Milos Morpha

por Cesar Castanha

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11 de maio de 2015, 18h29

10 filmes: Eduardo Coutinho

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Últimas Conversas está estreando este mês no Brasil, mas ainda dói usar o termo “canto de cisne” para Eduardo Coutinho. Desde Santo Forte, quando o cineasta embarcou em uma produção mais assídua de longas-metragens e passou a ser reconhecido por determinados traços de estilo, cada novo filme de Coutinho, como vejo, foi, se não uma nova etapa estética do documentário nacional, uma afirmação política contra a elitizada noção de “ordinário”. Infelizmente, os filmes de Coutinho são muito menos populares do que deveriam ser. O documentário no cinema, com exceção de um eventual Michael Moore, parece injustamente fadado ao nicho, por mais populares que possam ser seus temas; e a TV, que poderia ser um ótimo canal de veiculação, continua a ignorar todo o nosso cinema.

A internet, como já de costume, tem sido a saída. Vários filmes de Coutinho estão disponíveis completos do YouTube. Falo aqui dos meus 10 preferidos.

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10) O Fio da Memória

O Fio da Memória é o retrato em cinema do Brasil da constituinte. Os 500 anos de ocupação portuguesa lançam sua sombra sobre a nova democracia. É o momento mais didático de Coutinho, a narração em off  dos textos de Joaquim Gabriel dos Santos, apesar de sua força, reforça uma ideia de que o que é dito deve ser mostrado, o que contradiz várias coisas que o diretor defenderia depois em suas entrevistas e nos seus próprios filmes. Ainda assim, é um interessante reflexo do seu momento.

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9) Peões

Na filmografia nacional, Peões acompanha Entreatos, de João Moreira Salles. Como O Fio da Memória, os dois filmes são reflexos de um momento político de esperança esquerdista. Peões procura, nos dias da eleição presidencial de 2002, os rostos nas fotos históricas do movimento sindical da década de 1980. O filme também carrega um dos momentos mais emblemáticos da carreira de Coutinho, quando, falando que não quer que seus filhos passem pelo que ele passou, o personagem se deixa interromper pelo silêncio até disparar para o diretor: “O senhor já foi peão?”.

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8) Boca do Lixo

“Como é trabalhar no lixo?”. A pergunta de Coutinho não supõe nada, não responde pelo seus personagens. Ao filmar o outro, o diretor é corajoso o bastante para mostrar que há distância e desententimento entre eles. Boca do Lixo talvez seja exatamente o que o jornalismo deveria ser. De qualquer forma, é cinema documentário brutalmente honesto com si mesmo.

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7) Santo Forte

No ainda difícil primeiro momento da retomada, Coutinho embarcou em um projeto como Santo Forte, o primeiro filme do diretor em que a narrativa dependeria exclusivamente do depoimento dos personagens. A ideia não foi facilmente vendida. No processo, a própria montadora do filme confessara a pouca fé que tinha nele. Santo Forte luta pela verdade possível da palavra sobre a suposta verdade da imagem que moveu tantas escolas do gênero.

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6) Edifício Master

Depois de Cabra Marcado para Morrer, Santa Marta – Duas semanas no morro, Boca do Lixo e Santo Forte, Coutinho entraria no universo muito diverso da classe média baixa. Mais uma vez, o filme é uma luta pela primasia da palavra-depoimento. A interferência de Coutinho, como o outro lado da palavra, o que escuta, para quem se fala e, principalmente, quem quer ouvir, é essencial ao filme. Acho que isso está muito bem demarcado em segmentos como o da personagem que se recusa a olhar para ele ou do sujeito que lhe pede um emprego.

 

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5) Moscou

Adaptando o incompleto As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, Coutinho convida um grupo de teatro para ensaiar uma peça que nunca entraria em cartaz. É sabido que Coutinho pouco gostava do próprio filme. Pessoalmente, acho o projeto um tanto mais arrojado do que Coutinho consegue dar conta. Mas admiro o quanto comprometido o filme é com a tentativa. No fim das contas, fica beleza da nostalgia das personagens, firmemente sentida.

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4) O Fim e o Princípio

Em entrevista, Coutinho declarou não ter tido em mente nenhum tema específico para filmar O Fim e o Princípio, projeto desprovido de pesquisa prévia. Algumas perguntas, no entanto, são insistentemente repetidas a cada casa de São João do Rio do Peixe visitada pela equipe do filme. Pra mim, esse se tornou, depois da morte do diretor, o seu filme mais doloroso.

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3) Teodorico: o Imperador do Sertão

À maneira de Leni Riefenstahl, dessa vez Coutinho procura não interferir na sua imagem. Os absurdos ditos e mostrados não são questionados pelo cineasta, como depois ele diria que devem ser. Teodorico: o Imperador do Sertão é um documentário esteticamente distante daquele que o diretor passaria a defender, ainda que mereça ser aclamado pela grandeza de sua aridez.

 

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2) Cabra Marcado para Morrer

Um filme interrompido pela ditadura militar é retomado com a abertura política do governo Figueiredo, 17 anos depois. Cabra Marcado para Morrer é um dos mais belos documentários já feito, no Brasil ou fora daqui. Ao se dedicar à família de Elizabeth Teixeira tanto quanto à história das ligas camponesas, o filme mostra que dor e o isolamento causados pela didatura é maior do que o que pode ser resumido nos livros de História.

 

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1)   Jogo de Cena

O valor da palavra-depoimento para Coutinho já estava muito claro desde Santo Forte. Aqui, ele o atesta com atrizes interpretando uma série de depoimentos femininos. Gosto da curiosa comparação com o melodrama de Douglas Sirk que alguns críticos trouxeram à época, a narrativa realmente tem uma expressão dramática particular que as personagens trazem, um entendimento delas do que é cinema que é modificado pelo entendimento das atrizes. Jogo de Cena é uma poderosa afirmação de Coutinho e ainda permanece talvez o melhor filme nacional desde a retomada.


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