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20 de novembro de 2013, 22h24

Pedro Amaral: GUIA ESQUEMATIZADO SOBRE RACISMO NO BRASIL – CINCO PONTOS


Esta figurinha marrenta aí é o Pedro Amaral, autor do texto abaixo, retirado de sua página do Facebook.

Este guri é muito sabido. Aprendam aí, por favor.

O Pedro também é autor desta denuncia: Pedro Amaral, um jovem negro que se passar pelo Taquaral será tratado como “suspeito

GUIA ESQUEMATIZADO SOBRE RACISMO NO BRASIL – CINCO PONTOS

1 – Miguxos, racismo não é [só] você xingar alguém com expressões depreciativas em relação à negritude [aqui colocada no termo mais amplo possível]. Logo, me chamar pelo nome e nunca ceder à tentação de me inferiorizar é a sua obrigação mínima.

2 – RACISMO, na real, é um sistema ECONÔMICO-SOCIAL-CULTURAL-PSICOLÓGICO [e muito mais] de privilégio de uns em detrimento de outros baseado no fator raça. Tá, é difícil entender dessa forma. Por isso a tecnologia inventou um dispositivo simples e acessível a todos para identificar se você vive num ambiente racista: é o TESTE DO PESCOÇO. Comece a catalogar a presença de gente negra em todos os ambientes. Você perceberá que a presença (ou ausência) segue uma lógica de inversão proporcional: quanto mais dinheiro e qualidade de vida – MENOS NEGROS; quanto menos dinheiro e pior qualidade de vida – MAIS NEGROS.

3 – Colegas brancos, vocês não podem dizer como EU devo me posicionar sobre o racismo.

a) eu posso ser a favor das cotas raciais;
b) também posso namorar quantas loiras eu quiser.
c) posso odiar rap, samba, jazz, blues e amar country.

E ainda ser RACIALMENTE CONSCIENTE. O branco não pode me dizer como devo enfrentar um problema que me atinge exclusivamente. Entender-se como negro consciente NÃO é ganhar um BOX DE DIREITOS E DEVERES:

d) DIREITO: quero ser respeitado – DEVER: mas só posso namorar gente preta.
e) DIREITO: quero que a historiografia na escola aborde a contribuição histórica dos afrodescendentes na construção do país – DEVER: devo levar um tambor nas aulas e me vestir com roupas africanas.

Quando um branco deseja ditar essas regras, no fundo, PSICOLOGICAMENTE, ele faz uma BARGANHA com o negro: “tá, preto, eu te reconheço como gente. Porém, você vai ter que ser GENTE do jeito que eu acho que você deve ser.” Porra, isso está errado, né? Um dos pilares da igualdade substancial é a autonomia, o livre desenvolvimento da personalidade.

4 – Racismo no Brasil é crime perfeito. Frase do prof. KABENGELE MUNANGA (USP-FFLCH). Concordo com ele. Por quê? Não se pode ter um país racista… sem racistas! Daí a necessidade de identificar quem são os racistas. De antemão, explico:

NENHUM NEGRO PODE SER RACISTA.

Isso ocorre porque racismo é sistema, lembra? Com regras definidas rigidamente. Se um negro xinga alguém de branquelo, tal ofensa nada mais é que uma injúria. Feia, maldosa, mas NÃO racista.

a) quando o ofendido de branquelo vai ao consultório médico, ele encontra um doutor branco para examiná-lo [exceto se forem os cubanos – risos];
b) se o ofendido ajuizar uma queixa-crime (art. 140, CP), aposto que o juiz e o promotor serão brancos, bem como os advogados e serventuários da justiça;
c) se o branco ficar tão gravemente ofendido a ponto de levar o caso à imprensa, aposto: a âncora do jornal será branca e os repórteres também.

O que estou tentando explicar é que uma injúria contra um branco não encontra respaldo na vida prática. Na vida crua, SER BRANCO É NORMA. Bem ao contrário de uma ofensa dirigida a um negro. Esta sim encontra respaldo NEGATIVO na vida prática:

d) a população carcerária negra é bem maior que a branca [por causa da seletividade criminal, claro];
e) os subempregos são ocupados por gente negra;
f) 70% dos indigentes no Brasil são negros;
g) a amplíssima maioria dos seres humanos reduzidos a condições análogas de escravo é negra. Etc.

Tá entendendo o reflexo psicológico diverso? O negro ofendido vai ter sua auto-estima, já abalada, ainda mais diluída por conta daquele sistema econômico-social que não lhe proporciona iguais oportunidades de ascensão social. Por tudo isso o negro não pode ser racista: O SISTEMA DE EXCLUSÃO QUE MENCIONO NÃO FOI CRIADO PARA PRIVILEGIÁ-LO; MAS PARA DESTRUÍ-LO. Numa sociedade racista como a brasileira, apenas os protegidos pelo racismo podem ser racistas: os brancos. Repare bem: eu disse PODEM. Cada um faz o seu caminho.

5 – Cotas raciais, discriminação positiva, igualdade material e ação afirmativa: eita tema polêmico! Depois que a gloriosa UERJ instituiu de forma inédita reserva de vagas para negros na universidade, meu amigo, parecia que o racismo tinha começado ali.
Até hoje os brancos reclamam das cotas [ver ADPF 184/STF]. Sinceramente? Chororô gratuito. Neste país sempre houve cotas raciais… para brancos! Não? Eu, negro, passei a ser reconhecido como GENTE apenas em 1888… Antes, o Código Civil dos brancos me tratava como “res”, coisa, suscetível de uso, gozo e disposição à vontade [só isso já é suficiente para terminar a discussão]. Vamos aos exemplos [alguns] das cotas para brancos:

a) as capitanias hereditárias foram cotas para portugueses.
b) a política imigratória de italianos e alemães no século XIX foi um plano estatal de embranquecimento da população, e aos imigrantes o Estado proporcionou acesso a terra [Decreto n. 528/1890: “Art. 1.º – É inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho, que não se acharem sujeitos a ação criminal de seu país, EXCETUADOS os indígenas da Ásia ou da África, que somente mediante autorização do Congresso Nacional poderão ser admitidos de acordo com as condições que forem então estipuladas].
c) a Lei de Terras de 1850 – só pra fazer um paralelo – proibiu as aquisições de propriedades agrárias que não a título oneroso, ou seja, compra e venda. Essa lei foi criada para impedir que os negros, em iminente progresso para a abolição de 1888, viessem a se tornar proprietários de fazendas, o bem mais precioso até então. Com tal lei, o Estado regularizou os posseiros da época, ou seja, os brancos europeus, alguns recém chegados da Europa, tornaram-se os fazendeiros de então.
d) todavia, já no século XX, foi editada a Lei n. 5.465/1968 (LEI DO BOI), que instituiu cotas nas universidades para candidatos agricultores ou filhos destes: “Os cursos de agricultura e veterinária, mantidos pela União, reservarão, anualmente, de preferência, 50% de suas vagas a candidatos agricultores ou filhos destes […].”

Pergunto: levando-se em conta o contexto histórico apresentado sobre monopólio da terra no Brasil, a quem o Governo Ditatorial queria destinar as vagas das universidades? Aos brancos, claro. Mas eles não podiam dizê-lo expressamente. Bastou apenas circunscrever o privilégio aos agricultores e pronto.

É por isso que ao analisar a situação social brasileira não se pode olvidar o passado escravocrata de quase 400 anos. Não se pode começar do zero agora. Querer impor uma igualdade formal a partir de 2013 é um erro grotesco. Nós, negros e brancos, já fomos diferenciados pela história. O sol não nasceu para todos durante longos quatro séculos.

E você acha justo que pessoas oriundas dessas situações absolutamente desiguais devam ser submetidas a processo seletivo paritário em concursos, vestibulares, eleições? Isso equivale a matar clandestinamente. É como o Governo Ditatorial fez: PRIVILEGIAR FINGINDO QUE NÃO PRIVILEGIA. Melhor: é a mesma cena daquela fotografia emblemática da criança africana macérrima à espreita da morte. Do lado dela, esperando a morte chegar, um urubu. O animal fica quietinho, silencioso e espera o coração parar de bater. Quando a criança morre, o urubu a devora. Com o perdão da correlação, mas esquecer o passado brasileiro e não querer mudá-lo drasticamente, para igualar negros e brancos em oportunidades, é ser um urubu à espera da morte da criança faminta. A criança faminta são as gerações perdidas de meninos e meninas negras. O urubu é você.


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