Milos Morpha

por Cesar Castanha

O que o brasileiro pensa?
28 de dezembro de 2013, 14h19

A delicadeza da memória

Diane Krueger e Michael Fassbender em Bastardos Inglórios

Por sua releitura da escravidão nos EUA — o fantasioso Django Livre —,  Quentin Tarantino enfrentou acusações de ter banalizado um período traumático da história americana. As críticas — incluindo a famosa recusa de Spike Lee de ver o filme, alegando que o que aconteceu com os seus ancestrais (Lee é negro e diretor de filmes icônicos no trato da contemporânea segregação racial no meio urbano americano, como Faça a Coisa Certa) foi um Holocausto e não um western spaghetti — aprofundam uma discussão que já foi ensaiada quando do lançamento de Bastardos Inglórios, a consideração de que, com um passado traumático, não se brinca.

É uma constatação interessante e não contradiz com a produção cinematográfica atual. Não há muitas mais comédias de época. Riu-se bastante das guerras que carregaram o século XX até meados dos anos 1970 com o humor inteligente de tipos como Mario Monicelli, Mel Brooks e Robert Altman. Mas é um trato muito diferente, muito mais distante, por exemplo, do microuniverso criado por Wes Anderson para tratar da Guerra do Vietnã no aclamado Moonrise Kingdom.

O tom dos filmes de Tarantino se aproxima mais do sarcasmo das comédias de guerra que da delicadeza do último Anderson. Embora nem Bastardos nem Djangosejam comédias de fato, o primeiro é uma história de vingança, e o segundo, um estranho filme-denúncia com referências bruscas e ingênuas ao western spaghetti. E, se o banho de sangue de Django causa repulsa pela banalização da violência, a reconstrução da Segunda Guerra de Bastardos resultou em um pequeno debate sobre a liberdade criativa com os fatos históricos.

Bastardos Inglórios, como quase todo filme americano ambientado no mesmo período, divide os personagens entre o heroísmo e a pura maldade. O que faz de diferente é dar a uma personagem judia o sabor de uma vingança que historicamente nunca tomou lugar. Um amigo judeu definiu sua experiência do filme como uma em que “sentiu seus ancestrais vingados”. Certamente, Bastardosé de uma nostalgia revigorante, o ato de tomar o passado por algo que não foi, uma crítica comum aos filmes de época e ao sentimento nostálgico em si, é pelo filme e por seus fãs celebrado.

Mas o cinema nostálgico com a Segunda Guerra não é uma exclusividade dos antigos Aliados. Durante os anos 1970, ao estabelecerem o que foi chamado o Novo Cinema Alemão — uma reconstrução intencional da identidade cinematográfica alemã —, alguns diretores, mais notoriamente Rainer Werner Fassbinder, trouxeram à tona a época por eles muito brevemente ou não vivida da geração de seus pais. Em alguns, a Guerra era um meio para o desenvolvimento de personagens fortemente influenciados por ela (O Casamento de Maria Braun, Lili Marlene), em outros era excentricamente dissecada (Hitler, uma História da Alemanha).

As reminiscências humanas dessa geração representam o cinema alemão até hoje. Uma delas, Margarethe Von Trotta, dirigiu recentemente uma cinebiografia de Hannah Arendt. Aí está um símbolo interessante da nostalgia crítica. Arendt, judia e alemã, foi mandada a Israel pela The New Yorker para cobrir o julgamento ilegal de Adolf Eichmann em 1961, resultando no famigerado artigo em que contradiz o senso comum, que demonizou Eichmann, definindo-o como “terrível e horrivelmente normal” e um burocrata e ainda questionando a colaboração de lideranças judaicas para o Holocausto.

Ao jogar a luz sobre esse episódio apenas três anos depois do icônico, exasperado e efusivo Bastardos Inglórios, Von Trotta forma um interessante paralelismo com a sua personagem. Não é um paralelo particularmente espetacular, principalmente se você considerar que o cinema nostálgico é uma insistente expressão cinematográfica da memória.

O que me fascina é o embate. É como uma memória parece rejeitar e violentamente contradizer a outra, é o que Spike Lee tem a dizer a Tarantino sobre um episódio que nenhum dos dois viveu, o como Arendt e o cinema alemão com muita dificuldade se expõem ao rancor mundial. É a dor da saudade misturada à dor da raiva e possivelmente sendo elas uma só. Fascinante.

Cena do filme Hannah Arendt


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