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30 de maio de 2016, 12h43

Sharyn Potter: Devemos ensinar respeito às mulheres já na infância, diz especialista

Devemos ensinar respeito às mulheres já na infância, diz especialista

Raul Juste Lore, Folha

30/05/2016
Para a professora Sharyn Potter, da Universidade de New Hampshire, nos EUA, é muito tarde se deixarmos para ensinarmos os homens sobre o respeito às mulheres quando eles já são adolescentes. “Você educa quando eles têm 4, 5, 6 anos. Ensina que meninos e meninas são iguais, que ambos precisam de respeito”, afirma.

Ela foi uma das especialistas em prevenção e combate à violência sexual convocadas para uma força-tarefa organizada pela Casa Branca para propor novas políticas públicas e campanhas para evitar o alto número de estupros nas universidades e nas Forças Armadas americanas.

Há 15 anos trabalhando com o tema, ela dirige o Centro de Pesquisas em Inovação de Prevenções da universidade, além de ter criado a campanha “Know your power” [conheça sua força, em tradução livre], que tenta educar a sociedade como um todo -os “espectadores” da violência, como ela chama.

Potter conversou com a Folha por telefone de Durham, onde vive, sobre educação sexual, o papel do álcool e sobre a vergonha de se denunciar esses crimes.

Folha – Seu trabalho foca a responsabilidade dos “espectadores”, da sociedade como um todo, que testemunha assédios e violência sexual. Como educar e de que maneira devemos intervir?

Sharyn Potter – Li e fiquei horrorizada com o que aconteceu no Rio de Janeiro. Se havia 30 homens no momento que a garota foi estuprada, por que não houve um só que ligasse as luzes, parasse a música, tomasse uma atitude drástica que interrompesse o que estava acontecendo?
Temos que educar esses espectadores de que eles não estão “estragando a festa” ou “cortando o barato dos amigos”, mas sim evitando um crime.
A sociedade precisa celebrar quem evita um estupro. A comunidade tem que saber o seu papel para reduzir o número de vítimas e agressores.

Abusos ainda são muito tolerados?

Não assumimos o tamanho dessa violência porque a maior parte dos crimes não é denunciada. Um estudo nacional apontou que apenas 2% das vítimas de abuso nas universidades denunciaram à polícia e 4% às autoridades universitárias. A maioria das vítimas tem vergonha de contar a qualquer outra pessoa. Há um sentimento de culpa. São indícios de que há normas sociais que não as apoiam.
Temos que ensinar a sociedade a reagir ao ouvir uma confissão dolorosa. Em vez de falar, “nossa, mas você deu mole, você bebeu muito”, você precisa dizer “eu acredito em você, vamos à polícia”. ]

Como falar dos perigos do álcool em excesso sem acabar culpando a vítima?

O álcool é sistematicamente usado pelos estupradores. É uma arma preferida. Temos diversas pesquisas em que as vítimas contam como aquele “amigo” ou “conhecido” ficou servindo drinques sem parar, com intenções perversas. A importância do espectador que está vendo esse assédio é puxar o braço da amiga e falar, “olha lá, ele já te serviu quatro drinques em uma hora, é meio suspeito, não é hora de parar?”, e do amigo dele falar, “que é isso, cara, você está tentando embebedá-la? Isso é errado. O que você está fazendo?”

A sra. já chamou de “epidemia social” a quantidade de estupros nos campi das universidades americanas, mas que ainda se debate a culpa do agressor.

Uma em cada cinco universitárias já sofreu estupros ou tentativas de abuso sexual, mas ainda se discute se agressor e vítima não estariam ambos bêbados, se na hora de dançar, a vítima não “deu a entender” que queria dar mais intimidade ao agressor. Isso deixa milhões de mulheres e também muitos homens vulneráveis. Professores, colegas, parentes e amigos muitas vezes poderiam frear um possível abuso sexual, mas se omitem de alguma forma.

O que precisaria mudar na educação sexual de adolescentes e jovens, no momento em que começam a paquerar e “conquistar” garotas?

É muito tarde se deixarmos para educarmos os homens sobre o respeito às mulheres quando eles já são adolescentes ou jovens. Tarde demais. Você educa quando eles têm 4, 5, 6 anos. Ensina que meninos e meninas são iguais, que ambos precisam de respeito. Que em sociedade todos devemos nos respeitar e ajudar.
Muitas escolas americanas ensinam as crianças desde pequenas a ajudar e salvar um coleguinha que tem alergia a amendoim. Aprendemos desde pequenos a chamar uma professora, um adulto, diante de uma reação alérgica. Por que não ensinar que, se uma menina está sendo importunada por um garoto, nós precisamos agir?

A sra. já comparou a intervenção diante da suspeita de assédio sexual à ação de amigos que evitam um amigo alcoolizado de dirigir. Como as campanhas se parecem?

Nos anos 80, os Estados Unidos fizeram várias campanhas para quem visse um amigo indo dirigir depois de ter bebido, que era correto tirar as chaves do carro da mão dele e se oferecer a dirigir. Virou aceitável socialmente intervir nessas situações e ser visto como um bom amigo. O número de mortes por condução alcoolizada caiu muito. Foi um sucesso no emprego do espectador ativo.
Temos que chegar ao momento que brecar um universitário que está arrastando uma colega para um quarto afastado em uma festa seja tão celebrado como tirar as chaves de um motorista alcoolizado.

Como é o treinamento que vocês dão a estudantes universitários e secundaristas para eles se tornarem “espectadores ativos”?

Gosto de apresentar o problema em sala de aula e que eles comecem a pensar e oferecer propostas de como reagir. Fazemos jogos, há rap, músicas, eles vêm com ideias maravilhosas e nada caretas em como lidar com o assunto. Uma estudante me contou como ela teve a ideia de criar uma fileira para dançar conga, com coreografia e tudo, apenas para poder separar uma menina de um possível agressor.

É mais difícil combater essa cultura do estupro em ambientes hipermasculinos e competitivos, onde ter o máximo de parceiras é visto como vitória?

Começamos nossas campanhas nas universidades, mas já estamos atuando nas Forças Armadas americanas, em colégios secundários, em times esportivos. Tantos lugares onde as mulheres ainda são vistas como um troféu. É uma luta dura, especialmente em uma sociedade que enfatiza, muitas vezes, que a mulher só precisa ser bonita. Quanto mais linda, melhor.
O importante é mostrar que, assim como as mortes nas estradas, o abuso sexual atinge a sociedade por inteiro. As pesquisas indicam que vítimas de estupro têm problemas físicos e mentais anos depois do abuso, têm mais dificuldades de estabelecer relações amorosas saudáveis, dificuldades no emprego, perdem boa parte do seu potencial. Ainda têm uma taxa muito maior de suicídios do que os demais.

O presidente Barack Obama convocou seu vice-presidente, Joe Biden, vários ministros e celebridades para divulgar essa campanha contra abuso. Esse marketing é eficiente? O que ainda falta?

Obama é o primeiro presidente a falar desse assunto publicamente, reconhecer a gravidade e estimular novas políticas públicas. Quando uma voz poderosa fala, mais gente ouve. Foi decisão do governo federal nos chamar para atuar no Pentágono, era tabu falar de assédio nas Forças Armadas. Graças à pressão de sobreviventes, desde 2011, o Departamento de Educação determinou que escolas e universidades sejam pró-ativas em criar políticas para coibir a violência sexual. Mas ainda é um passo muito pequeno para o tamanho do problema. Na direção certa, mas pequeno. Precisamos de anos e anos de trabalho em toda a sociedade, não só do governo, e de mudanças em normas culturais. Eu nem sei se o próximo presidente americano terá esse mesmo compromisso. Tenho dúvidas.


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