Milos Morpha

por Cesar Castanha

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22 de janeiro de 2020, 00h05

Apanhado do Cinema 2019

Segue o nono levantamento anual, realizado pelo blog Milos Morpha; acompanhe os destaques do ano passado

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O fenômeno que me parece mais interessante do ano que passou em relação ao cinema é que os chamados “filmes do ano” foram amplamente assistidos, comentados e discutidos. Bacurau (dir. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles), Coringa (dir. Todd Phillips), Parasita (dir. Bong Joon Ho), O Irlandês (dir. Martin Scorsese), Era uma Vez em… Hollywood (dir. Quentin Tarantino), Democracia em Vertigem (dir. Petra Costa), A Vida Invisível (dir. Karim Aïnouz) e, mais recentemente, Retrato de uma Jovem em Chamas (dir. Céline Sciamma) foram alguns dos filmes que fizeram parte de uma discussão disseminada sobre cinema e sobre as várias relações do cinema com o contemporâneo. Com estas listas, o nono “apanhado” desta página, revejo algumas das coisas que me tocaram do cinema e da televisão de 2019 para também, talvez, inserir outros filmes e produtos audiovisuais nessa boa conversa.

“Leningrado, primeiro outono após a Guerra”. É dito que Uma Mulher Alta (dir. Kantemir Balagov) é livremente inspirado pelo livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, de Svetlana Alexijevich, sobre as combatentes e partisans mulheres na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Ambos, filme e livro, são excepcionais. Mas me parece que há uma diferença fundamental: enquanto o livro de Alexijevich, a partir do depoimento das mulheres que encontra, narra um sacrifício que não é desprovido de algum heroísmo, em Uma Mulher Alta o horror da Guerra deixa para trás apenas dor e incompreensão, uma rasura na vida das personagens, como a textura de suas roupas ou a cor mal pintada na parede.

Filme:

  1. Uma Mulher Alta
  2. Atlantique
  3. High Life
  4. O Irlandês
  5. Sete Anos em Maio
  6. The Souvenir
  7. Retrato de uma Jovem em Chamas
  8. Entre Facas e Segredos
  9. So Pretty
  10. No Interior do Alabama: A Vida em Hale County

Em Uma Mulher Altar, apenas o segundo filme de Kantemir Balagov, o diretor materializa, no movimento do cinema, a imobilidade e a estagnação na vida de suas personagens. Como filmar uma cena de dança quando os corpos dos pares estão tomados pelos traumas de uma Guerra? Como apresentar os toques de quem já perdeu tudo o que desejou? O movimento, em Balagov, desestabiliza a desesperança enquanto a confronta – nunca, no entanto, para acobertar a dor que ela produz.

Direção:

  1. Kantemir Balagov (Uma Mulher Alta)
  2. Mati Diop (Atlantique)
  3. Claire Denis (High Life)
  4. Martin Scorsese (O Irlandês)
  5. Joanna Hogg (The Souvenir)

O trabalho de Lupita Nyong’O em Nós (dir. Jordan Peele) não é apenas o de interpretar duas personagens, mas o de incorporar duas dualidades distintas em duas diferentes figuras (Adelaide e Red). Enquanto as pessoas da América de Peele vivem alienadas do seu outro, é a personagem de Nyong’O, e apenas ela, que é consciente sobre a encenação que incorpora. No filme, para os personagens em geral, o horror do que acontece vem do outro, do seu duplo inesperado; mas esse mesmo horror já está presente desde o início na Adelaide de Nyong’O, um corpo posto em cena como estranho e duvidoso.

Atriz:

  1. Lupita Nyong’O (Nós)
  2. Michelle Williams (Fosse/Verdon)
  3. Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres)
  4. Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
  5. Florence Pugh (Midsommar: O Mal Não Espera a Noite)

Não é só coincidência que três das grandes atuações do ano sejam de filmes de horror. Lupita Nyong’O, Florence Pugh e Robert Pattinson se dedicam, afinal, a incorporar o estranhamento, a inquietação e o desconforto. Em O Farol (dir. Robert Eggers), Pattinson entrega a melhor atuação da sua carreira como um homem que não deseja nada além de se lançar fora desse cenário de fantasia em que foi inserido e que sustenta a partir da repetição de processos de trabalho incorporado. Em certo sentido, o filme é sobre a imagem como clausura da qual um homem está desesperado para se libertar.

Ator:

  1. Robert Pattinson (O Farol)
  2. Leonardo DiCaprio (Era uma Vez em… Hollywood)
  3. Adam Driver (História de um Casamento)
  4. Robert DeNiro (O Irlandês)
  5. Regis Myrupu (A Febre)

Em uma narrativa como a de Uma Mulher Alta poderia ser fácil que o filme sucumbisse a uma piedade cínica por suas personagens. Mas, enquanto Balagov se recusa a reduzi-las a vítimas, esse tipo de piedade já não teria vez na interpretação de Vasilisa Perelygina para Macha. No trabalho da atriz, a personagem se eleva de um produto de circunstâncias difíceis para uma agente da sua própria vida, do espaço que habita e da comunidade que se estabelece depois da Guerra.

Atriz Coadjuvante:

  1. Vasilisa Perelygina (Uma Mulher Alta)
  2. Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)
  3. Elizabeth Reaser (Easy)
  4. Julia Stockler (A Vida Invisível)
  5. Adèle Haenel (Retrato de uma Jovem em Chamas)

A terceira temporada de Maravilhosa Sra. Maisel é um acontecimento que flutua acima das anteriores: um olhar sério, ainda que bem-humorado, para a história do entretenimento nos EUA. A série cresce ao fazer presente (e não apenas referenciar) as visualidades e sonoridades midiáticas de um período reconhecendo as diferenças raciais, de sexualidade e de gênero que as constituem. Em meio a isso, temos Shy Baldwin, personagem de Leroy McClain, um cantor negro no auge do seu sucesso. McClain interpreta uma diva deslocada e abre um caminho para repensarmos esse arquivo do entretenimento e as presenças nele descobertas.

Ator Coadjuvante:

  1. Leroy McClain (Maravilhosa Sra. Maisel)
  2. Al Pacino (O Irlandês)
  3. Robert Pattinson (High Life)
  4. Daniel Craig (Entre Facas e Segredos)
  5. Taika Waititi (Jojo Rabbit)

Acho que ainda não temos uma completa dimensão da importância de Parasita (dir. Bong Joon-ho) estar ocupando os espaços que atualmente ocupa, dos números conquistados pelo filme e da recepção que ele tem tido em meios que costumam se satisfazer com uma celebração de si mesmos – esses “festivais locais”, como Bong Joon-ho brilhantemente se referiu a eles, que se pretendem representações do cinema mundial. O elenco é uma peça-chave da grandeza do filme, de uma coreografia meticulosa e ainda absolutamente criativa.

Elenco:

  1. Parasita
  2. Pose
  3. A Despedida
  4. Entre Facas e Segredos
  5. Adoráveis Mulheres

O realismo de Mati Diop se deixa desmoronar pela fantasia em Atlantique; um adorado gênero fílmico e literário é moralmente invertido em Entre Facas e Segredos (dir. Rian Johnson); e o trauma de uma comunidade é descrito nas escolhas de duas mulheres em Uma Mulher Alta.

Roteiro:

  1. Atlantique
  2. Entre Facas e Segredos
  3. Uma Mulher Alta
  4. Adoráveis Mulheres
  5. Retrato de uma Jovem em Chamas

Montagem:

  1. O Irlandês
  2. Atlantique
  3. Uma Mulher Alta
  4. So Pretty
  5. Ad Astra

Uma Mulher Alta é um filme que entende que as vivências mais difíceis não ocorrem desprovidas de produções afetivas, de cores, de texturas, de certa dimensão do espaço ou de um limite dado ao movimento. A fotografia do filme é o que permite trazer à presença situações inomináveis. É um trabalho que entende que o realismo não pode ser imaginado sem composição – porque ele é imaginado, afinal. Este é um olhar que compreende as texturas da cena.

Fotografia:

  1. Uma Mulher Alta
  2. The Souvenir
  3. High Life
  4. Retrato de uma Jovem em Chamas
  5. So Pretty

Já não tenho qualquer problema ou insegurança de me referir a Rebecca Sugar como a melhor compositora de produções musicais em atividade hoje. Ela compôs algumas das melhores canções da história da televisão em Hora da Aventura e seguiu adiante para criar uma fantasia musical com seres de luz extraterrestres na série Steven Universo. O filme, que parece ao menos encerrar um grande ciclo da série, é uma demonstração de sua excelência como compositora e também da maturidade adquirida por ela no seu domínio do musical como gênero fílmico e televisivo.

Trilha Sonora:

  1. Steven Universo: O Filme
  2. Estação do Diabo
  3. Nós
  4. História de um Casamento
  5. Jojo Rabbit

Sarah Stiles interpreta a espera e o abandono em Drift Away, na grande cena de Steven Universo: O Filme (dir. Rebecca Sugar); uma garota reimagina seu “Black Power” em Lily’s Hair (dir. Raphael Gustavo da Silva), um ótimo momento do cinema infantil brasileiro; e “Do-Dilly-Do (A Friend Like You)” dá o tom de um cinema de animação do qual percebo que posso sentir falta na conclusão de Link Perdido (dir. Chris Butler).

Canção:

  1. Drift Away (Steven Universo: O Filme)
  2. Black Power (Lily’s Hair)
  3. Do-Dilly-Do (A Friend Like You)” (Link Perdido)
  4. O, Aling Maria (Estação do Diabo)
  5. A Casa (Casa)

Os sons dos interiores, do movimento dos tecidos e de objetos utilitários ressignificam a clausura do espaço doméstico em Retrato de uma Jovem em Chamas; e recriar as sonoridades de um dos momentos mais brilhantes do uso do som no cinema, remixá-las, por assim dizer, é uma ambição muito particular de Suspiria: A Dança do Medo (dir. Luca Guadagnino).

Trabalho de Som:

  1. Retrato de uma Jovem em Chamas
  2. Suspiria: A Dança do Medo
  3. Koko-di Koko-da
  4. Zombi Child
  5. O Farol

Série ou minissérie:

  1. Better Things
  2. Fleabag
  3. Maravilhosa Sra. Maisel
  4. Caçador de Mentes
  5. Boneca Russa

Um plano para contar uma história: um rosto para o qual Sete Anos em Maio, novo filme de Affonso Uchôa (Arábia e A Vizinhança do Tigre), não tem receio de olhar longamente e esperar que, nele e no depoimento do personagem, desdobre-se a experiência como uma conversa, como se a câmera pudesse (e ousasse) ser um instrumento de igualdade, de partilha do espaço. Sete Anos em Maio me parece funcionar como um tipo de epílogo para Arábia. O que resta após o silêncio.

Curta ou média-metragem:

  1. Sete Anos em Maio (dir. Affonso Uchôa)
  2. Thinya (dir. Lia Letícia)
  3. Cinema Contemporâneo (dir. Felipe André Silva)
  4. Só Sei que Foi Assim (dir. Giovanna Muzel)
  5. Transborgs (dir. Lilit)

A proximidade da câmera é reexpressada em No Interior do Alabama: A Vida em Hale County (dir. RaMell Ross); a história de alguns meses de férias cria algo como um Faça Coisa Certa (dir. Spike Lee, 1989) no Rio de Janeiro em Um Filme de Verão (dir. Jô Serfaty); e a violência da imagem, e do cinema, materializa-se em Cinema Contemporâneo.

Documentário:

  1. No Interior do Alabama: A Vida em Hale County
  2. Um Filme de Verão
  3. Cinema Contemporâneo
  4. Honeyland
  5. Casa

Animação:

  1. Steven Universo: O Filme
  2. Link Perdido
  3. Só Sei que Foi Assim

A reconsideração de um arquivo midiático estadunidense toma cada detalhe nas imagens da terceira temporada de Maravilhosa Sra. Maisel; Jade Healy busca nos atrair para dentro das ambiências de Um Lindo Dia na Vizinhança (dir. Marielle Heller) e sua indistinção formal entre espaço cênico e espaço diegético; a visualidade de O Farol é construída pelo que parece um palco improvisado com gaivotas de cartolina; a arquitetura interna de uma mansão, em Parasita, se externaliza no desenvolvimento do filme; e as dimensões de Entre Facas e Segredos dão forma fílmica ao que poderia ser um tabuleiro do jogo Detetive.

Direção de Arte:

  1. Maravilhosa Sra. Maisel
  2. Um Lindo Dia na Vizinhança
  3. O Farol
  4. Parasita
  5. Entre Facas e Segredos

Há algo na aparente precariedade cênica de O Farol que é realmente muito único e que me interessa bastante: o espaço isolado se torna motivo para uma encenação reduzida. O farol em questão, onde trabalham esses dois homens, se ergue hesitantemente na paisagem e parece que está sempre prestes a ser desmontado. Podemos perceber por quão fina linha da ficção esse espaço se sustenta, mas os personagens não conseguem ver o que vemos – e descobrem nesse espaço uma atordoante realidade que os enclausura.

Cenografia:

  1. O Farol
  2. Maravilhosa Sra. Maisel
  3. Entre Facas e Segredos

Pose é um dos fenômenos criativos mais relevantes da televisão atual, apropriando-se de gêneros estabelecidos para construir uma narrativa sobre comunidade (ou reconstruir as narrativas estabelecidas sobre comunidade e família). Dentro e fora dos bailes que são o fio condutor da cidade e dos tempos em que a série se ambienta, o que se demonstra é a excelência do trabalho de arte, em especial dos figurinos, incorporados de maneira perfeitamente específica a cada personagem.

Figurino:

  1. Pose
  2. Adoráveis Mulheres
  3. Maravilhosa Sra. Maisel

Videoclipe:

  1. bury a friend, Billie Eilish (dir. Michael Chaves)
  2. Cellophane, FKA Twigs (dir. Andrew Thomas Huang)
  3. More Than That, Lauren Jauregui (dir. Lauren Dunn)

Menção Honrosa:

A obra do coletivo Saquinho de Lixo na exposição À Nordeste no Sesc 24 de Maio, em São Paulo (SP), dá sentido à pluralidade claramente buscada pela curadoria que montou aquele espaço e propõe uma outra forma audiovisual, uma outra materialidade no agenciamento desse Nordeste. É uma criação excepcional que eu espero que logo possamos ver exposta em outros cantos do país.

Anos anteriores:

Apanhado do Cinema 2018

Apanhado do Cinema 2017

Apanhado do Cinema 2016

Apanhado do Cinema 2015

Apanhado do Cinema 2014

Apanhado do Cinema 2013

Apanhado do Cinema 2012

Apanhado do Cinema 2011

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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