Milos Morpha

por Cesar Castanha

05 de outubro de 2014, 16h19

A nova comédia feminina – tentativas de representação feminista em Hollywood

Rosalind Russell e Cary Grant em Jejum de Amor
A comédia-romântica, como gênero que surgiu no cinema falado, tradicionalmente coloca a seus diálogos e roteiros uma importância ímpar. É crucial para os filmes do gênero que os personagens falem e o que eles falam. Além disso, é um gênero tradicionalmente feminino, no sentido de trazer mulheres como protagonistas. Quando a fala constante encontra a importância de personagens mulheres, a consequência inevitável é uma abordagem não feminista, mas do feminismo. A própria necessidade de fortalecer a mulher dentro do filme questiona o seu papel fora do filme, se não, necessariamente, cria uma noção enganosa dele.

As Três Noites de Eva, Jejum de Amor, Núpcias de um Escândalo e A Costela de Adão são alguns dos primeiros a abraçar o discurso girl power na comédia hollywoodiana. As maneiras como escolhem colocar esse discurso ainda são utilizadas até hoje: a vingança amorosa feminina, o sucesso profissional, o controle sobre o relacionamento e a disputa por igual reconhecimento na sociedade.

Nas últimas décadas, o movimento feminista tem cada vez mais ocupado um lugar idealizado no senso comum. No show business, é consenso a importância do movimento. A divergência está no que se entende como feminismo e em como alcançá-lo na produção artística de massa. Como resultado, temos filmes que levantam bandeiras do movimento feminista utilizando, pala ilustrar a própria causa, representações questionáveis da mulher. A vingança feminina é perigosa quando tende a colocar o interesse romântico masculino como centro de uma obsessão e o sucesso profissional às vezes implica numa personagem fria e assexualizada.

O atual filme feminista procura o discurso militante em outros pontos. Os mais importantes deles são: a negação da rivalidade entre mulheres e uma consequente busca por fraternidade como modo de resistência à opressão, a reafirmação da feminilidade e dos desejos sexuais da mulher e a luta contra o moralismo misógino.

Antes de apresentar os filmes, é importante salientar que não entendo nenhum deles como sendo completamente feministas. Ou seja, todos têm seus equívocos de representação ─ falhas pode não ser o termo mais adequado. A importância deles está principalmente em possibilitar discussão sobre o feminismo, mesmo que essa discussão eventualmente se volte contra eles ─ o que já aconteceu antes, em casos como o de Núpcias de um Escândalo, e pode voltar a acontecer, e isso é bom, mostra que o movimento evolui, radicaliza-se, torna-se mais intolerante com a misoginia.

Reese Witherspoon em Legalmente Loira

Para ampliar a discussão, trago oito comédias-românticas contemporâneas que buscam o discurso feminista. As seis primeiras são casos que considero bem-sucedidos, as duas últimas não, como colocarei nas justificativas.

Legalmente Loira (2001):

Uma estratégia da nova comédia feminina que se repete nessa lista é apresentar a trama a partir de lugares e personagens tradicionais: protagonistas femininas e misóginas, que esperam ter suas ações motivadas por figuras masculinas. Em Legalmente Loira, Elle Woods (Reese Whiterspoon) levou um fora do namorado porque este não a considera “séria o bastante” para acompanhá-lo em seus planos de sucesso político. Woods decide segui-lo à universidade de Direito em Harvard como para provar a ele que ela pode ser sim a mulher que ele procura. À medida que a protagonista vai se entendendo como sujeito independente de uma figura masculina e ganhando autonomia na trama, tomando decisões que não estão ligadas à paixão pelo ex-namorado, o filme vai confrontando os nossos preconceitos e misoginia com a identidade feminina, a feminilidade. Um dos momentos mais bonitos do filme é quando Elle Woods enfrenta seu professor e colegas de estágio em defesa de uma jovem acusada de matar o marido muito mais velho e milionário. É um momento forte no combate a estereótipos ─ ainda que, na construção de caricaturas do filme, alguns aspectos desse mesmo estereótipo sejam reforçados.

Lindsay Lohan, Amanda Seyfried, Lacey Chabert e Rachel McAdams em Meninas Malvadas

Meninas Malvadas (2004):

É raro na atual comédia hollywoodiana que o diretor seja reconhecido como autor. Normalmente, a autoria cai sobre o roteirista e até sobre o elenco ─ quando composto de nomes fortes ou com liberdade para improvisação. No caso de Meninas Malvadas, o caráter autoral do texto de Tina Fey é evidente. Não poucas vezes, Fey repudiou publicamente o machismo no humor americano. Criticou Jerry Lewis, ícone no país, por sua famosa declaração que “mulheres não são engraçadas”, uma noção que permeou a tradição do humor ocidental. Na sua espetacular autobiografia, Bossypants, ela coloca o apoio a mulheres na política e pautas feministas como fundamentais. A sua representação crítica de Sarah Pallin foi aclamada, e Fey foi contra a posterior participação da candidata a vice-presidente no Saturday Night Live porque acreditava que poderia sugerir certa ambiguidade política. Ao adaptar a tese Queen Bees and Wannabes, de Rosalind Wiseman, para o cinema, Fey se posicionou contra uma representação da vivência feminina enraizada na cultura contemporânea (que tem um estranho orgulho das palavras recalque e inveja) da rivalidade entre mulheres. Assim como a tese, Meninas Malvadas também critica o sistema educacional americano, que incentiva a falta de solidariedade através competições estúpidas e não confia na independência e senso crítico de seus jovens.

Amy Adams em Encantada

Encantada (2007):

Uma das evidências de que a necessidade do feminismo hoje é bastante reconhecida na cultura do show business é a existência do Bechdel Test, criado pela quadrinista sueca Alison Bechdel. Para um filme passar no Bechdel Test, basta ter um diálogo entre duas mulheres adultas em que não se discuta interesses amorosos por uma figura masculina. Lógico que isso não é o bastante. Mas ainda é assustadora a quantidade de filmes contemporâneos que não conseguem essa aprovação. Dos filmes que considero bem-sucedidos na busca pelo feminismo, Encantada é o único que não passa no teste. É preciso lembrar disso para reconhecer suas limitações. Mas, perdoe-me a inocência, quero celebrar o pequeno passo dado pelo filme. A princesa Giselle é uma brincadeira da Disney com seus próprios personagens. Ela está sempre a espera de um príncipe que a resgate pelo braço forte do amor verdadeiro e tradicional. Há várias referências a animações clássicas do estúdio, como Cinderela, A Bela e a Fera e Branca de Neve. No final do filme, Encantada faz uma releitura do clímax de A Bela Adormecida, em que o príncipe luta contra Malévola transformada em dragão. Encantada reverte a fórmula, colocando Giselle para resgatar o príncipe em perigo, com vestido de baile e espada na mão. É pouco. Mas é um belo momento e um belo esforço do estúdio.
Emma Stone em A Mentira

A Mentira (2010):

Um clássico dos anos 1990 que certamente teria entrado nessa lista se não fosse pela distância de tempo, As Patricinhas de Bervely Hills, é uma releitura contemporânea de Emma, de Jane Austen. Austen não era nenhuma Virginia Woolf. Digo, ela escrevia paraa burguesia machista da Inglaterra. Mas seus livros, na própria estética do realismo literário que adotam, são muito justos na representação feminina e dos problemas de uma sociedade que espera a mesma coisa de todas as mulheres. A Mentira é inspirado livremente no romance A Letra Escalarte, que critica o moralismo americano do século XIX. É muito interessante como A Mentira traz as questões do romance para a contemporaneidade, rejeitando a identificação da mulher sexualizada como amoral e pouco digna de respeito.


Missão Madrinha de Casamento (2011):

Mas uma roteirista reconhecida como autora, Kristen Wiig dá continuidade ao tipo de comédia de humor negro, mas delicado, que é geralmente associado ao time de Judd Apatow, também produtor deste filme. Missão Madrinha de Casamento só tem um personagem masculino significativo. É um filme que não teve nenhuma dificuldade de passar no Bechdel Test. O romance em Missão Madrinha de Casamento não é uma questão centrada no homem, mas na protagonista. Nas decepções dela, necessidades e desejos dela. O casal estar junto ou não ao final do filme é uma decisão que cabe aos dois mutualmente, e o roteiro respeita isso. Dá espaço para ambos. Não a julga em seu apetite sexual. Não a culpa pelos seus problemas financeiros, embora reconheça que só ela pode tirar a si mesma da situação em que está. Ela não é resgatada da depressão pelo amor, mas sim por ela mesma. A paixão que encontra é só uma feliz coincidência.
Cameron Diaz em Uma Professora Sem Classe

Uma Professora Sem Classe (2011):

Um manifesto contra a moral e os bons-costumes. Este filme é uma deliciosa ridicularização da hipocrisia americana e da meritocracia tão idolatrada pelo país. Cameron Diaz é essencial para o filme. A personagem típica da atriz é normalmente um tanto sexualizada e ressalta a ideia da mulher forte e independente. O trajeto de uma personagem usual de Cameron Diaz não está em achar o amor, mas em reconhecê-lo e a importância dele para a vida dela. Em Uma Professora Sem Classe, ela usa drogas (e não para de usá-las ao final do filme), ela se recusa a planejar uma aula decente (só vai fazê-lo quando vê nisso uma vantagem financeira) e trapaceia na avaliação estadual de educação (e não é punida).

Ryan Reynolds e Sandra Bullock em A Proposta

Os dois filmes seguintes são aqueles nos quais percebo uma representação problemática do feminismo.

A Proposta (2009):

Uma das estratégias do filme feminino, como já dito, é apresentar sua protagonista como uma mulher empreendedora. O problema é quando, para construir o sucesso profissional da personagem, colocam-na como afetivamente fria e assexualizada, como se a figura masculina fosse necessária à mulher para que ela possa se tornar verdadeiramente completa. É o que acontece com a personagem de Sanda Bullock neste filme.

Mulheres ao Ataque (2014):

Um caso bem recente e bastante criticado de filme que se coloca como feminista, mas é cheio de misoginia. Três mulheres se descobrem traídas pelo mesmo homem e se juntam para planejar uma vingança. Só que nenhuma delas sabia da existência das outras, evidenciando o moralismo do filme. Outros problemas estão em colocar como errado o amor que uma delas ainda sente por ele ─ impossibilitando qualquer debate sobre a relação não monogâmica ─ e na desqualificação da personagem de Nick Minaj pela sua evidente sexualidade, colocando-a como fútil.

Leslie Mann, Cameron Diaz, Kate Upton em Mulheres ao Ataque


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