Milos Morpha

por Cesar Castanha

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03 de junho de 2015, 09h23

A arte do crítico

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Oscar Wilde, figura essencial da antinostalgia vitoriana, tem um conto maravilhoso chamado O Retrato do Senhor W. H.. É a história de três intelectuais e a teoria literária de um deles, que, se provada, transformaria radicalmente a leitura hegemônica da obra de William Shakespeare.

A teoria exposta em O Retrato do Senhor W. H. (que pode ser encontrado em sua versão original ou traduzido para o espanhol no site Domínio Público) é tão real quanto fictícia. Shakespeare de fato deixou na dedicatória de The Sonnets o mistério (talvez não pretendido) do nome Mr. W. H., e diversas pesquisas anteriores a Wilde tentaram dar conta de descobrir a quem pertencem as iniciais. Cyril, personagem do conto, defende com uma habilidade crítica invejável que o Sr. W. H. seria um jovem e belíssimo ator de Shakespeare que teria interpretado suas heroínas femininas, de Julieta a Desdêmona. O que move a narrativa do conto, no entanto, não é tanto a teoria quanto a crise da teoria: Cyril descobre-se incapaz de achar um documento que comprove a existência desse jovem ator, embora cada soneto de Shakespeare ganhe mais força de sentido quando se pensa ser dirigido a ele. Diante do seu fracasso crítico, Cyril se suicida e confia a um amigo descrente a continuidade da sua busca.

Para O Retrato do Sr. W. H., o suicídio do jovem Cyril não é tão trágico quanto cômico. “Já é terrível o bastante dar a vida por motivos religiosos, mas por uma teoria literária!”, expressa horrorizado o narrador-personagem. Oscar Wilde frequentemente representa a crítica com muita graça. Em O Amigo Devotado, outro conto fantástico, de características mais infantis, um rato repreende o pintarroxo que lhe conta uma fábula do início ao fim: “Todo bom contador de histórias hoje em dia começa do fim, depois vai para o início e conclui no meio. É o novo método. Eu ouvi tudo sobre isso outro dia de um crítico que conversava com um rapaz. […] Eu sei que ele estava certo porque usava óculos azuis, era careca e respondia ‘Tolice!’ a qualquer observação do seu companheiro”.

Na peça A Decadência da Mentira, Wilde transforma a crítica na própria obra de maneira bem mais direta e radical quem em O Retrato do Sr. W. H., talvez porque Retrato trouxesse uma reconstituição muito narrativa da teoria e do próprio Shakespeare, enquanto A Decadência da Mentira é uma teoria estética potencialmente enfadonha e declaradamente arrogante.

Quando, no meu entusiasmo, descrevi O Retrato do Sr. W. H. para meu amigo e colaborador Francisco Cannalonga, este recebeu a história com a interessante leitura, que já inseri aqui, da teoria posta em crise. O que me interessa mais é a maneira como Wilde cria essa crise, constantemente ridicularizando as teorias expostas. Isso acontece também no excelente ensaio (bem mais interessante à perspectiva contemporânea que A Decadência da Mentira, porque menos preso a referências da época) O Artista como Crítico, em que outros personagens zombam de determinada teoria, também sugerida pelo próprio texto e, por sua vez, têm seu discurso posto em dúvida pelo humor ácido de Wilde.

Na primeira exibição de Virgindade (Chico Alencar, 2014), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a professora Angela Prysthon comparou Mama (André Antônio, 2012), o primeiro filme do Surto & Deslumbramento, em que dois personagens discutem a música homônima de Valesca Popozuda, com O Artista como Crítico. Não há no discurso de Rodrigo Almeida e Chico Lacerda em Mama qualquer ironia à moda Wilde. É uma conversa séria sobre legitimação, arte e representação, uma questão contemporânea necessária estava sendo colocada ali com um tom de engajamento político por “duas bichas na grama”, como se define Lacerda dentro do filme. É claro que Antônio coloca o discurso em crise nas suas escolhas estéticas das bichas, da grama, do vinho e do tom lacônico das cenas com Pedro Pinheiro Neves, mas, se falarmos especificamente de Mama, está igualmente claro que, ao colocar a legitimidade do discurso em crise, ele o enriquece. Que o filme ponha em risco a legitimidade do seu discurso para defender a legitimidade do discurso de Valesca Popozuda mostra, pra mim, além de um desafio estético, um compromentimento ético com sua causa.

Esse texto inteiro tem uma única motivação. Para defender-se das censuras às escolhas do júri que liderou, com seu irmão, no Festival de Cannes 2015, Joel Coen disse: “Este é um júri de artistas, não um júri de críticos”. A limitação do seu pensamento oculta a interseção do crítico artista, do crítico que não recebe salário para elogiar aspecto X ou Y da obra, mas que se engaja nela e por ela. Em oposição ao crítico artista há o artista que não é crítico, que não ama absolutamente a arte que faz, mas apenas a sua parte dela. Esse tipo de parasita (que passa longe de ser o caso dos Irmãos Coen) encontra às vezes abrigo na crítica que despreza. Não é que esta seja desavisada, mas ela apenas está muito encantada em achar mais uma peça do quebra-cabeça para se importar com o homem que a criou.


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