quarta-feira, 23 set 2020
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Another Year

Jim Broadment e Ruth Sheen em Um Ano a Mais

Primeiramente, eu peço desculpas. Sei que meu texto será atrapalhado, atropelado e entusiasmado para além do que deveria ser uma resenha crítica. Acabei de ver o filme e pra esse tipo de filme é necessário tempo e reflexão até que se escreva sobre ele. Mas me conheço, sei que se não escrever agora, no calor do momento, termino não escrevendo é nunca.

Pra começar, Another Year é um filme de Mike Leigh (Segredos e Mentiras, Simplesmente Feliz), diretor espetacular que, como muitos outros, tem talento de mais e reconhecimento de menos. O longa traz como casal de protagonistas Tom (Jim Broadment) e Gerri (Ruth Sheen), sua relação com os familiares e com a insegura colega de trabalho de Gerri, Mary (Leslei Manville). O filme se passa durante o ano e divide seus atos de acordo com as estações do ano.

Assim como de costume nos filmes de Leigh, ele traz o cotidiano para as telas com um poderoso roteiro. Sabe resgatar do dia a dia de pessoas comuns histórias e sentimentos fascinantes. A identificação e a conexão que ele cria em seus personagens com o público são agonizantes. Pois ninguém quer se identificar com seus personagens, nisso Leigh é cruel e impiedoso, não poupa uma única pessoa no cinema de encarar suas próprias neuroses, solidões e inseguranças.

Quanto ao elenco, como sempre em seus filmes, se mostram talentosos e frutos de uma direção firme e confiante. Ruth Sheen e Lesley Manville dão um tom forte de veracidade a suas personagens, o trabalho da segunda junto com Leigh é notável, sua atuação é extremamente equilibrada, onde outras atrizes puxariam para a caricatura ela puxa para um profundo perfil psicológico cheio de nuances não tão simples quanto um berro ou um choro.

Fica para quem aqui ler uma recomendação que conheçam este diretor e o lamento de que prêmios como o Oscar insistam em ignorá-lo em prol dos queridinhos do público como 127 horas e A Origem. Another Year foi certamente um dos maiores filmes do ano passado.

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.