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03 de setembro de 2012, 17h33

Wagner Iglecias: Quem é Celso Russomanno?

Quem é Celso Russomano?

Por: Wagner Iglecias Especial para o Maria Frô

03/09/2012

Amigos que moram em outros estados e acompanham a política de São Paulo demonstram surpresa com o fenômeno que a eleição paulistana tem apresentado até aqui, Celso Russomano, candidato do pequeno PRB. Para eles é surpreendente que São Paulo, onde a polaridade PSDB x PT se expressa com uma aspereza como em nenhum outro lugar do país, não esteja se configurando até o momento. Pois é. Tá todo mundo tentando entender e explicar isso. E as respostas são difíceis.

As lembranças mais remotas que tenho de Celso Russomano remontam aos anos 80. Ele fazia colunismo social na pequena TV Gazeta. Provavelmente o máximo que ambicionava à época era ser um Otávio Mesquita ou um Amaury Junior, que naquele momento já haviam galgado emissoras maiores, como a Band ou a extinta TV Manchete. Cobria eventos de classe média, entrevistava gente que aspirava ascender socialmente mas que, naquele Brasil de efervescência política e estagnação econômica, no fundo se sabia que não teria sucesso. Suas entrevistas nunca foram apelativas, mas eram melosas, sobretudo com mulheres, como agora se vê em vídeos antigos que estão sendo caçados avidamente por seus adversários e divulgados na rede.

Russomanno, um político feito dentro da televisão e não pela televisão. Foto: Estadão 

Por essas e outras a alta burguesia da cidade nunca viu Celso com pedigree para ser recebido nos salões mais chiques, onde Otávio e Amaury circulavam com desenvoltura e cobriam os convescotes dos ricaços. Fato é que o “Circuito Night and Day” ficou no passado e Russomano se reinventou, após o triste episódio da esposa, vítima de problemas com atendimento num hospital privado. No intuito de denunciar o que estava ocorrendo Russomano preferiu filmar a agonia da mulher do que levá-la para outro hospital. Acabou perdendo a esposa mas ganhou uma notoriedade que sua pequena coluna social televisiva jamais havia lhe dado.

O Código de Defesa do Consumidor acabava de ser criado naquele mesmo ano e Russomano, sabe-se lá se em homenagem à memória da ex-mulher ou por ter visto ali uma janela de oportunidade, mergulhou no Aqui Agora, esta espécie de avô dos Cidade Alertas e Brasil Urgentes de hoje em dia, com seus Datenas e Rezendes. O programa, que foi um divisor de águas na televisão brasileira, trazia o noticiário policial para a sala das senhorinhas às seis da tarde e balançava o coreto das pacatas novelas globais de época, que dominavam o ibope naqueles tempos. Mas Russomano, homem franzino, de voz nem tão grave e modos comedidos, não combinava muito com os arroubos de certo jornalismo que garantia audiência dando socos na mesa e bradando contra a bandidagem.

Celso fazia outra linha, que lhe deu fama, buscando acordos entre consumidores e fornecedores de bens e serviços. Do entrevistador “assanhado” do passado ele se tornava o negociador de rua, defensor dos interesses populares num mercado de massas que começava a se insinuar no país. Com a câmera na mão com a qual filmou os instantes finais de sua ex-esposa ou com o microfone em punho com o qual intimava comerciantes a resolver os problemas de clientes insatisfeitos, Russomano fez escola numa imprensa que hoje em dia não se avexa em cobrar atitudes de prefeitos de pequenas cidades ou em fazer chacotas com deputados e senadores em Brasília.

Do Aqui Agora em diante a biografia de Russomano é conhecida. Filiou-se ao PSDB, onde foi o deputado federal mais votado do país em 1994, sendo reeleito outras vezes depois. Reaproximou-se de Paulo Maluf, com quem trabalhara desde a adolescência, e pela legenda deste concorreu à prefeitura de Santo André em 2000, sendo derrotado fragorosamente por Celso Daniel (PT) e ao governo paulista em 2010, perdendo para Alckmin (PSDB). Mais recentemente rompeu com Maluf e filiou-se ao PRB, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da TV Record, onde comandou durante muito tempo, e até há pouco, a sua “Patrulha do Consumidor”. E hoje está aí, liderando a corrida eleitoral da cidade mais importante do país, para surpresa de tanta gente.

Mas, afinal, quem é Celso Russomano? Até agora, estamos todos tentando responder. Já se disse que seria o herdeiro de um certo eleitorado paulista típico, de direita, que vem votando por falta de opção no PSDB desde que se viu viúvo de Jânio e de Maluf. Já se disse que seria o novo Collor, porque surgido numa pequena legenda e se mostrando como um outsider em relação à disputa entre os políticos tradicionais. Já se disse que seria apenas um fenômeno televisivo, e que sua liderança duraria até o eleitorado saber quem são os candidatos dos partidos tradicionais. Já se disse que é dono dos votos evangélicos, ainda mais nestes tempos em que as igrejas protestantes têm crescido tanto no país. São hipóteses interessantes, mas nenhuma é satisfatória. Russomano não tem nem de longe o sarcasmo e o histrionismo de Jânio, não tem a matreirice de seu ex-guru Paulo Maluf, não tem a origem social de um Collor e, criado no malufismo e com uma passagem pelo tucanato, está longe de ser um outsider da política paulista. Mais que isso, não é dono do voto evangélico, até porque os protestantes não são um todo monolítico e homogêneo, e boa parte deles estão aliados nesta eleição, aliás, a José Serra. Talvez a liderança de Russomano guarde mais relação com o desgaste que o nome do tucano, eterno candidato, e talvez o próprio PSDB, há tantos no poder em São Paulo, venham sofrendo. Talvez sua posição nas pesquisas seja ainda fruto do recall de tanta exposição televisiva nos últimos anos, a ponto mesmo de os parcos 2 minutos no horário eleitoral, muito menos que o tempo de seus adversários, não abalarem sua liderança nas intenções de voto. Talvez, talvez…

Enfim, é difícil responder quem é Russomano. Quando ainda era uma força política relevante em São Paulo, Paulo Maluf tinha um jingle famoso que dizia “a segurança é nossa, a liberdade é sua, bandido é na cadeia e gente boa é na rua”. Russomano não é a reedição dessa velha direita paulista, de tão peculiar truculência, expressa nas campanhas eleitorais do passado e nos programas policiais da TV, que pedia “rota na rua”. Ou nem mesmo aquela direita que enchia a boca para dizer “fulano rouba, mas faz”. Não, Russomano é direita de outra lavra, até porque aquela direita antiga não tem mais tanto espaço num país pacificado por um certo petismo de mercado. Russomano é de uma direita mais contemporânea, de um tempo de crescente despolitização da política, de uma vida pública fortemente reduzida a (e confundida com) relações entre consumidores. Russomano é uma direita que está muito mais para o shopping center do que para a praça pública. Se parece mais com os tucanos dos anos 90 e com o petismo de hoje do que com o velho Maluf dos anos 80. Talvez sua liderança nas pesquisas, calcada nesse discurso voluntarioso porém até aqui vazio que está conquistando boa parte dos paulistanos, seja fruto do que ele aprendeu lá atrás, no seu antigo programa televisivo, entrevistando gente que queria subir na vida e via no mercado, e não na política, uma alternativa para tanto. Num Brasil de efervescência econômica e apatia política, como o de hoje, nada mais natural.

*Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

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