Milos Morpha

por Cesar Castanha

Fórumcast, o podcast da Fórum
04 de fevereiro de 2016, 09h29

Apanhado do Cinema 2015

f1dd5bea-5f6a-4f15-ad81-6bd467cfeebd-1020x574

Táxi Teerã propõe uma questão: por que filmamos? O cinema, como uma arte agora já centenária, tem aprofundado esse questionamento já há algumas gerações. E boa parte do cinema contemporâneo tem se motivado a partir dessa questão. A obra-prima de Jafar Panahi é uma belíssima e delicada reflexão sobre o cinema, principalmente sobre o seu potencial político.

Filme:
1) Táxi Teerã
2) Jauja
3) World of Tomorrow
4) Tangerina
5) 45 Anos
6) O Amor É Estranho
7) Phoenix
8) Mad Max: Estrada da Fúria
9) A Assassina
10) Mistress America

Screen_Shot_2015-02-16_at_4.50.35_PM.0.0

“O cinema de Don Hertzfeldt existe em um mundo paralelo, onde o cinema é matéria e o quadro limita, transforma e interage. É um cinema de relevo, que trabalha com a textura e a humanidade, desde a metalinguagem de Rejected ao universo de The Meaning of Life. World of Tomorrow é o ápice de sua obra e nenhum autor seria suficiente além de Don em seu mundo estranho, alternativo e sincero”, Phillip Gruneich, graduado em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Direção:
1) Don Hertzfeldt (World of Tomorrow)
2) Jafar Panahi (Táxi Teerã)
3) Lisandro Alonso (Jauja)
4) Chantal Akerman (Não É um Filme Caseiro)
5) Andrew Haigh (45 Anos)

queen1

“O mundo visto por Alex Ross Perry não é um ambiente para poucos, assim como não são seus personagens. Invariavelmente investido em histórias difíceis sobre pessoas amargas, Perry parece ter encontrado em Elisabeth Moss o agente perfeito para carregar o fardo de suas ideias. Se em Cala a Boca, Philip isto se apresentava apenas como um ensaio, Rainha do Mundo marca uma parceria que, para além de evidenciar o talento do diretor, firma Moss como um dos maiores nomes de seu tempo. Num perpétuo embate com Katherine Warterston e Patrick Fugit, as nuances que Moss emprega para fazer da sua personagem alguém compreensivelmente histérico, perdido e perigoso são de encher os olhos. Fossem as competições realmente honestas, ninguém conseguiria tirar dela o título de melhor atuação de 2015″, Felipe André Silva, crítico no site Lavoura e diretor dos filmes Santa Monica O Ídolo Caído.

Atriz:
1) Elizabeth Moss (Rainha do Mundo)
2) Charlote Rampling (45 Anos)
3) Nina Hoss (Phoenix)
4) Karidja Toure (Garotas)
5) Rooney Mara (Carol)

creed-3-xlarge

“Em Creed: Nascido para Lutar, Rocky Balboa (Sylvester Stallone) surge septuagenário vivendo quase recluso, à sombra de um passado de glória se esquivando de seus fantasmas, tudo o que ele mais estimava e ficou pelo caminho. Rocky, no entanto, não é o centro do filme. Ele é um dorido e desesperançado homem exposto por trás da fachada do mito que um garoto, Adonis Johnson (Michael B. Jordan), resgata do ostracismo pra ajudá-lo a lutar – contra adversários no ringue mas também contra o passado. Stallone é o coração do filme, mas é Michael B. Jordan quem o provém da fúria e da dor que o tornam tão pungente. Um desempenho em carne viva que o situa entre os melhores de sua geração”, Silrone Lima.

Ator:
1) Michael B. Jordan (Creed)
2) John Lithgow (O Amor É Estranho)
3) Tom Courtenay (45 Anos)
4) Michael Fassbender (Macbeth)
5) Haluk Bilginer (Winter Sleep)

listenupphilip2-xlarge

O cinema de Alex Ross Perry é também um estudo sobre o privilégio e a arrogância da suposta intelectualidade de uma classe. A atuação fantástica de Jonathan Pryce sintetiza essas questões em Cala a Boca, Philip, em que interpreta Zimmerman, um escritor celebrado e estúpido. A genialidade do trabalho de Pryce está na relação de mentor que seu personagem estabelece com o protagonista, Phillip (Jason Schwartzman), e no constraste dessa relação com a que ele mantém com sua filha (Krysten Ritter).

Ator Coadjuvante:
1) Jonathan Pryce (Cala a Boca, Philip)
2) Adam Driver (Star Wars: O Despertar da Força)
3) Ronald Zehrfeld (Phoenix)
4) Sylvester Stallone (Creed)
5) Jason Segel (O Fim da Turnê)

lead_new

“Alguns atores e atrizes são força. Representam a condução do filme através de olhares, promovem uma conexão necessária em meio ao caos, seja ele qual for. Tangerina é, certamente, caótico, em diversos sentidos, e tudo é amarrado e compreendido pelo olhar de Mya Taylor. Enquanto Alexandra, sua personagem, espera pela amiga, sua frustração, mas também compreensão, estão em seus olhos. Quando Alexandra chora ao confessar um erro, seus olhos revelam vergonha, mas também um apelo muito forte de ‘não desista’. Tangerina, pra mim, é isso. É uma grande obra pela resistência através da cumplicidade, da compreensão, das trocas de olhares. Quem nos guia (e guia a Sin-Dee) por esse caos é Alexandra, é Mya Taylor, que abraça o papel como quem compreende sua importância. E o faz com um carinho enorme, mas com convicção de uma atriz veterana – só que é seu primeiro papel no cinema. Uma estreia notável, uma das grandes atuações do cinema do nosso tempo”, Pedro de Alencar, graduado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense.

Atriz Coadjuvante:
1) Mya Taylor (Tangerina)
2) Elizabeth Moss (Cala a Boca, Philip)
3) Jennifer Jason Leigh (Anomalisa)
4) Katherine Waterston (Vício Inerente)
5) Katherine Waterston (Rainha do Mundo)

screen-shot-2015-04-30-at-3-37-04-pm-e1430422765852

“Tangerina é um acontecimento do cinema recente e muito disso se deve ao seu elenco. Através da melancolia de uma Los Angeles que Hollywood esconde, somos levados numa odisseia por figuras marginalizadas e esquecidas pelo cinema yankee. Atores profissionais e não profissionais se misturam nesse mosaico e imprimem humanidade em cada um daqueles personagens. Como é dito em determinada cena, Kitana Kiki Rodriguez, assim como sua Sin-Dee, é um trem desgovernado e Kiki consegue transmitir tanto essa euforia quanto os conflitos internos por quais ela passa de forma impressionante. Valeria mencionar muitos destaques no elenco, como a atriz que faz Dinah, o armênio Razmik e sua sogra, no entanto o grande triunfo de Tangerina fica com Mya Taylor, que dá vida à Alexandra, amiga de Sin-Dee. Mya entrega uma performance que pulsa tanto a marginalidade de uma trans que vive nas ruas quanto a classe e a delicadeza de uma musa do cinema clássico. E esse contraponto só enriquece sua personagem e o filme num todo”, Leandro Correia, crítico no site Dias de Cinefilia, previsto para ser aberto no próximo dia 21.

Elenco:
1) Tangerina
2) Cala a Boca, Philip
3) Garotas
4) Mistress America
5) Vício Inerente

Tehran Taxi_Still_ by Jafar Panahi-0-800-0-450-crop

Um conjunto de passageiros revelam um quadro de militância e inquietude no Irã contemporâneo em Táxi Teerã. Uma personagem é forçada a estudar a si mesmo pelo olhar do outro num momento de reconstrução do mundo em Phoenix. Em um roteiro familiar como o de um Ozu moderno, Ira Sachs e Mauricio Zacharias trazem com O Amor É Estranho uma face dolorosa e íntima da crise americana. Mistress America se utiliza de símbolos do atual cinema independente mainstream para revisitar personagens do cinema clássico de Hollywood. E Rainha do Mundo busca o desespero da sua protagonista para lutar contra a sua possível insignificância. Estes são alguns dos grandes roteiros do ano.

Roteiro:
1) Táxi Teerã
2) Phoenix
3) O Amor é Estranho
4) Mistress America
5) Rainha do Mundo

Tangerine_Still-0-2000-0-1125-crop

O caos e o ritmo de uma única e constante batida em Tangerina. O estranhamento de uma narrativa que busca seus motivos em A Assassina. Um filme que treme, histérico, gritando a urgência da sua trama em Mad Max: Estrada da Fúria. A força da inconstância, da loucura provocada pela sociedade do capital em Vício Inerente. E o encontro entre a sensibilidade de um bom Woody Allen e o fluxo de John Cassavetes em Cala a Boca, Philip, estes são alguns dos melhores trabalhos de montagem do ano.

Montagem:
1) Tangerina
2) A Assassina
3) Mad Max: Estrada da Fúria
4) Vício Inerente
5) Cara a Boca, Philip

tangerine1

Filmado em IPhone, a imagem de Tangerina é de uma Los Angeles que procura o seu significado como cidade/cenário/palco e como própria imagem. A cidade recebe um tratamento vivo e sujo, revelando uma estética ansiosa e necessária e, como suas personagens, à margem do cinema cânone.

Fotografia:
1) Tangerina
2) Jauja
3) A Assassina
4) 45 Anos
5) Mad Max: Estrada da Fúria

B8851615Z.1_20160128124945_000G9EAONFE.2-0_tx600

 

Toda a investigação que Kate (Charlotte Rampling) vai construindo sobre o passado do marido na semana que antecede o aniversário de 45 anos de seu casamento encontra uma catarse quando ela dança ao som de Smoke Gets in Your Eyes. Não bastando isso, o toque de gênio do diretor Andrew Haigh está no corte brusco para os créditos ao fim da música e para a música que sabíamos seguir essa na festa, Happy Together, fazendo com que os personagens ressoem, para além do filme, no cinema.

Trilha Sonora Adaptada:
1) 45 Anos
2) Pássaro Branco na Nevasca
3) Vício Inerente

rmara

A trilha sonora de Carter Burwell para Carol é como o próprio filme: uma tentativa de trazer de volta um cinema e libertá-lo de sua época.

Trilha Sonora Original:
1) Carol
2) O Duque de Burgundy
3) Shaun, o Carneiro

1401x788-079-ANOMALISA-011R

Em Anomalisa, o protagonista passa por uma crise de meia idade. Para ele, todas as outras pessoas são iguais, menos uma. Para isso, o filme joga com o conflito sonoro entre as três vozes que participam da dublagem. E o som dessas vozes é para ele o que há de mais importante, fazendo-se sentido, tomando as imagens quando todo o resto é silêncio.

Trabalho de Som:
1) Anomalisa
2) Mad Max: Estrada da Fúria
3) World of Tomorrow

tumblr_nn0122WaBu1qzoziho2_1280

“Quando é divertido, como em Rejected, o cinema de Don Hertzfeldt é bastante trágico. Quando é abertamente trágico, como em sua obra prima It’s Such a Beautiful Day, ele se torna quase insuportavelmente triste. Nos dois casos a beleza (plástica e humana) de seu cinema sempre se sobressai. Em World of Tomorrow, a sensação é a de estar habitando o limiar entre estes mundos tão extremos. Existe muita tristeza na visão apocalíptica e decadente do futuro como um espaço sem respeito pelo sentir e pelo viver, mas ainda há muito humor -ácido, é verdade- para amenizar a situação. Assim como aconteceu em sua primeira indicação, Don deve perder o Oscar a qual foi indicado para algum filme ‘bonito’. Talvez a enorme beleza de sua obra esteja tão evidente que muita gente não consegue enxergar”, Felipe André Silva.

Curta ou Média-metragem:
1) World of Tomorrow (dir. Don Hertzfeldt)
2) Quintal (dir. André Novais)
3) Miragem (dir. Virgínia Pinho)

nohomemove2-1600x900-c-default

Chantal Akerman se despede de sua mãe e do cinema. Um filme sobre despedida, o mais belo canto do cisne.

Documentário:
1) Não é um filme caseiro (dir. Chantal Akerman)
2) A Academia das Musas (dir. José Luis Guerin)
3) Últimas Conversas (dir. Eduardo Coutinho)

WorldOfTomorrow

World of Tomorrow tem uma própria maneira de olhar para a sua personagem, representada em dois tempos. O filme, assim como Anomalisa é cheio de dor, desespero e desesperança. Já Shaun, o Carneiro vai às raízes da narrativa audiovisual infantil para contar uma história que serve quase como defesa do cinema.

Animação:
1) World of Tomorrow (dir. Don Hertzfeldt)
2) Anomalisa (dir. Duke Johnson e Charlie Kaufman)
3) Shaun, o Carneiro (dir. Mark Burton e Richard Starzak)

535669098_1280x720

Thales Junqueira, o diretor de arte de A Seita, leva o imaginário dândi ao Recife de 2040.

Cenografia:
1) A Seita
2) O Duque de Burgundy
3) A Assassina
4) Carol
5) Pássaro Branco na Nevasca

ASSASSIN (THE)_5-0-2000-0-1125-crop

Figurino, Cabelo e Maquiagem:
1) A Assassina
2) A Seita
3) Carol
4) Cinderela
5) Mad Max: Estrada da Fúria

Mad-Max-Fury-Road-Guitar-Player-Doof-Warrior

Production Design:
1) Mad Max: Estrada da Fúria
2) Ex Machina
3) Cinderela
4) Star Wars: O Despertar da Força
5) Vício Inerente

Menção Honrosa:

Dois filmes filmes muito bonitos e muito diferentes sobre o Recife que merecem ser (re)descobertos.

Amigos de Risco (dir. Daniel Bandeira) e Santa Monica (dir. Felipe André Silva)

Apanhado do Cinema 2014

Apanhado do Cinema 2013

Apanhado do Cinema 2012

Apanhado do Cinema 2011

 


Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum