Cinema nigeriano aliado na luta para combater a violência doméstica

A produção nollywoodiana chega até nós pela NetFlix e tem abordado com cuidado e delicadeza vários temas do cotidiano, especialmente quando se trata de abordar questões de gênero e de violência de gênero

Nollywood é a terceira indústria cinematográfica do planeta. Só perde para Bollywood (o cinema indiano) e Hollywood. É, portanto, um cinema extremamente popular como o é Bollywood e tem um papel tão didático como o cinema indiano ou como foi o cinema Moçambicano nos tempos revolucionários.

A população nigeriana, como em boa parte do continente africano, ainda não tem acesso pleno à educação. Os índices de analfabetismo são altos: mais de 41 milhões de nigerianos adultos são analfabetos, assim o cinema ganha importância como meio educativo.

A produção nollywoodiana chega até nós pela NetFlix e tem abordado com cuidado e delicadeza vários temas do cotidiano, especialmente quando se trata de abordar questões de gênero e de violência de gênero. Só no catálogo da NetFlix você pode assistir Seven and haf dates onde a irmã da protagonista é vítima de um noivo abusador e Wives on Strike (em português Guerra de Esposas 2).

A Nigéria é um dos países mais violentos do mundo contra a mulher. No parlamento nigeriano em 2018, apenas 27 mulheres ocupavam cadeiras entre os 469 assentos no Parlamento. O casamento infantil, uma prática que mobiliza as feministas nigerianas é responsável pela morte de bebês e mães pré-adolescentes.

Embora haja um esforço do governo nigeriano para fazer prevalecer a Constituição que estabelece a igualdade de gênero, há ainda um longo caminho a ser percorrido para vencer a resistência da tradição patriarcal e machista.

O governo já propôs licença paternidade para educar os homens na divisão das tarefas domésticas e no trabalho do cuidado com os filhos e foi rejeitado pelo Parlamento, propôs ainda garantir o direito das viúvas terem acesso aos recursos do falecido. Todas as propostas que visavam garantir a equidade de gênero foram rejeitadas.

Guerra de Esposas 2 – Contém Spoiler
Escrito, produzido e dirigido pela bela Omoni Oboli, Greve de Esposas 2 é uma comédia que trata de assunto sério: a violência doméstica.

Estrelado por Omoni Oboli, Sola Sobowale, Uche Jombo, Ufuoma McDermott, Kehinde Bankole, Chioma Chukwuka entre outras talentosas atrizes, o filme faz uma referência à Lisístrata de Aristofanes onde a greve de sexo é um instrumento de luta das esposas, neste caso numa guerra particular: contra a violência cometida por seus companheiros dentro do espaço privado.

A película inicia com o assassinato de mama Beatrice. Ao descobrirem que foi seu marido o autor do crime as mulheres começam a se organizar no mercado e propõem uma greve de sexo não apenas para que o assassino de Beatrice seja punido, mas também para protestar contra a violência doméstica: contra o marido que espanca, estupra, se apropria do dinheiro do trabalho de suas esposas…

Ao longo do filme outras mulheres vão se fortalecendo e entendendo o poder de se protegerem umas às outras, é uma lição de sororidade. Mas não param por aí, elas querem mais, querem poder decidir no campo da política institucional, querem se candidatar e fazer política para a mulheres.

O filme tem uma abordagem dos direitos humanos sem academicismo, numa linguagem popular que atinge um espectro muito maior que a do ativismo feminista e convida as mulheres a tomar as rédeas de seu futuro.

É muito importante quando cineastas trabalham com humor, sensibilidade temas sensíveis na sociedade e fazem do cinema um espaço de debate e educação. No Brasil, infelizmente, o meio mais popular que é a televisão continua permitindo a presença dos Petrix ano após ano.

Felizmente, não sem protestos como bem relatou Clara Averbuck aqui.

Que possamos nos inspirar com a produção de Nolywood e suas diretoras comprometidas na luta contra a violência doméstica.

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Maria Frô

Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.

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