Milos Morpha

por Cesar Castanha

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23 de junho de 2016, 13h35

13 filmes infantis que não devem ser esquecidos

O cinema infantil sempre foi um dos gêneros mais rentáveis do cinema. Mas desde pelo menos o início dos anos 2000, quando a Dreamworks e a Pixar se consolidaram, a procura pelo gênero tem sido cada vez mais pautada pela superação técnica (que faz da animação tradicional, por exemplo, obsoleta aos olhos do mercado). E a facilidade de acesso ao gênero (com o Netflix e afins), ao invés de diversificar a procura, tem reforçado um mesmo tipo de produto e de entendimento de cinema infantil (geralmente, aquele da animação 3D, cômica e de valor didático). Abaixo, 12 filmes infantis — obras do cinema mudo à animação 3D — que não podem ser esquecidos.

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  1. O Garoto (The Kid, dir. Charles Chaplin, 1921)

A cada revisão de O Garoto, o filme se aproxima como um Chaplin preferido. Não é um título fácil de se conceder. O filme não é, de fato, tão sofisticado quanto Luzes da Cidade, nem tão pungente quanto Em Busca do Ouro ou tão genial quanto Tempos Modernos. Carrega, antes, a mesma tolice ingênua de obras menores, como O Circo. Mas me afasto da noção de que o que Chaplin tem de grandioso é o seu rigor cômico (este é Buster Keaton) ou a sátira social (estes são os filmes com Harold Lloyd). Chaplin, pra mim, define-se nos momentos em que Carlitos, cercado por absurdos do seu cotidiano (o desemprego, a pobreza e a fome), cede a uma molecagem. Tempos Modernos, para mim, é melhor compreendido pela cena em que o personagem anda de patins na loja de departamentos em que trabalha que pela sua famosa sequência na indústria.

O Garoto é a praticamente uma declaração da meninice que Carlitos representa. E, por favor, não vamos deixar de ver a obra de Chaplin como parte do cinema infantil. Ela o é no mais direto e nobre dos sentidos que se dá ao gênero.

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  1. Bambi (1942)

Bambi é um filme raro para o cinema de animação e ainda mais raro para Hollywood. A narrativa se mantém fiel em ritmo à trajetória do personagem. Muitas cenas parecem não ter qualquer propósito além de estabelecer que aqueles personagens e aquele cenário estão ali, naquele lugar, daquela forma. O soco inesperado do filme é a revelação de que eles não estarão ali para sempre: de que filhotes crescem, pais morrem e paisagens mudam, com as estações ou com a interferência fatal do homem.

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3 e 4. O Jardim do Mickey (Mickey’s Garden, 1935) e Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1951)

Sempre sugiro O Jardim do Mickey e Alice no País das Maravilhas como uma sessão dupla. Os dois filmes devem ser o experimento mais distante pela Disney no surrealismo (Fantasia — assim como Destino, o curta produzido com Salvador Dali e lançado apenas como extra de DVD — é plástico e muitas vezes abstrato, mas não surrealista). O Jardim do Mickey é uma descoberta que fiz já adulto, mas o encanto diante da sequência de absurdos que constitui Alice ainda é uma das memórias afetivas mais fortes que guardo da minha relação com o cinema quando criança.

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  1. Meu Tio (Mon Oncle, 1958)

Meu Tio, assim como todos os outros filmes com Monsieur Hulot, personagem de Jacques Tati, é uma sessão infantil obrigatória. Monsieur Hulot é um sobrevivente, ou fugitivo, dos costumes da classe média urbana, que o filme idiotiza graciosamente. Em Meu Tio, o personagem está acompanhado de seu sobrinho, o que faz todo sentido. As crianças são uma vítima constante para as manias tolas de seus pais — e rebeldes constantes também.

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  1. O Serviço de Entregas da Kiki (Majo no takkyûbin, 1989)

O Serviço de Entregas da Kiki, de Hayao Miyazaki, foi recentemente lançado em DVD e Blu-ray no Brasil com opção de áudio em português. O filme é uma aventura infantil atípica mesmo na obra de Miyazaki. Mais próxima da narrativa familiar e rural de Meu Amigo Totoro que das fantasias épicas Nausicaa e Princesa Mononoke, Kiki é a história de uma jovem bruxa que deve passar um ano “independente” como parte do seu aprendizado. É bom lembrar que Mononoke e também Porco Rosso, além dos filmes mais recentes do diretor, estão todos disponíveis em DVD e Blu-ray com áudio em português.

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  1. A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991)

A Bela e a Fera é, ainda, o melhor conto de fadas do cinema. De todos. Ainda que sejam obras-primas evidentes, Branca de Neve e os Sete Anões sofre por ser pouco contemporâneo nas suas ideias; e o A Bela e a Fera do Jean Cocteau cede a uma linguagem muito específica, abrindo mão do caráter universal que é essencial aos contos de fada. A versão da Disney surge despretensiosamente atual (sem forçar a própria contemporaneidade com uma aproximação por gírias e menções iconográficas que acometem os ainda ótimos Aladdin e Hércules) e esteticamente apurada.

JURASSIC PARK, 1993. ©Universal/courtesy Everett Collection

 8. Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993)

Jurassic Park é um filme infantil. Só uma noção higienizada e demasiadamente categorizada do gênero poderia rejeitar o filme como parte dele. Steven Spielberg é da geração criada na Guerra Fria, e seus três melhores filmes (E.T., Tubarão e Contatos Imediatos de Terceiro Grau) são fantasias pacifistas a comentar os últimos anos do conflito. Jurassic Park, a sua última obra-prima, dá um passo mais firme em direção ao discurso ambientalista.  A construção de cena de toda a aventura dos personagens (E que aventura! Acho lamentável que Jurassic Park não desperte a mesma admiração cinéfila que Os Caçadores da Arca Perdida.) é calcada na contemplação dos dinossauros como uma divindade fora do seu lugar e seu tempo.

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  1. Matilda (1996)

Matilda é um pequeno sucesso do cinema infantil da minha geração que tem sido completamente ignorado desde então (o fim da TV aberta como um dos principais meios para o contato com o cinema é um dos responsáveis pelo esquecimento), apesar de estar disponível no Netflix. Ter visto Matilda na infância, um filme que zomba da autoridade de instituições responsáveis por socializar as crianças, como a família e a escola, foi uma experiência de emancipação, um grito de guerra. Revendo-o hoje, o filme permanece corajosamente incendiário e um dos principais modelos do que o cinema infantil deveria almejar.

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  1. O Gigante de Ferro (The Iron Giant, 1999)

O Gigante de Ferro carrega todas as qualidades do melhor do cinema de fantasia de Spielberg: tem muito do clamor por tolerância e do discurso não-armamentista das obras infantis de quem foi criado na Guerra Fria. E Brad Bird tem sofisticação o bastante para imitar os clássicos com elegância. O filme, no entanto, restou-nos mais como uma despedida do cinema que recorda. A animação 2D era coisa do passado, e a militância pacifista (inerente ao cinema infantil dos anos 1980 e 1990), só seria retomada com o mesmo teor de urgência e atualidade em Como Treinar Seu Dragão.

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  1. Lilo & Stitch (2001)

Lilo & Stitch deve ser a obra mais inventiva do recente cinema infantil americano. Uma criatura agressiva gerada por um cientista maluco do espaço rouba uma pequena espaçonave e cai no Planeta Terra, especificamente no Havaí, onde é adotado, como um cachorro, por uma garota órfã que é fã de Elvis Presley e criada pela irmã, uma garçonete que precisa se provar capaz, aos olhos do Estado, de cuidar da pequena Lilo. A polícia extraterrestre, por sua vez, vem buscar a criatura na Terra, uma vez que sua primeira opção — destruir o planeta inteiro — não é possível, devido à importância que nossos mosquitos têm para a ecologia universal.

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  1. Ratatouille (2007)

Ratatouille é o melhor e um dos mais ignorados filme da Pixar. É também, e com folga, a melhor animação 3D (uma técnica interessante como uma maneira de se produzir filmes de animação, e uma praga quando se torna a única maneira). Eu sempre me surpreendo com a facilidade com que o filme me emociona e com a força da sua moral (e a forma muito natural como o filme nos leva a ela). A belíssima cena do crítico que se perde em memórias da infância ao contemplar uma obra simples, mas significativa (o ratatouille do título), não poderia estar em nenhum outro filme que não uma animação, um gênero pelo qual nosso gosto se revela muito mais íntimo e misterioso.

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  1. O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no monogatari, 2013)

O Conto da Princesa Kaguya está muito próximo de A Bela e a Fera como uma das melhores adaptações de contos folclóricos feitas pelo cinema. A história flerta com certa esquematização (que faz parte da narrativa do conto, em que a Princesa é cortejada por diversos pretendentes), mas a direção de Isao Takahata conduz cada ponto da trama a um coerente (e doloroso) ciclo da vida. Pelo traço de Takahata, Princesa Kaguya se revela um conto de crescimento, perda e transcendência.


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