Milos Morpha

por Cesar Castanha

17 de julho de 2016, 11h44

11 filmes de gênero que não devem ser esquecidos

O cinema de gênero é aquele produzido a partir de uma declaração das expectativas de seu público. Um musical, uma farsa, um filme de suspense ou terror funcionam sempre como uma leitura específica da estrutura do gênero a que pertencem. Eles podem negar convenções, subverter gestos tradicionais e, ao fazê-lo, até criar uma nova convenção, mas está sempre dialogando com a expectativa do público diante de estruturas da narrativa anteriores até mesmo ao cinema. É talvez por manter um diálogo tão forte com o que é esperado pelo público que, quando um filme de gênero é rejeitado ou ignorado por este, costuma também ser ignorado pela cinefilia cânone.

Separei aqui 11 belos filmes do cinema de gênero que não são frequentemente lembrados. Alguns deles são obras que figuram silenciosas na filmografia de grandes diretores; outros são mais obscuros. Aqui estão.

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  1. A Dama Oculta (The Lady Vanishes, dir. Alfred Hitchcock, 1938)

A Dama Oculta é, ao mesmo tempo, um thriller de mistério e uma comédia romântica. Iris Henderson (Margaret Lockwood) está voltando de suas férias na companhia das amigas para se casar na Inglaterra. No trem que a leva de volta para seu noivo, ela testemunha o estranho desaparecimento de sua companheira de vagão, Miss Froy (May Whitty). Enquanto todos a acusam de ter enlouquecido, ela aceita a ajuda do musicólogo Gilbert (Michael Redgrave). Este filme tem bastante do lado mais Agatha Christie de Alfred Hitchcock — a representação irônica da cortesia e dos costumes britânicos e forte senso de humor.

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  1. O Homem-Leopardo (The Leopard Man, dir. Jacques Tourneur, 1940)

Seria coerente incluir nessa lista toda a obra do cineasta Jacques Tourneur, um dos grandes diretores do cinema clássico e responsável por obras como Sangue de Pantera, Fuga ao Passado e A Morte do Demônio, imensamente admiradas pelos fãs do cinema de gênero, e ainda assim distantes do cânone. O Homem-Leopardo não é o seu melhor, mas tende a ficar injustamente entre os mais esquecidos. Numa cidade do Novo México, o desaparecimento de um leopardo domesticado dá início a uma série de mortes, que podem não estar relacionadas ao animal.

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  1. O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles, dir. Terence Fisher, 1959)

Peter Cushing é meu Sherlock Holmes preferido. A aliança do ator ao diretor Terence Fisher — que contava também com a presença constante e um tanto mais notável de Christopher Lee — gerou algumas pérolas do cinema de horror dos anos 1950. Escolho O Cão dos Baskervilles no lugar das tantas adaptações de monstros dirigidas por Fisher porque o filme me encanta profundamente na representação fantástica da geografia do interior inglês. A intercessão entre o rear projection (o artifício de se projetar a paisagem dentro de um estúdio) e o trabalho de direção de arte dão à investigação de Holmes um toque surrealista que, contrapondo-se à lógica de que se gaba o personagem, engrandece a trama.

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  1. Com a Maldade na Alma (Hush… Hush, Sweet Charlotte, dir. Robert Aldrich, 1964)

Talvez porque, tanto para o diretor Robert Aldrich quanto para a atriz Bette Davis, às vezes soe como uma repetição de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, Com a Maldade na Alma tem uma história mais discreta dentro da cinefilia, embora seja, entre os filmes da lista, o mais bem recebido pela crítica da época. No filme, Bette Davis é Charlotte Hollis, herdeira de uma propriedade em Louisiana tão reclusa e envelhecida como a mansão que habita. A governanta Velma Crowther (Agnes Moorehead, fantástica) é sua leal protetora e uma das poucas ligações que ainda mantém com o mundo do lado de fora dos portões.

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  1. Um Perigoso Adeus (The Long Goodbye, dir. Robert Altman, 1973)

Elliott Gould como Philip Marlowe é minha atuação masculina preferida do neo-noir. Gould é a melhor pessoa pra conduzir esse pastiche do noir porque é ele mesmo parte antítese parte espelho de Humphrey Bogart, que viveu o mesmo papel décadas antes. O Marlowe de Gould compartilha do charme da falta de charme de Bogart (embora essa palavra signifique coisas diferentes nos anos 1940 e nos anos 1970). Mas o aspecto de decadência do personagem de Gould é um tanto mais radical e um tanto mais setentista, como a Los Angeles iluminada em cores neon. Um Perigoso Adeus é uma representação perfeita da distopia americana da década de 1970.

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  1. Mundo ao Telefone (Welt am Draht, dir. Rainer Werner Fassbinder, 1973)

Precursor de Matrix, O Mundo ao Telefone é a incursão de Fassbinder na ficção-científica. Em algum momento no futuro, o computador Simulacron se torna capaz de simular uma realidade completa. No entanto, a morte de Henry Vollmer, líder do projeto, e o desaparecimento do seu amigo Guenther Lause, leva a uma série de questionamentos em relação à natureza da experiência.

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7 e 8. Poor Cinderella (dir. Dave Fleischer, 1934) e Zolushka (dir. Nadezhda Kosheverova e Mikhail Shapiro, 1947)

Cinderela é uma das narrativas que existem em maior variedade de versões desde a tradição oral até a era da indústria midiática. É o conto de fada dos contos de fada e eu poderia fazer uma lista exclusiva para filmes baseados nessa história. Tanto que, mesmo para esta lista, não resisti a escolher dois. O primeiro é o maravilhoso curta de animação estrelado por Betty Boop. Poor Cinderella é definitivamente o melhor filme produzido pelo estúdio Fleischer e uma boa espiada no caminho que o cinema de animação poderia ter seguido — aproveitando sua característica bidimensional para misturar personagens a padrões do cenário — se Branca de Neve e os 7 Anões não tivesse revolucionado o gênero por completo.

Zolushka é a versão soviética do conto. Gosto especialmente de como o filme assume o esquema estético de um livro infantil (com cores e proporções distantes da realidade), mais ou menos como O Mágico de Oz fez alguns anos antes dele (e de maneira consideravelmente mais sofisticada). É doce também ver a representação levemente marxista da madrasta e das irmãs de Cinderela.

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9. Cavadoras de Ouro (Gold Diggers of 1933, dir. Mervyn LeRoy, 1933)

Cavadoras de Ouro pertence à primeira fase do cinema musical Hollywoodiano, o musical backstage e, como vários desses filmes, conta com a direção de coreografia de Busby Berkeley, caracterizada por um efeito particularmente cinematográfico — a estrutura de suas coreografias, embora sejam representadas como números teatrais, quebram a diegese dos palcos ao favorecer construção cênica e pontos de vista cinematográficos. Além disso, Cavadoras de Ouro enfrenta a crise e reconhece a própria expectativa escapista em torno do cinema musical, como se percebe pela sua genial abertura, o número “We’re in the Money”.

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10. Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, dir. Nicholas Ray, 1951)

Cinzas que Queimas é um dos melhores filmes do gênero noir e também mais interessante que alguns dos cânones de Nicholas Ray. Um policial da capital, Jim Wilson (Robert Ryan) é mandado ao interior para investigar a morte de uma jovem. Lá, ele conhece Mary Malden (Ida Lupino, que assumiu a direção do filme quando Ray adoeceu), irmã do principal suspeito e cega. O filme explora aquela melancolia usual da dicotomia entre o interior e a grande cidade.

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11. Como Eliminar Seu Chefe (Nine to Five, dir. Colin Higgins, 1980)

Como Eliminar seu Chefe é um tipo de farsa feminista baseada em uma história de Patricia Resnick, ativista lésbica que se associou a Robert Altman nos anos 1970, colaborando inclusive com o roteiro de Três Mulheres, um dos melhores filmes do diretor. O filme não foi de maneira alguma um fracasso de bilheteria, na verdade foi o segundo filme mais lucrativo de 1980, atrás apenas de O Império Contra Ataca. Mas o coloquei nesta lista porque conheço pouquíssimas pessoas da minha geração que tenham visto o filme, apesar de ele ter uma abordagem bastante atual (e militante) do tema. Três mulheres estão fartas dos assédios de seu chefe e arquitetam um plano para sequestrá-lo e assumir a direção da empresa em seu lugar, imediatamente diminuindo a jornada de trabalho e estabelecendo salários iguais para todos, o que aumenta a eficiência da companhia.

 


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