A imagem que se esgota em "Mãe!"

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Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.
por Cesar Castanha Em um pôster do filme Mãe!, o material de divulgação alude ao cartaz do filme O bebê de Rosemary (dir. Roman Polanski, 1968), com o rosto de Jennifer Lawrence deitado, transparente, ao modo do de Mia Farrow no outro. A referência é ambiciosa e um convite à expectativa. É também uma estratégia bem concebida de marketing, o que me deixa hesitante de ler alguma coisa do filme a partir dele. Por isso, atenho-me a dizer que prefiro outro pôster de Mãe!, um em que a cabeça de Lawrence se ergue com uma expressão triste e passiva, e a textura de sua pele remete a de um boneco de cera. Há pequenas falhas em seu rosto, e seus olhos parecem feitos de vidro. Gosto mais deste porque me remete à imagem que considero mais forte, de mais dura presença, em um filme que está o tempo todo buscando imagens fortes: o rosto de Jennifer Lawrence, em constante close-up, perseguido pela câmera do diretor Darren Aronofsky. O uso exaustivo da imagem desse rosto — que repete expressões de angústia, confusão e raiva a cada sequência — já foi observado em outros comentários sobre o filme. Não quero compartilhar do tom de deboche que geralmente envolve essa observação (acho que há um preconceito de parte da cinefilia com o artifício do close-up — talvez porque remeta à linguagem das telenovelas ou talvez por motivos mais justos), o rosto de Lawrence, fora de proporção, flutuando na tela do cinema como se desmembrado do resto do corpo, traz algo de inquietante, uma sensação de desconforto que é rapidamente afastada pelo filme em seu esforço de trazer uma ampla variação de imagens desconfortáveis. O enredo, mantido por algum tempo em segredo também como parte da elaborada estratégia de divulgação do filme, envolve um casal (Lawrence e Javier Bardem) que vive isolado em uma casa grande que necessita de restauros, uma tarefa que ela, a Mãe do título, toma como sua responsabilidade, enquanto seu marido, o poeta, alega utilizar o tempo para escrever. Aronofsky não nos permite experimentar esse isolamento por muito tempo. Logo, os dois recebem a visita de um outro casal, e a partir daí a casa nunca deixa de ser um espaço compartilhado entre estranhos. A casa é evocada como metáfora pelo filme desde a primeira cena, e Aronofsky reafirma essa metáfora visualmente com frequência. As imagens que surgem da necessidade de provar que há conceitos inteligentes e motivações singulares ocultos naquele filme são as mais óbvias e autoevidentes. Quando Lawrence encosta o ouvido na parede da casa, por exemplo, somos levados para dentro dela para vê-la funcionando como organismo vivo, o que é reiterado em outros momentos. É surpreendente que Aronofsky ainda perceba a necessidade de ter suas metáforas explicadas pelos personagens ao final do filme, mesmo depois de ter recorrido a imagens tão didáticas, resolvidas em si mesmas. Na ansiedade do filme para expor essas imagens, ele sacrifica não apenas a sofisticação da metáfora — que é pouco interessante uma vez que já surge resolvida — mas também a sua busca por uma construção atmosférica inquietante. O rosto de Lawrence e a textura da casa em processo de reforma são imagens que não bastam a Aronofsky, é preciso demolir a casa, expor seus órgãos (literalmente), ferir o rosto de sua protagonista, vê-la gritar. E o filme, quando se apoia numa promessa de entregar algo absolutamente chocante (o que neste caso tem sido feito desde a divulgação), fica preso à necessidade de superar a cada nova cena o impacto causado na cena anterior. As imagens finais de Mãe! são testemunhas do cansaço de se chegar ao final dessa empreitada. Não há nada mais que o filme possa mostrar, ele esgotou todas as suas possibilidades de choque, ele expôs a metáfora de todas as maneiras que conseguiu encontrar. O rosto de Lawrence e o espaço da casa em reforma já não guardam nenhum mistério, nenhuma ponta solta que nos tire o sono. Se formos levar em consideração a referência do pôster, acho que vale a pena lembrar que o bebê de Rosemary, embalado pela mãe, nunca é representado pela imagem do filme. Talvez por isso permaneça, quase 50 anos depois, um dos mais aterrorizantes monstros do cinema.

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