Ricardo Semler: 'Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão –cem vezes mais do que o caso Petrobras– pelos empresários?'

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Publiquei uma matéria sobre o lucro da Petrobras no trimestre e sobre o prêmio ganho pela Petrobras no maior prêmio dado às petroleiras Petrobras recebe principal prêmio da indústria de óleo e gás do mundo. Não me consta que empresas falidas dão lucro e ganham Oscar na categoria de suas atividades.

Diante de tais notícias provoquei os leitores sobre o sentimento que eles tinham diante da abordagem tendenciosa e partidarizada da mídia velha que sistematicamente escondeu a corrupção na Petrobras durante a era FHC, no melhor estilo Podemos tirar se achar melhor e bateu mais uma vez por um ano na tecla 'o  PT inventou a corrupção'.

podemostirarseacharmelhor  

Busquei argumentar com os leitores de Veja (eu sempre tenho esperança na raça humana) se eles não achavam estranho o episódio #PodemosTirarSeAcharMelhor?

Se eles nunca ouviam os próprios trabalhadores da Petrobras: Michelle Daher: jornalista de O Globo faz ficção sobre a Petrobras e também:  Com a palavra, os petroleiros: DEFENDER A PETROBRÁS É DEFENDER O BRASIL?

Se eles não percebiam que ao longo de quase um ano de modo ininterrupto a campanha da Globo em sintonia com a Chevron e o tucano Zé Serra pra mudança de partilha do pré-sal não poupou sequer novela juvenil: E a guerra da Globo contra a Petrobras continua: não escapa nem Malhação?

Se não conseguiam ver o trabalho incansável de manipulação da Globo contra a Petrobras, em defesa dos tucanos e em favor do capital internacional, enfim um  trabalho  para desinformar e manipular a notícia; se não incomodava a eles a  guerra da Globo contra o nosso maior patrimônio ao atribuir a Dilma, inclusive, o afundamento da maior plataforma de petróleo do mundo, a P36, afundada em 2001 no governo FHC?

Se nenhum deles souberam do e-mail da Globo onde era proibitivo mencionar FHC e a corrupção da Petrobras?

Será que não souberam da notícia que a Globo tirou do ar matérias onde seus próprios entrevistados contradisseram sua campanha sórdida contra a Petrobras?

Será que não os incomoda nenhum um pouco o fato de a Globo, Veja e afins tentaram por todas as vias, mais uma vez, sonegar informações básicas de que os governos petistas empreenderam uma série de políticas para o combate à corrupção, incluindo na Petrobras?

Será que eles não leem nem empresários tucanos que tem honestidade intelectual, que se posicionam e mostram que pela primeira vez no Brasil temos gente rica assustada com o combate a corrupção e não é à toa que esses corruptores querem de todos os modos desestabilizar o governo Dilma que vem incansavelmente combatendo a corrupção no país?

Portanto, meus caros leitores de Veja, se vocês não se dão ao trabalho de se informar, continuarão a fazer o papel de inocentes úteis para todos que querem entregar a Petrobras ao capital estrangeiro, roubando os recursos dos royalties pra educação e saúde. Se junte a quem de fato luta pela soberania nacional, aqueles que já descobriram as estratégias da campanha sórdida contra a Petrobras.

Para vocês, mais uma vez repito o didático texto de  novembro de 2014 de Ricardo Semler, empresário tucano. Quem sabe a capacidade de raciocinar e fazer uso das funções cognitivas, capacidade de todo o ser humano, sem acidentes cerebrais e deficiências intelectuais possui possa ser mobilizada? Ou será que ver a Globo e ler a Veja causa danos irreversíveis?

Ricardo Semler: Nunca se roubou tão pouco Por: Ricardo Semler*, Folha 21/11/2014 02h00

Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos "cochons des dix pour cent", os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão –cem vezes mais do que o caso Petrobras– pelos empresários?

Virou moda fugir disso tudo para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?

Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido.

Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.

Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.

Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.

A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.

O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.

É lógico que as defesas desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.

A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento.

Boa parte sempre foi gasta com os partidos que se alugam por dinheiro vivo, e votos que são comprados no Congresso há décadas. E são os grandes partidos que os brasileiros reconduzem desde sempre.

Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor?

Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido.

O lodo desse veneno pode ser diluído, sim, com muita determinação e serenidade, e sem arroubos de vergonha ou repugnância cínicas. Não sejamos o volume morto, não permitamos que o barro triunfe novamente. Ninguém precisa ser alertado, cada um de nós sabe o que precisa fazer em vez de resmungar.

*RICARDO SEMLER, 55, empresário, é sócio da Semco Partners. Foi professor visitante da Harvard Law School e professor de MBA no MIT - Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA)