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11 de agosto de 2011, 15h32

Pepe Escobar: Faça o que fizer, se você é dinastia medieval sentada num oceano de petróleo, se safará

Meu minarete é maior que o seu

Pepe Escobar, Asia Times Online, Tradução: Vila Vudu
11/8/2011

Londres está em chamas. Wall Street está em chamas. Os mercados globais estão em chamas. Enquanto Roma arde, a Casa de Saud toca alaúde – sonhos de expandir a tortura e construir minarete monstro combinados com condenar a Síria por reprimir o próprio povo. A ‘comunidade internacional’ mal dá um pio; quando você é dinastia familiar medieval sentada num oceano de petróleo, você se safa praticamente sempre, faça o que fizer.

Doentia, a declaração oficial do rei Abdullah saudita, em que exige fim imediato dos massacres na Síria, já tem lugar garantido nos anais da hipocrisia do século 21. O discurso do rei, sobre o governo de Bashar al-Assad, destaca que “escolha voluntariamente a sabedoria, ou naufragará nas profundas do caos e da miséria”. O rei também exige “reformas rápidas e amplas”, dados os protestos que já custaram a vida de 1.600 pessoas.

Nem Monty Python em seus dias de glória jamais conceberia cena em que a megarepressora Casa de Saud desse lições de democracia a árabes simplórios.

A Casa de Saud garantiu refúgio ao ditador tunisiano deposto Zine el-Abidine Ben Ali (os sauditas estavam furiosos com o governo Obama que abandonara o ditador egípcio Hosni Mubarak); invadiu o Bahrain num chilique neoimperialista, invocando um acerto militar com o imundo Conselho de Cooperação do Golfo, CCG [ing. Gulf Cooperation Council (GCC)] para salvar a dinastia al-Khalifa dos manifestantes pró-democracia; reprimiu preventivamente os protestos pró-democracia na própria Arábia Saudita; convidou duas outras monarquias árabes pobres, sem petróleo, Jordânia e Marrocos, para juntar-se ao milionário Conselho de Cooperação do Golfo; manteve incansável guerra contarrevolucionária para destruir qualquer possibilidade de qualquer Primavera Árabe no Golfo; e está ativamente escolhendo o próximo governo do Iêmen – impondo ali um “plano de transição” concebido pelo CCG, que nada tem a ver com os desejos dos manifestantes iemenitas pró-democracia.

Ao mesmo tempo em que exige reformas na Síria, na própria Arábia Saudita “reforma” significa o rei distribuir dezenas de bilhões de dólares para subornar qualquer possível opositor ou oposição. Mas, sobretudo, a Casa de Saud estremece de ódio à mera possibilidade de alguma democracia na Síria. O que mais desejam – furiosamente – é que os sunitas tomem e monopolizem o poder na Síria, de preferência mediante a Fraternidade Muçulmana, em detrimento dos allawitas ligados a Assad na Síria e aos xiitas no Irã.

Damasco, sob Assad, está intimamente aliada a Teerã. Assim como é estado policial, a Síria é república secular. A Casa de Saud despreza todas as repúblicas árabes seculares – da Síria de Assad à Líbia de Muammar Gaddafi. Não surpreende que a Casa de Saud (como o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos) tenha financiado a Fraternidade Muçulmana, principal braço da oposição na Síria, além de elementos salafitas sem sal.

Conclusão disso tudo, o rei Abdullah – seguido por seus asseclas no CCG, também conhecido como Clube Contrarrevolucionário do Golfo, e pela desdentada Liga Árabe – já posicionou as ricas monarquias do Golfo com vistas a uma síria pós-Assad, controlada por sunitas. Não se pode dizer que Washington lamente muito, agora que está às vésperas de conseguir despachar Assad.

O céu é o limite

Enquanto isso, em Jeddah – sem qualquer preocupação econômica ou ecológica – será erigida uma torre que custará 1,23 bilhão de dólares e medirá mais de 1km de altura, para celebrar o domínio saudita. Vocês não vão acreditar. A empresa construtora é ninguém menos que o Grupo Bin Laden. O falecido Osama estremece de fúria no seu túmulo no Mar da Arábia.

O plano é ideia do príncipe Alwaleed bin Talal, sobrinho do rei Abdullah, 19º homem mais rico e o mais rico empresário árabe do mundo, acionista, dentre muitas outras empresas, da News Corporation de Rupert Murdoch, do Citigroup e da Apple.

A torre, com design inspirado numa planta do deserto, será a mais alta do mundo – superando em 172 metros o Burj Khalifa de 2009, em Dubai. Está aberto o debate; não se sabe se esse minarete saudita monstro reflete a religião de Alá ou a religião do petróleo e dos mercados financeiros.

Hoje, todas as mais altas torres do planeta estão na Ásia e no Golfo. O Burj Khalifa, com 828m de altura; a Torre Cantão em Guangzhou (600m); o Taipei 101 em Taipei (508m), o Shanghai World Financial Center (492m) e o IFC em Hong Kong (484m). Longe vão os dias de fama das Torres Gêmeas Petronas em Kuala Lumpur (410m).

E lá em casa… Tortura!

Mas a mais alta realização da Casa de Saud é o que se preparam para fazer em termos de criminalizar qualquer tipo de oposição no reino. Nova legislação ‘antiterrorismo’ que está para ser aprovada punirá com no mínimo dez anos de cadeia quem manifestar qualquer tipo de dúvida sobre a integridade do rei ou do príncipe coroado.

O Ministério do Interior – comandado pelo sinistro príncipe Nayef – receberá poderes virtualmente ilimitados. A tortura – já praticada – será virtualmente institucionalizada. O prazo máximo permitido para detenção e isolamento – sem contato com advogados – será ampliado para 120 dias ou ad infinitum, dependendo de sentença de corte especial, que avaliará casos que vão de “criar risco para a unidade nacional” a “agredir a reputação do estado”. A pena de degola – hoje aplicada sobretudo a trabalhadores asiáticos – proliferará.

Culpado por tudo isso: o medo paranóico que a Primavera Árabe provocou na Casa de Saud; além do medo de verem surgir um Iraque dominado por xiitas; além do medo que lhes inspira a resistência inabalável da República Islâmica do Irã; além da ideia fixa, em Riad, de que Teerã organiza uma conspiração xiita para esmagar as monarquias reunidas no Conselho de Cooperação do Golfo.

Eis aí o que passa por “reformas” na Arábia Saudita: uma versão árabe do “estão conosco ou estão contra nós”. Os mais cínicos beberão à convergência da Arábia Saudita e do Oeste do Texas tão amado por George W Bush. A Anistia Internacional prevê um futuro de massivas violações de direitos humanos. Imersa num feitiço feito de torturas e minaretes, a Casa de Saud solenemente ignorará quaisquer denúncias.

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