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O que o brasileiro pensa?
19 de fevereiro de 2020, 15h29

Qual o limite de Bolsonaro e qual o limite para a sociedade brasileira e suas instituições reagirem?

Por décadas Bolsonaro quebra o decoro. Não são apenas "declarações polêmicas". Quanto já custou ao Brasil o eufemismo cúmplice da mídia corporativa, das instituições do Estado, como Congresso Nacional e STF, diante das atrocidades ditas e feitas por Bolsonaro?

Bolsonaro é Bolsonaro há 32 anos na vida política. *EleNão mudou.

No último post deste blog trouxe à tona o relatório da violência da FENAJ, que aponta Bolsonaro campeão disparado de ataque a jornalistas e órgãos de imprensa.  Só em 2019, Bolsonaro sozinho foi responsável por 121 casos de agressão contra a imprensa.

Desde a semana passada os ataques veementes e grotescos de Bolsonaro, de seus fihos (veja aquiaqui) e de sua milícia virtual não poupam a honra da premiada jornalista Patrícia Campos Mello da Folha. Bolsonaro chegou ao ponto de dizer que ela “queria dar o furo“, fazendo trocadilho com o jargão jornalístico de noticiar em primeira mão, transformando a expressão em  alegações sexuais contra a jornalista.

Como já cansei de apontar, os ataques de Bolsonaro, de seus filhos e de sua milícia, preferencialmente às mulheres, são sempre misóginos, eivados de preconceitos contra sua aparência física, suas capacidades mentais/profissionais, cor, sexualidade etc.

Uma longa carreira política de falta de decoro

Há quanto tempo Bolsonaro está na política? Há quanto tempo Bolsonaro ultrapassa todos os limites cabíveis de decoro dos cargos que já ocupou?

Em 1988, depois de um episódio pouco explicado no Exército, o ex-capitão concorreu a vereador na cidade do Rio de Janeiro e foi eleito pelo PDC. Mudar de partido, conforme conveniência, também é característico de sua carreira política. Da Câmara de vereança saltou para o legislativo federal. Só no Congresso, Bolsonaro esteve durante 7 mandatos: entre 1991 e 2018, quando, infelizmente, foi eleito presidente do país, cargo que falta com o decoro quase que diariamente.

Faço um brevíssimo levantamento de alguns de seus descalabros indecorosos apenas nas décadas de 2000 e 2010:

Em 2003, Bolsonaro chamou a deputada federal do PT- RS, Maria do Rosário, de “vagabunda”. Palavras de Bolsonaro que você pode conferir no vídeo abaixo: “Jamais vou estuprar você, porque você não merece”. E logo depois de empurrá-la, em pleno salão verde da Câmara dos deputados, a chamou de “vagabunda”.

Onze anos depois, em 2014, ele voltou a repetir sua falta de decoro contra Maria do Rosário. “Não a estupro porque você não merece”. E a chamou de “mentirosa, covarde e descarada”.  Ela venceu processo contra ele e doou a indenização para o combate à violência contra as mulheres.

Bolsonaro tem verdadeira ojeriza contra os Direitos Humanos que chama de “Dia da Vagabundagem”.

Em 2011, durante um programa de entrevistas do CQC (o quanto esse tipo de programa, que transformava em humor as atrocidades ditas por Bolsonaro, ajudou a fecundar o ovo da serpente do fascismo?), Bolsonaro, com doses de racismo e homofobia, ataca Preta Gil. Questionado pela cantora, filha de Gil, sobre o que ele faria “se o filho dele se apaixonasse por uma negra”, Bolsonaro respondeu: “Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.

 

A fixação de Bolsonaro com o tema da homossexualidade e contra os Direitos Humanos também esteve presente ao ataque a então presidenta Dilma Rousseff.  Em 2011, espalhando fake news sobre a invenção da direita fundamentalista que eles denominaram de “kit gay”, Bolsonaro disse: “Dilma, se o teu negócio é o amor com homossexual, assuma, mas não deixe que essa covardia entre nas escolas de 1º grau”. Na verdade, tratava-se de diretrizes do MEC para educação em defesa dos direitos humanos, entre eles o combate à homofobia. Para Bolsonaro, os “boiolas”, como ele se refere aos homossexuais, não têm direito à cidadania.

Em 2013 foi a vez de Bolsonaro agredir em discurso no plenário da Câmara Eleonora Menicucci, que ocupou o cargo da Secretaria de Políticas para Mulheres. Bolsonaro  chamou a ministra de “sapatona”, além disso classificou o  Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de “estímulo à pedofilia”, entre outras atrocidades.

Também em 2014, outra deputada do PT, Benedita da Silva, foi alvo de Bolsonaro: ao se indignar com a violência contra o menor Paulo, que foi amarado nu a um poste e barbaramente espancado por playboys da Zona Sul do Rio, Bolsonaro foi à tribuna exaltar o espancamento, chamar a vítima de “vagabundo” e dizer a Benedita que levasse Paulo para casa, caso contrário ele daria o endereço ao “vagabundo” para que ele fosse assaltar a casa da deputada petista.

Bolsonaro já ameaçou fuzilar a petralhada, chamou o PSOL de partido de “pirocas” e suas ações como “coisa de veados” e soltou a mais um despautério homofóbico:  “Ninguém gosta de homossexual, a gente suporta”.

Todos esses descalabros que correspondem a uma ínfima parte das ações e falas de Bolsonaro ao longo de 32 anos na política foram tratados pela imprensa como “declarações polêmicas”.

Hoje vemos a mídia corporativa indignada. Por que a Folha não se indignou quando Bolsonaro, em seu discurso para a votação do impeachment de Dilma, citou a Folha e dedicou seu voto em homenagem a Brilhante Ustra, o torturador da ex-presidenta:

 

Golpistas notórios se manifestam, como cinicamente fez Cristovam Buarque ao perguntar ontem no Twitter “Onde erramos?”. Até Janaina Paschoal, a musa do impeachment, e Miguel Reale Jr., co-autor do pedido de impeachment, estão indignados com Bolsonaro, como se não tivessem absolutamente nada a ver com sua ascensão à presidência.

Por décadas Bolsonaro quebra o decoro, não são apenas “declarações polêmicas”. Quanto já custou ao Brasil o eufemismo cúmplice da mídia corporativa, das instituições do Estado, como Congresso Nacional e STF, diante das atrocidades ditas e feitas por Bolsonaro?

Os trabalhadores brasileiros sabem. Desde o golpe 2016, já perdermos o direito de se aposentar e a seguridade social, já perdemos direitos trabalhistas, nosso SUS e nossa educação estão às traças, quilombolas (a quem Bolsonaro se refere como se fosse gado, medindo-os em arroba) e indígenas além de suas terras estão perdendo suas vidas. A violência no campo com assassinatos de lideranças batem recordes. O meio ambiente literalmente queima na Amazônia, mata os peixes dos mares do Nordeste, contamina toda a terra e alimentos com um nível absurdo de agrotóxicos liberados por este governo da morte. Guedes e Bolsonaro querem até mesmo que os brasileiros consumam carne com formol, pois querem fechar a única fábrica brasileira que produz a ureia sem formol para insumo alimentar do gado. Órgãos de fiscalização, a começar pelo próprio Ministério do Meio Ambiente, foram aparelhados, neutralizados e ideologizados. (Veja, por exemplo, aqui, aqui, aquiaqui)  

A riqueza do povo brasileiro de bancos nacionais como Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal que existem desde o Brasil Império se esvai em negociatas. Como a Petrobras, o BB e a CEF estão sendo fatiados e entregues às grandes corporações.

Durante a campanha eleitoral de 2018, mais de dois milhões de mulheres organizadas saíram às ruas para manifestar nossa posição contra Bolsonaro. O #EleNão foi um manifesto feminista porque conhecemos de longa data a figura de Bolsonaro. Fomos derrotadas, nossas manifestações foram alvos de fake news da milícia digital bolsonarista, a mesma que juntamente com Bolsonaro e seus filhos atacam hoje a jornalista Patrícia Campos Mello.

Há anos Bolsonaro quebra o decoro, expõe sem filtros seus pensamentos atrozes e nada foi feito. Qual o limite para Bolsonaro? Qual o limite para que a sociedade brasileira e as instituições ajam?


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