Blog da Maria Frô

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04 de maio de 2011, 12h01

Pepe Scobar: Benvindos à ressurreição da al-Qaeda, como golpe mortal contra a grande revolta árabe de 2011

Compare esta análise corrosiva de Pepe Escobar sobre o marqueteiro anúncio da morte de Osama bin Laden com o discurso de Gates e o texto de Nick Turse sobre o discurso do Secretário de Defesa dos EUA, aqui. Leia, igualmente, o texto de Spengler, aqui.

Obama/Osama agitam a Casbah[1]

Pepe Escobar, Asia Times Online, Tradução: Vila Vudu

4/5/2011
“O sheik dirigia seu cadillac,
foi cruzando a vila.
muezzin estava esperando,
Com a grade do radiador.”

The Clash Rock the Casbah [2]

Não tem importância alguma. Irrelevante. Dará, no máximo um thriller de Hollywood & rock’n roll – Osama/Obama em papel duplo (dirigido por Kathryn “Hurt Locker” Bigelow). Mas o assassinato prefixado, premeditado – & a bala na testa, icônica nos EUA – de Osama bin Laden na 2ª-feira, de fato, é tão irrelevante quanto a irrelevância em que mergulhou aquele próprio poderoso chefão jihadi & turbante.

É possível que o presidente dos EUA Barack Obama tenha turbinado suas chances de ser reeleito em 2012 – as casas de apostas estão pagando 1,75 pró-Obama – só por ter-se afastado meio passo do show de horrores que exibe monstruosidades como Sarah “Mamãe Ursa” Palin e o bilionário com uma raposa no cocuruto e bilionário Donald Trump.

Mas houve “justiça”, como disse Obama? “Justiça” – mesmo na era dos aviões-robôs drones – implica exame da cena do crime, coleta de provas, tribunal, devido processo legal, juiz e sentença. O ex-presidente George “guerra ao terror” W Bush, infinitamente bronco, acertou mais: cheira a “vingança dos EUA”.

Fundamentalmente, não é nada disso

À primeira vista, Bin Laden não foi baixa de guerra. Foi baixa num processo irresistível pró-democracia e pela igualdade social – a grande revolta árabe de 2011. Bin Laden, que propôs um califato restaurado, descartou a democracia parlamentar. A história tornou-o irrelevante, como irrelevante tornara-se também toda a al-Qaeda, já antes da revolta árabe – em termos políticos, culturais, geográficos e sociais.

Apesar do excepcionalismo norte-americano e da histeria ocidental – A multidão diz que é legal / esse negócio de cantar [3] – , a al-Qaeda e suas listas de afiliados, novos ramos, avatares e copiadores estão condenados a viver como fantasmas na periferia do mundo muçulmano, com sua nova geração de líderes com explosivos metidos no salto do sapato ou nas cuecas.

O mais fantasmagórico é que a narrativa da al-Qaeda tenha sido repentinamente ressuscitada como espectro a assombrar o inconsciente coletivo do Ocidente. Com a perigosa metáfora poética de haver agora um cadáver de Bin Laden que agita uma Casbah aquática no fundo do Mar da Arábia. A Casa Branca/Pentágono/CIA não queriam um “local de culto”. O local de culto é hoje todas as águas patrulhadas pelos EUA e nada longe do litoral onde a Casa de Saud comanda a mais cruel contrarrevolução contra os que anseiam por vida melhor.

É como se o não-martírio de bin Laden, atentamente coreografado, bom demais para ser verdade, ali estivesse, de fato, apenas para abrir as portas de um inferno novinho em folha –  com Washington e o Ocidente fazendo autocumprir-se a sua própria profecia: a al-Qaeda reagirá “com vingança” (como os EUA, sem tirar nem por!), correrá muito sangue, muito mais sangue, e o mundo árabe reverterá ao barbarismo mais bárbaro, em vez de meter-se a clamar por democracia (A multidão pegou uma brisa / daquela Casbah maluca [4]).

Benvindos à ressurreição da al-Qaeda, como golpe mortal contra a grande revolta árabe de 2011.

O Profeta proibiu [4] a baboseira & CIA

Há muitas e muitas razões pelas quais não aceitar o que talvez venha a revelar-se como uma das mais impressionantemente bem-sucedidas operações de manipulação ‘psicológica’ das massas desse jovem século 21.

Uma equipe de 14 SEALs, elite da elite da marinha dos EUA, e quatro helicópteros, sob a batuta do diretor Leon Panetta da CIA podem, sim, ter dado cabo de Bin Laden. Mas a narrativa do Pentágono, de tiro na testa, bala de ouro, é mais falsa-fria que “o rei mandou esquecer / essa transa pesada”. Bin Laden sempre disse que morreria como shaheed – mártir, lutando por sua causa, que não se renderia. Um dos seus guarda-costas com certeza trouxe-lhe a bala, no momento em que ele ordenou, quando Bin Laden concluiu que por ordem do Profeta caberia a ele impedir aquela baboseira & CIA estadunidense.

O fogo cruzado de todos os jornais em Washington desde as primeiras horas só repetia falas dos “funcionários dos EUA” de sempre, que repetiam que o serviço secreto do Paquistão [ing. Pakistani Inter-Services Intelligence (ISI)] não sabia de nada – no sentido de terem sido mantidos à margem, para não entregarem todos os segredos a Bin Laden –, enquanto o pessoal do Pentágono só repetia que Bin Laden fora morto uma semana antes, em ataque de avião-robô drone (os pilotos dos jatos sintonizaram-se / com o rádio da cabine [5]). Outros repetiam que as Forças Especiais receberam pistas diretamente do serviço secreto do Paquistão. Até que Washington usou fontes próprias para confirmar “que foram autorizados a atacar, diretamente pelo governo do Paquistão” e então, ok, agitaram a Casbah.

A rede GEO TV paquistanesa exibiu mix totalmente diferente. O pessoal do ISI espalhou que a operação foi totalmente operação paquistanesa – conduzida depois que um helicóptero foi derrubado (alguém, do Pentágono, também falou sobre isso) e uma equipe que lá estava para investigações acabou envolvida em troca de tiros. Soldados paquistaneses ajudaram a cercar o local. Prenderam algumas mulheres e crianças e homens armados, todos árabes, que então confessaram que Bin Laden estava no local. Em seguida, houve nova troca de tiros, durante a qual Bin Laden foi morto. Então entraram em cena dois helicópteros dos EUA que vieram para recolher o corpo de Bin Laden. Segundo essa versão, o incêndio que se viu na casa foi causado pelo helicóptero derrubado.

O relato da “troca de tiros”, pelos EUA, também é confuso. Pelo que disse Obama, não teria havido feridos ou mortos entre os estadunidenses. Não faz sentido. O local com certeza era fortemente protegido… ou, de fato, não passava de local onde os EUA mantinham Bin Laden preso.

A CIA só faz repetir que foi operação para matar (“target killing”, assassinato programado). Tampouco faz sentido. Capturar Bin Laden vivo – como Saddam Hussein –, alcançaria os píncaros dos minaretes da humilhação e seria golpe que renderia lucros de Relações Públicas muito mais sumarentos, para a Casa Branca. Só a hipótese de bin Laden já estar morto explica a rapidez com que Washington fez sumir o cadáver no fundo do Mar da Arábia – para desespero de vários especialistas em Sharia.

A casa foi completamente queimada, reduzida a cinzas. Convenientemente – como aconteceu no 11/9 –, não há nem cena do crime nem cadáver. Esse roteiro não seria aprovado nem em reunião de roteiristas do seriado CSI, Crime Scene Investigation. O mundo aguarda fotos autênticas, não manipuladas, do cadáver, e os resultados do teste de DNA.

E, antes do que se espera – como no caso de Saddam – algum informante revelará que as coisas não se passaram como Hollywood preferiria: que foi empreitada individual de empreendedor cheio de iniciativa, à caça do prêmio de $50 milhões. Quanto à dica milionária, de onde estaria o alvo, só pode ter saído do serviço secreto do Paquistão. Nesse caso, o comandante do exército, general General Ashfaq Kiani – queridinho do Pentágono – é autor do imprimatur decisivo. Quanto recebeu? Dessas perguntas e respostas fabricam-se as lendas….

Degenerar os fiéis [6]

Bin Laden foi produto quintessencial da política exterior dos EUA para a Guerra Fria, da aliança nada-santa entre Washington, Paquistão e Arábia Saudita. Bin Laden jamais foi acusado pelo FBI de participação no 11/9. Nunca houve nenhuma prova que o aproximasse daqueles feitos. Até o hiper-super-neoconservador Dick Cheney, ex-vice-presidente, com o tempo, passou a admitir em on em off que Bin Laden nada teve a ver com o 11/9.

E o que dizer sobre a “inteligência” em campo?! Washington demorou nada menos que 3.519 dias, desde o 11/9, para encontrar Bin Laden “vivo ou morto”, como John Wayne Bush prometeu que faria, e a apenas 240 quilômetros a leste das montanhas de Tora Bora, seu último endereço confirmado em dezembro de 2001. Bin Laden teria de ser realmente entidade do outro mundo para, sofrendo de doença renal grave, diabético, com problemas de hipotensão e dependente de diálises regulares, conseguir sobreviver numa caverna infecta, por quase dez anos.

Abbottabad, a duas horas de distância, de carro, ao norte de Islamabad, na província Khyber Pakhtunkhwa, está localizada num vale entre montanhas, muito próxima da Azad (“Livre”) Caxemira. É uma espécie de mini-Colorado Springs, com um cinema (o Taj) e, o que é muito mais importante, com o equivalente paquistanês de West Point. Ali não há cavernas e, crucialmente importante, ali não há tribos iradas – entre as quais os aviões-robôs da CIA espalham número crescente de “danos colaterais” sob o pretexto de combater “a al-Qaeda”.

Bin Laden já poderia ter sido capturado em agosto de 2001. Naquele momento, recém retornado do Afeganistão, ouvi em Peshawar que um comando dos EUA estava pronto para invadir o Afeganistão e sequestrar Bin Laden de seu palacete-bunker em Kandahar. Bush muito pediu e falou e prometeu para conseguir entrar, mas o então presidente Pervez Musharraf vetou a operação, dizendo que não queria ser responsável por uma guerra civil no Paquistão.

Então, depois do 11/9, Washington praticamente ordenou que o Talibã entregassem Bin Laden. Como o embaixador dos Talibã em Islamabad contou-nos naquela época, Mullah Omar exigiu provas da culpa de Bin Laden. Bush recusou – afinal de contas, como o FBI sabia, não havia prova alguma. Vídeos posteriores, em que Bin Laden aparecia ‘aceitando’ a responsabilidade pelo 11/9, logo foram desacreditados como falsificações.

Os Talibã chegaram a concordar com entregar Bin Laden à Arábia Saudita – um dos três patrocinadores dos Talibã, além de Paquistão e dos Emirados Árabes Unidos. O rei Abdullah não quis. Só Khalid Sheikh Muhammad – preso pela inteligência paquistanesa, e que passará o resto da vida em Guantánamo – assumiu integral responsabilidade pelo 11/9; e jamais acusou Bin Laden de coisa alguma.

Aquele som pirado da Casbah [7]

Quanto mais se examina, mais o assassinato premeditado de Bin Laden mostra traços daquele brinquedo infantil the jack-in-the-box, palhaço de mola que salta, quando se abre a caixa.

As grandes potências que jogam o jogo – EUA e Arábia Saudita – decidiram que, finalmente, não precisam mais do polichinelo de mola que reaparecesse quando fosse preciso, para justificar qualquer coisa, de falta de democracia a ataques mortais contra civis desarmados e, até, ataques de aviões-robôs pilotados à distância, drones, que dessem errado. Mas a pergunta é: por que agora?

Comecemos pelo vácuo de poder no Paquistão. Há grave divisão interna no ISI, entre o ISI e parte do exército, e entre o exército e o governo. É receita garantida de caos. A evidência de que o Pentágono tenha posto em prática a Operação Pôr-de-Sol de Osama marca mudança crucial do palco principal da “guerra ao terror”, do Afeganistão para o Paquistão. A “guerra ao terror” prossegue, revigorada, p’rá por p’rá quebrar todas as Casbahs. Islamabad confusa e atônica não parece entender como lucrar com essa mudança, sobretudo agora que já queimou o precioso coringa Bin Laden.

E há também a Casa de Saud. Bin Laden saiu do jogo no exato instante em que a Arábia Saudita obriga a narrativa da grande revolta árabe de 2011 a curvar-se, para lucrar com uma narrativa contrarrevolucionária de uma guerra sectária sunita/xiitas. É, de fato, uma Guerra Fria renovada entre o “bem” Arábia Saudita e o “mal” Irã. Desde o início, Washington jogou ao lado da Casa de Saud.

Essa tática diversionista da Casa de Saud é tentativa empenhada de tirar o foco da evidência de que a grande revolta árabe de 2011 ameaça, precisamente, os regimes medievais como o do Bahrain e o da Casa de Saud. A Casa de Saud, corrupta, lacaia do ocidente, foi o fator deflagrador da fúria e do ultraje que modelou a ideologia de Bin Laden.

Mesmo assim, na atual histeria Bin Laden, a Casa de Saud pode facilmente cantar “O rei convocou seu jatos de combate/ disse ‘melhor merecerem o salário/ bombardeiem pela trilha dos minaretes/ tudo, até a Casbah’” [8] e lançar sua repressão linha duríssima nas províncias do leste e no Bahrain e subornar prodigamente os líderes tribais no Iêmen, para forma um próximo governo pró-sauditas.

Washington, por sua vez, também usou a tática diversionista para distrair/confundir a opinião pública árabe, no momento em que uma intervenção anglo-franco-norte-americana, marketada como “humanitária”, ataca outro país muçulmano rico em petróleo, a Líbia. De quebra, Washington dá uma polida na velha tática de isolar/conter o Irã.

Quanto aos patéticos “rebeldes” líbios infestados de agentes da CIA e conectados à al-Qaeda, que seqüestraram os legítimos protestos na Cirenaica – e que festejaram quando a OTAN bombardeou o próprio país deles –, eles agora querem que os EUA derrubem Muammar Gaddafi (a OTAN já trabalha nisso). O meio para fazer tudo isso andar é agitar a Casbah.

Os milionários pios da Arábia Saudita sempre foram fonte de dinheiro infindável para a al-Qaeda. Não surpreende que já haja uma horda de novos Bin Ladens prontos a agitar a Casbah na Arábia Saudita – e o farão, esperemos que só dentro do reino.

O sucesso da ideologia da Al-Qaeda depende de dois fatores: os governos em terras muçulmanas  têm de ser não islâmicos e opressivos; e têm de ser pró-EUA (certos os critérios de diagnóstico, nos dois casos). Quando isso aconteceu, a al-Qaeda deu-se bem. Mas a al-Qaeda errou quanto ao método para reverter a situação. Por isso a al-Qaeda acabou por também ser derrotada pela grande revolta árabe de 2011.

O general David Petraeus, que foi El Supremo do Pentágono no Afeganistão, vai virar agora El Supremo da CIA – com a cabeça de Bin Laden como troféu e as mãos livres para agitar várias múltiplas Casbahs via assassinatos premeditados e fartura de SEALs mascarados. O único motivo pelo qual os EUA invadiram o Afeganistão em 2001 foi pegar Bin Laden “vivo ou morto”. Agora está bem morto, no fundo do Mar da Arábia.

Mas os EUA não sairão do Afeganistão. A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton já monopoliza a narrativa e já começou a dizer que a guerra contra a al-Qaeda, como a “guerra ao terror”, continua eternamente. A política oficial dos EUA, como sempre sonhou Bin Laden, o melhor recrutador jihadista que jamais houve, prossegue implacável e infindável – com seu farto suprimento de soldados, mercenários, equipes assassinas da CIA, aviões robôs assassinos, empresários-fornecedores e “diplomatas” que custa trilhões de dólares.

Só há talvez um modo realista de pôr fim a essa loucura, agora que “o petróleo  no deserto/ de tão agitado, já explode pelo gargalo” [9]: despachar aviões-robôs ou assassinos premeditantes na direção da Casa de Saud. Pena, só, que, diferentes de bin Laden, que virou bandido, os sheikhs sempre terão cobertura, posando como “os nossos” fanáticos filhos da puta.

NOTAS

[1] A Casbah (fortaleza, citadela) refere-se tradicionalmente ao bairro murado de Argel, Argélia [NT].

[2] “Rock the Casbah” [Agite a Casbah] é punk rock da banda britânica The Clash (autores Topper Headon, Mick Jones, Joe Strummer), lançado em 1982, no álbum “Combat Rock”. Pode ser vista-ouvida aqui; letra original aqui Os versos traduzidos servem, só, para facilitar a leitura [NTs].

[3] [4] [5] [6] [7] [8] “Rock the Casbah”, The Clash.

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