Eu acuso Bolsonaro!

Meu primo Paixão virou estatística da Covid19 juntamente com mais 24.600 pessoas no país que mais mata seus cidadãos e seus profissionais da saúde na Pandemia

Hoje, chorei pela primeira vez nesta pandemia. Chorei de revolta e impotência, chorei no meio de uma aula online. Já me entristeci com a perda de conhecidos (mães, pais, irmãos de amigos), já tive um amigo de adolescência que ficou internado 20 dias internado em coma induzido, 5 dias entubado devido ao Covid19. Por sorte, ele estava na Espanha, um país que respeitou o isolamento social e que cuida de seus cidadãos.

A mesma sorte não teve meu primo Paixão. Ontem ele virou estatística da Covid19, juntamente com mais 24.600 pessoas.

Desde domingo o Brasil é o país que mais mata no mundo seus cidadãos e seus profissionais da saúde na Pandemia. Como se esse recorde mundial de abandono fosse pouco, batemos outra marca: 1.039 mortes por Covid-19 em 24 horas, o que torna o Brasil o país com maior número de óbitos pela doença em um único dia.

Paixão, meu primo pelo lado materno, tinha 38 anos, nasceu numa sexta-feira da paixão e morreu torturado com Cristo, sem dignidade, sem respirador. Em uma semana ele definhou, sem conseguir respirar, morreu numa agonia sem fim. Eu choro pela dor que ele passou. Já tive pneumotórax, num acidente cirúrgico, durante uma anestesia geral. Meu pulmão encheu de sangue e quando os médicos perceberam eu já tinha tido parada respiratória e cardíaca. Acordei afogando no seco, você tenta respirar, puxa o ar com toda a força e ele não vem, porque o pulmão perde a capacidade de expandir e retrair. A dor no peito é lancinante e dura meses. Morrer sem poder respirar é se afogar no seco. Meu primo morreu assim, um sofrimento atroz, feito Cristo na sexta-feira da paixão.

Paixão tinha sonhos, família e uma vida inteira para viver que foi ceifada inutilmente. Seu corpo está preso, não terá despedida e os mais próximos assustados com o risco de estarem contaminados.

Quantos milhares de brasileiros foram e ainda serão sentenciados à morte, diante do descalabro de um governo desumano, com uma crueldade inimaginável nem nos nossos piores pesadelos distópicos?

Um desgoverno que não tem vergonha de dizer em uma reunião ministerial palavras de baixo calão e que conscientemente afirma que é preciso aproveitar o momento em que todos estão voltados para pandemia, para “passar a boiada” na Amazônia. Em português claro, pôr fim ao que resta de preservação ambiental e de proteção às populações indígenas. Um governo com um psicopata na economia que diz com todas as letras que, ajudar os que mais precisam do Estado é perder dinheiro? Que grita FODA-SE! vamos salvar as grandes empresas, vamos congelar salários de servidores e aproveitar que estão distraídos para “botar a granada no bolso do inimigo”.

Um governo que trata seus cidadãos como inimigos de guerra e usa uma linguagem belicosa sem cerimônias, sem constrangimentos.

Até quando toleraremos resilientes um desgoverno que no meio de uma crise sanitária, econômica, política, humanitária sequer tem um ministro da saúde? Até quando suportaremos um desgoverno em que nem os médicos mais ultraneoliberais que foram contra o Mais Médicos, a favor do golpe, que declaradamente tratam saúde como mercadoria e não como direito, conseguem permanecer no ministério da saúde?

Até quando, nós brasileiros vamos assistir os estados, cujos governadores se recusam a replicar o projeto genocida de Bolsonaro, serem boicotados e não receberem verbas para o combate à pandemia, mas um banco público como Banco do Brasil gastar R$ 119 milhões em publicidade para financiar site de fake news bolsonarista.

Até quando permitiremos que o desgoverno Bolsonaro solte 1,2 trilhão aos bancos e atrase o pagamento dos míseros 600,00 aos trabalhadores mais precarizados? (isso porque se dependesse de Guedes e Bolsonaro seriam 200,00).

Hoje, minha revolta atingiu o limite das lágrimas, “choveu nos meus olhos” uma tempestade amarga que mistura dor e revolta diante da impotência. Eu acuso, Bolsonaro de inúmeros crime de responsabilidade que levou à morte milhares de brasileiros. Mas Bolsonaro não conseguirá me destruir, me aniquilar, me deprimir. Decidi transformar meu choro num pacto de vida, num pacto de resistência, num pacto de luta, para derrubar este governo atroz.

Como diz uma querida educadora popular lá do sul do país: “Que agente tenha leveza e certeza que toda essa malvadeza, bruteza, baixeza e tristeza será vencida pela fortaleza, delicadeza, gentileza e clareza”.

Que façamos este pacto de permanecermos vivos, que busquemos a alegria para enfrentar aqueles que só sabem odiar, que busquemos nos fortalecer uns aos outros, na mais ampla rede de solidariedade, carinho para nossos familiares, amigos, vizinhos, desconhecidos. Que redescubramos a força transformadora do coletivo para enfrentar a barbárie.

Teimarei, Paixão, em prosseguir viva para reconstruir o Brasil em sua honra, primo. Ficar vivo hoje é um ato de resistência.

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Maria Frô

Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.

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Renato Rovai
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