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21 de dezembro de 2010, 01h39

Reconhecimento à Palestina ou somente não ficar mal com ninguém?

Por: Vitctor Farinelli

Desde a histórica decisão do Lula de reconhecer o Estado Palestino conforme os tratados de 1967 (ou seja, como corresponde), a liderança política do Brasil na região voltou a ficar latente, e não somente nos que já nos seguiram, como Argentina, Uruguay e mais recentemente a Bolívia, e nos que dizem estar caminhando rumo ao reconhecimento (Paraguay, Peru e Equador) mas também nos que titubeiam em decidi-lo, mas ainda não se decidiram.

Como prova disso, trago um interessante artigo de um importante ‘bloguero sucio’ chileno, o arquiteto e sociólogo Daniel Jadue, que comenta o debate que se abriu dentro da base parlamentar neopinochetista que sustenta o governo de Sebastián Piñera, sobre se o Chile, país onde se encontra a maior colônia palestina da América Latina, deve seguir seus vizinhos ou não.

Cabe destacar que o texto de Jadue está inserido num contexto onde a polêmica surgiu com o senador Pablo Longueira – líder da juventude pinochetista nos últimos anos da ditadura chilena, e, hoje, um neocom que defende, ademais, que o Chile deve negociar uma saída ao mar com a Bolívia -, quem propôs que o Chile deveria fazer o mesmo gesto o antes possível, e só foi seguido por colegas de menor expressão, enquanto a maioria dos principais personagens da aliança governistas tegiversam com a possibilidade de reconhecer o Estado Palestino, mas não segundo as fronteiras de 1967, e alguns poucos confessam que o problema de tal reconhecimento está em contrariar os Estados Unidos, e obstruir o lobby dos direitistas chilenos, que pretende, a medio ou longo prazo, pelo menos dividir com a Colômbia o posto de queridinhos do Departamento de Estado.

Destaque prá pérola pinçada por Jadue: uma declaração reconfortante, na parte final do texto, do presidente da Federação de Entidades Culturais Judias da Argentina, uma declaração de um judeu que de verdade quer a paz – lembrando que a Argentina reúne a maior colônia judia da América Latina.

Reconhecimento à Palestina ou somente não ficar mal com ninguém?

por: Daniel Jadue,  em seu blog

18/12/2010

tradução: Victor Farinelli

Nos últimos dias, vimos ressurgir com força em nosso país a discussão sobre a posición chilena a respeito da questão palestina. Nesta oportunidade, a discussão gira em torno da posibilidade de que nosso país reconheça o Estado da Palestina, dentro das fronteiras anteriores à guerra de 1967, incorporando Jerusalém como capital do mesmo, como o fizeram nas últimas semanas países irmãos como Brasil e Argentina, enquanto outros preparam seus argumentos para se somarem à iniciativa.

Evidentemente, em nosso país, a simples posibilidade de que haja um reconhecimento desta natureza fez com que os inimigos da paz saiam rapidamente a implementar uma campanha para impedir que o governo chileno avance nessa direção, argumentando que as decisões unilaterais não contribuem para a solução do conflito, e que a paz somente pode chegar mediante negociações entre as partes.

Os que lideram essa campanha, entre eles Gabriel Zaliasnick, presidente dos sionistas no Chile, esquecem que a Autoridade Nacional Palestina tem se comprometido com as negociações para alcançar a paz pelas últimas duas décadas, e hoje se encontra presa num quadro que não só impede o fim da ocupação, senão que termina consolidando-a.

No outro extremo, o governo israelense segue comodamente com sua política de colonização dos territórios ocupados, e apesar de que, nos compromissos iniciais do processo de paz, estavam o congelamento dos assentamentos ilegais e a eliminação dos obstáculos à liberdade de movimento dos palestinos na Palestina, hoje existem três vezes mais assentamentos ilegais que no início do processo e quase quatro vezes mais postos de controle, os que tornam insuortável a vida dos palestinos, convertindo-os em estrangeiros em sua própria terra – e ainda há que se considerar a construção do muro do apartheid que separou a milhares de famílias, e arrasou e tornou imprestáveis as melhores terras agrícolas dentro dos territórios ocupados.

Como se fosse pouco, a política de colonização tem sido complementada nestes 18 anos por supostas negociações, perfeitamente conduzidas pelo ocupante, pela a continuidade da política de extermínio físico e político do povo palestino, mediante massacres como os de Gaza e Nablus, chegando inclusive a assassinar, também impunemente, àqueles que, não sendo palestinos, têm desempenhado em ações legítimas de solidariedade internacional, como foi o caso da Frota da Liberdade – no último mês de maio.

O que pretendem, então, aqueles que apelam a não reconhecer a Palestina nas fronteiras anteriores à Guerra de 1967, e com Jerusalém como capital?

Buscam somente dar mais tempo a Israel para continuar com a destruição dos bairros árabes em Jerusalém, até apagar da memória coletiva todo vestígio da milenar presença palestina.

Buscam somente dar tempo à ocupação de seguir avançando sobre os territorios ocupados, continuando com o genocídio impunemente, enquanto as mal fadadas negociações, eternamente estancadas devido à nula vontade de Israel e à cumplicidade da comunidade internacional, não alcançam nenhum resultado positivo, e ainda geram o quadro quase perfeito para que Israel continue se fazendo de cego e surdo perante os tratados internacionais e as resoluções das Nações Unidas, enquanto demonstra um absoluto desprezo pelos direitos humanos e pelos direitos coletivos dos palestinos, que permanecem à espera de “destravar as negociações”.

Neste contexto, reconhecer o Estado da Palestina sem mencionar as fronteiras anteriores a 1967 e a Jerusalém Oriental como capital da Palestina, seria somente entregar um cheque em branco a Israel para continuar sua política, e entregar aos palestinos e a seus descendentes de nacionalidade chilena o sinal de que ao nosso governo só interessa a imagem mas não a paz e que lhe dá no mesmo se o estado palestino independente e soberano, que sem dúvida nascerá, se estabelece em 22%, em 18%, em 10% ou em 5% da Palestina histórica, e portanto, que sente um desprezo absoluto pelo direito internacional e pelo destino de um povo que sofre e resiste a uma ocupação ilegal e cruel, que já se extende por longos 43 anos.

Neste mesmo sentido, queria destacar a declaração feita por Daniel Silber, presidente da Federação de Entidades Culturais Judias da Argentina, quem, frente ao reconhecimento dado pela República Argentina ao Estado da Palestina, segundo as fronteras anteriores à Guerra de 1967, expressou o seguinte:

“Nós saudamos o reconhecimento do Estado Palestino que fez a Argentina. Desde a mesma fundação do Estado de Israel, vínhamos reivindicando a existência de dois estados (o judeu e o palestino) livres, democráticos, independentes e soberanos. A atitude argentina nos parece um passinho mais no concerto internacional para que se alcance o pleno reconhecimento do Estado Palestino”.

Esta é a atitude dos judeus, cristãos e muçulmanos que verdadeiramente desejam a paz na região, e esperamos que este, e não outro, seja o espírito que anime ao Governo do Chile neste minuto histórico, quando uma parte da comunidade internacional, e especialmente nossos irmãos latinoamericanos, percebeu que chegou o momento de por em igualdade de condições às partes em conflito, para que a negociação possa chegar a felizes términos, já que se seguimos fazendo as coisas da mesma maneira que nos últimos 18 anos, certamente continuaremos obtendo os mesmos nefastos resultados.

De não ser assim, ninguém poderá julgar se ao interior do povo palestino começam a se fortalecer as posições daqueles que planteiam que o povo palestino deve buscar sua liberdade através de qualquer via que se encontre disponível.


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