhor recomenda seus eleitores a não votarem mais no senhor se fizer o oposto”?

Serra disse: compromisso assumido.Serra se elegeu, contra Aloizio Mercadante, com 58% dos votos. Assumiu dia 1º de janeiro de 2007. No meio de 2009 já era claro que seria o candidato a presidente pelo PSDB, largando novamente o mandato antes da hora. Foi o que fez.

Mas antes disso, Serra tomou a decisão que selou seu destino na cidade.Nas eleições de 2008 para prefeito de São Paulo, ele apoiou seu apadrinhado Kassab, do DEM, e não o tucano Geraldo Alckmin. Pegou muito mal. Lealdade não é tudo mas é 100%. Ainda mais que Alckmin é querido de muitos paulistas e paulistanos. Foi vice de Covas, governador etc.

Embora seja do interior, é quase uma caricatura de paulistano feito por um cartunista carioca. É pálido, careca, só fala de trabalho e parece tomar banho de gravata.Em 2008, vinha de enfrentar Lula em 2006, e não deu moleza. Queimou a fita de Serra trair a confiança dos paulistanos na eleição para prefeito. Tostou, repetir o feito na eleição para governador.

Mas no meio disso, ainda teve esta bola nas costas de Alckmin, seu companheiro de partido, para apoiar Kassab.Que se elegeu exclusivamente graças a Serra, numa marola de factóides. Se tivesse feito um mandato brilhante nos anos seguintes, talvez a cidade desse um desconto para Serra.

Mas foi a tragédia acima, e completa com denúncias de desvios, jogatina imobiliária, truculência com miseráveis etc. Tudo isso é público, e um bom repórter investigativo encontraria muito mais argumentos que os que você acabou de ler.

Sou só um cara que sabe ler, que mora nesta cidade faz 27 anos e vê ela piorar ano após ano, e que desistiu de votar faz tempo. Esta é a principal explicação de porque Serra perde para Dilma na cidade de São Paulo. Nós, paulistanos, como o resto dos brasileiros, não conhecemos Dilma. Mas conhecemos Serra.


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